Sentado em um banquinho ao lado da entrada do Teatro Princesa Isabel enquanto espera a equipe de reportagem, Orlando Miranda, dono do estabelecimento desde a sua fundação, parece lembrar os gloriosos tempos que passaram por aquele tapete vermelho que cobre o assoalho da casa, inaugurada em 1965. Sua história se mistura com a do antigo teatro de Copacabana, como se muitas vezes fossem um só. Após incontáveis momentos de sucesso e também de fracasso, Miranda, hoje, trava uma batalha contra o atual cenário da casa. Luta pela permanência do espaço e de suas memórias, por ocasiões com dinheiro do próprio bolso. Entre parcerias com novos produtores teatrais e aluguéis do espaço para academias de dança e de teatro, ele, que tem 83 anos, vai se mantendo como pode e sonhando com a continuidade do espaço.
Ao entrar pelas antigas portas é como se o teatro tivesse parado no tempo — assim como Miranda, que acende, sem cerimônia, um cigarro no corredor. Nas paredes, fotos de Procópio Ferreira, Regina Duarte e Jardel Filho e cartazes de célebres montagens como “Gardel” são uma espécie de museu vivo que Miranda cuida com carinho. Poderia passar horas contando a história de cada uma das das imagens. A casa foi fundada com a proposta de apresentar apenas peças infantis, mas antes mesmo de inaugurá-la, Miranda e seus antigos sócios, Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira, perceberam que não conseguiriam sustentá-la assim. Abriram as portas, portanto, com a “Guerra mais ou menos santa”, de Mário Brasini, e receberam presenças ilustres como Cacilda Becker, Fernanda Montenegro e o então governador Carlos Lacerda.
— Eu e meus sócios escrevíamos peças infantis. Pensamos em montar o teatro só para crianças, mas essa ideia era incipiente, porque o local não se sustentaria assim. No almoço de inauguração, toda classe teatral apareceu. Eram umas 400 pessoas, inclusive o Carlos Lacerda. A inauguração de um teatro particular em Copacabana era um grande acontecimento, principalmente porque o bairro não tinha nada, todos os teatros e cinemas ficavam concentrados no Centro e na Cinelândia — relembra Miranda.
Até os anos 1990, o Princesa Isabel viveu mais momentos de glória do que de fracasso. Em 1968, por exemplo, estreou “Roda viva”, escrito por Chico Buarque. Em 1989, “Trair e coçar é só começar”, de Marcos Caruso, que permaneceu em cartaz na casa até 1988, com 704 apresentações, e que até hoje roda o país ininterruptamente. Hoje, o espaço recebe cerca de quatro peças por mês, a maioria com temporadas curtíssimas, que não chegam a 30 dias.
Mesmo com o baixo funcionamento, Miranda se dedica de forma igual. Está todos os dias no teatro. Cuida da manutenção das cadeiras, tira um cochilo nos bancos, mexe na iluminação, é porteiro. Tem apenas dois funcionários: uma bilheteira, que trabalha com ele há 40 anos, e um técnico de som e iluminação. E está em busca do terceiro: um profissional para limpar o teatro.
Segundo ele, as despesas chegam, “de forma muito econômica”, a R$ 25 mil por mês. Ela são pagas com a arrecadação da bilheteria e com o aluguel para apresentações de academias de dança e de teatro.
— Sou porteiro e, às vezes, bilheteiro. Só não pego a limpeza porque não tenho mais condição. Em muitas ocasiões fico sem salário. Não deveria ter montado um teatro. Era ator, errei na minha vida — conta Miranda, sem tanta certeza assim de ter errado.
UM ATO DE AMOR E RESISTÊNCIA
O Teatro Princesa Isabel também funcionava como um QG para reunião da classe artística na época da ditadura militar. Miranda, que durante anos fez parte do Serviço Nacional de Teatro (SNT), era uma espécie de mediador entre os artistas e a ditadura. Também produziu peças grandiosas não só no Princesa Isabel como em teatros de todo o país, como “O botequim”, de Gianfrancesco Guarnieri, e “Os pais abstratos”, de Pedro Bloch. Hoje, ele abriu a casa para o produtor Guilherme Oliveira, que desde o ano passado sugeriu uma revitalização artística no espaço. Esteve em cartaz com “Em nome do filho” e “4 na kitchenette”, que volta ao teatro no dia 14 de abril, todas as sextas, às 20h. As duas montagens fazem parte do projeto Comédias Cariocas.
— Eu sou do bairro, frequentei durante toda a minha infância este teatro e agora vim sem patrocínio fazer o projeto de revitalização artística. É teatro à moda antiga. É louvável esta casa se reinventar — conta Oliveira.
Miranda é todo à moda antiga. Não quer fomento do governo e critica a meia- entrada.
— Os produtores colocam o preço do ingresso altíssimo para poder compensar a meia-entrada. São poucas as pessoas que pagam o ingresso. O teatro tem lotação quase toda de meia. É muito complicado para a bilheteria. O teatro de rua é de resistência — desabafa ele, afirmando que, em um dia de casa cheia, tem 200 dos 280 lugares ocupados, mas a média de público é de 120 pessoas.
Monique Lafond é uma das atrizes que passaram pelo palco do teatro recentemente. De volta às coxias do Princesa Isabel com “4 na kitchenette”, ela fala com carinho do espaço e do dono.
— Comecei minha carreira aqui há exatamente 50 anos, quando tinha 13. De lá para cá, este teatro fez parte da minha vida, seja pelas peças ou pelas reuniões do Sindicato dos Artistas, a quem Orlando Miranda sempre abriu as portas tão generosamente para que pudéssemos lutar por nossos direitos — desmancha-se ela.
Com certa dose de saudosismo, Monique lembra os tempos em que a agenda local era composta por espetáculos de terça a domingo, com textos para todos os gostos.
— Outro dia eu comentei com o Artur Xexéo (jornalista e colunista do GLOBO) sobre como era bacana ir ao Princesa Isabel, por ser acolhedor, ter acústica boa e ficar em uma galeria bacana. Infelizmente, hoje as pessoas preferem o teatro de shopping. E mesmo assim o Orlando persiste. Sabemos de todas as dificuldades de se ter teatro de rua. O Orlando e o espaço são merecedores de muitos mais anos prósperos — opina.
A atriz acrescenta:
— O Orlando, apesar da idade, tem uma “memória do cão”, lembra de tudo, foi produtor de peças de que participei rodando o Brasil todo. A continuidade do lugar aberto é um ato de amor — diz Monique Lanfond.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo