Nos quase quatro séculos e meio que se seguiram à sua fundação, Niterói acumulou um rico acervo de estátuas e bustos em homenagem a personagens que tiveram relevância em diferentes momentos da História. A coleção de figuras expostas pela cidade poderia ser motivo de orgulho maior, não fosse um vazio intrigante constatado pelo GLOBO-Niterói: não há sequer uma representante do gênero feminino homenageada em monumentos na cidade.
Pelo menos 53 bustos ou estátuas de corpo inteiro são listados no catálogo “Monumentos de Niterói”, lançado pela Fundação de Artes de Niterói em 1992. Somadas as placas e outros memoriais, chegam a 71. Todos em homenagem a homens. Não haveria uma única figura feminina interessante o suficiente para merecer o prestígio de ser eternizada, geralmente em bronze, para ser revista e lembrada no dia a dia da cidade? Hildete Pereira de Melo, professora da UFF, que há décadas estuda os movimentos feministas, diz que não é bem assim. Ela afirma que não são poucas as mulheres oriundas da cidade ou que passaram por ela e contribuíram de alguma forma para a sociedade.
— Isso é a sociedade passando o recibo — provoca a professora. — A História é feita de histórias que ignoram as mulheres. A estrutura de poder é masculina, patriarcal, e isso explica por que são tão poucos os monumentos femininos. Na hora de fazer as homenagens, escolhem as figuras poderosas, e estas são sempre homens.
De imediato, ela lembra uma niteroiense com lugar de destaque na cidade, mas que jamais mereceu esse tipo de homenagem: Nair de Teffé, primeira caricaturista mulher do Brasil e que veio a ser primeira-dama do país, mulher do presidente Marechal Hermes da Fonseca. “Rian” (Nair ao contrário), como ela assinava seus trabalhos, marcou época e quebrou paradigmas com suas atitudes.
Consta que Nair fez tocar pela primeira vez música popular brasileira nos salões nobres da República, por meio de Chiquinha Gonzaga, o que causou furor nos jornais e entre os poderosos da época. Entre eles, Rui Barbosa, que bradou contra “o absurdo de o Palácio do Catete ter feito uma sessão para tocar música que não era erudita”, em episódio que ficou conhecido como Noite do Corta Jacas, em referência à música de Chiquinha Gonzaga apresentada no salão.
Busto de Dom Pedro II instalado na Praça da Cantareira – Pedro Teixeira / Pedro Teixeira/27-04-2015
O pesquisador Emmanuel de Macedo Soares, autor do livro “Monumentos de Niterói”, lembra que o costume de erguer esculturas perdeu espaço na cultura das cidades, mas, quando era hábito, refletia as lembranças de uma sociedade essencialmente machista. Ele cita outras duas mulheres notáveis que viveram em Niterói: a segunda médica formada no país, a doutora Ermelinda Lopes Vasconcelos; e a chilena Gabriela Mistral, prêmio Nobel de literatura, que viveu na Praia das Flechas.
— São estátuas e bustos de poetas, artistas, militares e políticos de um universo totalmente masculino. A cultura brasileira foi vivida e construída por homens durante três séculos e meio. Para mudar isso, seria preciso retomar uma tradição que já quase não existe mais. Hoje em dia, é raro falar em fazer um busto. O máximo que se coloca é placa de inauguração de obra para expor o nome do prefeito e do governador. Antigamente, era toda semana. Para se ter uma ideia, somente no estado do Rio existem cerca de 1.600 bustos de Getúlio Vargas — conta o pesquisador.
Outra ilustre filha do município, por exemplo, que veio a se tornar uma das mulheres mais famosas do Brasil em sua época, Leila Diniz é homenageada com seu nome em uma pequena e quase desconhecida rua no bairro de São Francisco e na sala de cultura da Imprensa Oficial do estado. Os nomes de rua, por sinal, também são essencialmente dedicados a figuras masculinas.
Mas se dá para pensar em reverter isso, o Rio pode ser um exemplo. A cidade voltou a erguer estátuas, embora continue privilegiando os homens. Nos últimos quatro anos foram inaugurados 31 monumentos na capital e apenas dois são em homenagens a mulheres reais: a escritora Clarice Lispector e a bailarina Mercedes Baptista, ambas fixadas este ano.
A atual gestão municipal instalou três novos monumentos na cidade. Segundo a Fundação de Arte de Niterói (FAN), Niterói ganhou de presente do governo da República Tcheca uma estátua do espiritualista Sri Chimnoy, levada em novembro de 2014 para o Parque da Cidade. Em novembro do ano passado, a FAN autorizou a instalação de um busto do jornalista Luis Antônio Pimentel na Praça Getúlio Vargas. E em agosto deste ano colocou, na Praça Juscelino Kubitschek, a escultura “O goleiro”, vencedora do Prêmio Arte e Monumento Brasil 2016, da Fundação Nacional de Artes (Funarte).
O presidente da FAN, André Diniz, lembra que homenagens às mulheres podem ser vistas em patrimônios como o Museu Janete Costa e na Sala de Cultura Leila Diniz. Diante da constatação do GLOBO-Niterói, porém, ele afirma que já está mais do que na hora de homenagear também com monumentos as figuras femininas que contribuíram para a construção de nossa sociedade.
— Vamos lançar, no próximo ano, uma consulta popular para ver quem será a primeira mulher a ganhar uma estátua ou busto na cidade — anuncia Diniz, afirmando que será a primeira personagem homenageada de uma sequência.
SÓ DUAS REPRESENTANTES NA CÂMARA
Enquanto isso, na política, a partir do ano que vem, a Câmara dos Vereadores de Niterói diminuirá de três para duas a quantidade de mulheres entre os 21 representantes do povo da cidade, com Talíria Peltrone (PSOL) e Verônica Costa (PT). Embora minoria no gênero, elas chegam com a força do eleitorado, uma vez que Talíria foi a campeã das eleições, com 5.121 votos; e Verônica, a sexta mais votada, com 4.501 votos.
— É muito ruim a gente só ter duas mulheres na Câmara, numa cidade onde somos maioria. Não tem justificativa plausível — lamenta Verônica. — Mas tenho certeza absoluta que eu e Talíria vamos pautar como nunca as questões de gênero na cidade.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior