Soltaram os bichos! Para o deleite de uns e pavor de outros, são cada vez mais frequentes os chamados para captura de animais silvestres em áreas urbanas da cidade. No ano passado, foram feitos 908 resgates pela Coordenadoria de Meio Ambiente da Guarda Municipal — a maioria na Região Oceânica. O número é 64% maior do que o de 2015, quando foram realizados 553 recolhimentos. Duas teses podem explicar esse aumento: o avanço da cidade sobre antigas áreas verdes habitadas pelos animais ou o maior acionamento, pela população, dos agentes municipais.
De qualquer maneira, sendo o contato mais frequente ou não, o número de resgates é invejável na cidade. Para se ter uma ideia, na capital, cujo território é cerca de dez vezes maior do que Niterói, foram 1.934 animais recolhidos ano passado, pouco mais do que o dobro do total capturado pelos guardas niteroienses.
Como as áreas verdes protegidas representam 40% do território de Niterói, é de se esperar que os habitantes selvagens dessas áreas mostrem as caras para além das matas, diz Sávio Freire, professor de Zoologia e Medicina de Animais Silvestres da UFF.
— Quando é um caso repetitivo, é preciso criar artifícios que restrinjam a entrada deles nas residências, como o uso de telas em janela. E principalmente organizar a questão do lixo, da disponibilidade de alimentos para essas espécies. O lixo atrai roedores, e os roedores atraem os répteis, as serpentes — explica.
São os chamados animais filantrópicos, que se aproximam do ser humano, das residências, por algum interesse próprio, sem que haja uma vontade do homem nisso. Caso dos ratos, pombos e gambás, mas que também podem incluir cobras, lagartos e jacarés.
Gambás são os mais frequentes e representam 306 resgates no ano passado. Já as assustadoras, mas em geral inofensivas, jiboias foram recolhidas 73 vezes, contra apenas nove em 2015. Entre as peçonhentas, foram capturadas 16 jararacas e quatro corais — essas normalmente são levadas para o Instituto Vital Brazil, onde pesquisadores produzem soro antiofídico a partir do veneno dos animais. Alguns vizinhos são mais inusitados, como o jacaré-do-papo-amarelo resgatado em 2 de janeiro no meio da Rua Evaldo Gonçalves, em Itaipu.
O casal Eliana e René Carvalho mora há dez anos numa casa em Serra Grande, loteamento localizado na zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset), no fim da Avenida Central. Tempo suficiente para se acostumarem e aprenderem a lidar com jararacas, jiboias, lagartos e aranhas. Quem não aceita bem a convivência é o pastor alemão deles, que já precisou ir ao veterinário três vezes com espinhos de ouriço-cacheiro no rosto; e uma vez, depois de ser picado por uma aranha-armadeira.
— Quando viemos morar aqui, havia muito menos casas, muito mais pássaros. Então, na verdade, nós é que estamos invadindo o espaço deles — reconhece Eliana. — Nós perdemos o medo de cobra, por exemplo, porque, com o tempo, entendemos melhor o comportamento dos bichos.
Morador do Cafubá, Felipe Ribeiro relata ainda um fenômeno curioso. Segundo ele, as serpentes passaram a ser vistas com frequência desde que foram iniciadas as obras do túnel Charitas-Cafubá:
— Parece que corriam das explosões. É impressionante como passaram a aparecer cobras no quintal e na rua depois das obras.
A Coordenadoria de Meio Ambiente da Guarda Civil Municipal de Niterói orienta a população a nunca manusear animais silvestres e a ligar imediatamente para o número 153, para que o resgate ou captura seja feito por pessoas especializadas, visando à segurança do animal em questão e à do cidadão. O Corpo de Bombeiros também tem equipe especializada, que pode ser acionada pelo número 193.
Quando o animal não está ferido, ele é reintegrado ao seu habitat natural. Já quando é preciso cuidado especial, ele é encaminhado ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras), que fica em Vargem Pequena, na Zona Oeste do Rio.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Felipe Queiroz