Nos últimos anos, a Barra se viu entre grandes canteiros de obras, com vistas à Olimpíada. E, se a situação foi um transtorno para todos, para o comércio representou perdas significativas. Pontos com acessos restritos e interdição de ruas prejudicaram sobretudo pequenos empresários, e o resultado foi o fechamento de diversos estabelecimentos. Ao fim das obras, a expectativa era que os números de faturamento voltassem ao patamar habitual. Mas a retomada ainda não aconteceu, seja devido à crise econômica ou como consequência de transformações viárias. Enquanto aguardam um 2017 mais produtivo, comerciantes elaboram estratégias para voltar a fechar as contas no azul.
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As obras do metrô representaram um período de muita dificuldade para o comércio da Avenida Armando Lombardi. O trecho que vai do shopping Barra Point até o Condado de Cascais, passando pelo Barra Life e por um posto Ipiranga, foi praticamente tomado pelo canteiro da Linha 4 do metrô durante anos. A liberação da pista significou alívio, mas os centros comerciais ainda não conseguiram se beneficiar da grande circulação de pessoas, mais de cem mil por dia, na estação Jardim Oceânico.
— Estamos voltando a ter movimento, mas eu achava que seria muito melhor. Passamos pelos anos de obras com muita dificuldade; o prédio ficou inacessível — diz Fernando Neves, administrador do Condado de Cascais. — A verdade é que o problema da mobilidade ainda não foi totalmente resolvido, mesmo com o metrô. Pelo projeto da prefeitura, seriam implantados ônibus alimentadores aqui, o que não foi feito. Por isso, muitos moradores do Jardim Oceânico e do Itanhangá continuam usando carros, o que atrapalha o trânsito e dificulta o acesso ao prédio.
Desde o início das obras da Linha 4, segundo Neves, 18 lojas e 15 salas do Condado de Cascais encerraram as atividades. Somente agora, diz, a procura voltou. Quatro dos espaços vão ser ocupados.
— Os lojistas andam reclamando bastante. A crise econômica está começando a arrefecer, já dá para ter esperança. Investimos muito na melhoria do prédio, aumentamos o espaço da calçada para pedestres, e o ponto é excelente. Mas ainda falta apoio da prefeitura — diz ele, que também reclama do aumento do número de camelôs nas saídas do metrô, que representam uma concorrência para seus negócios.
Corredores vazios. A administração do shopping Barra Point planeja ações para atrair consumidores e aumentar a ocupação: atualmente, cerca de 40 lojas estão fechadas – Guilherme Leporace / guilherme leporace
No Barra Point, o cenário também não é animador. Das cem lojas do shopping, 40 estão vazias, numa média que se mantém há alguns anos. Curiosamente, o fechamento se intensificou, segundo o síndico Horácio Adão, nos últimos meses, após a inauguração da Linha 4.
— Nosso ponto ainda não está se beneficiando comercialmente do metrô. Depois das obras, fecharam seis lojas, mas vamos tentando fazer promoções e ações de divulgação. Estamos prontos para receber o cliente e o investidor; falta a crise passar — diz.
Avenida Salvador Allende foi a mais afetada
Entre as ações do Barra Point estão a panfletagem dentro do metrô; o projeto de instalar um píer nos fundos do shopping, para permitir o acesso fluvial; e a realização de eventos, como feiras orgânicas, nos fins de semana, a partir de fevereiro. O administrador do Barra Point, Fabio Ribeiro, diz que, antes da chegada do metrô, o acesso dos carros até o shopping era mais simples:
— Havia um retorno bem na nossa frente. Agora, quem quer continuar na Avenida das Américas passa direto. E as saídas do metrô também são distantes. Até solicitamos, durante as obras, que houvesse uma mais próxima.
Em fevereiro, Lino Teixeira comprou uma loja no shopping e instalou ali um escritório de coworking, inaugurado em setembro, junto com o metrô. Ele diz que a procura tem sido razoável, e prevê melhores ventos no ano que vem.
— O acesso e a sinalização ficaram ruins. Esperamos que o cenário melhore em breve. Pelo menos, conseguimos que a prefeitura instalasse uma placa indicando a proximidade do shopping, há duas semanas — afirma Teixeira.
Presidente da Associação Comercial e Industrial do Recreio (Acir-Transoeste) e da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Alfredo Lopes reconhece a situação difícil da Barra e do Recreio, mas afirma que o cenário na região ainda é melhor que o da média da cidade. Entre os problemas ainda não resolvidos, ele cita a inexistência de linhas de ônibus de turismo que transitem entre os hotéis da região e levem a locais próximos, como praias e centros comerciais.
— Solicitei à prefeitura a criação de um serviço de transporte, como existe em muitas cidades do mundo, no qual o turista compra uma passagem que vale o dia inteiro em ônibus que ficam circulando dentro de uma região específica. Isso ajuda a ocupar os hotéis e a levar clientes aos shoppings — diz.
Lopes ressalta que as dificuldades já levaram pelo menos duas bandeiras a desistirem de operar hotéis na Barra: o Ramada no agora Quality Hotel; e Pestana, na praia.
Para o presidente da ABIH, os comerciantes que mais sofreram com as obras recentes são os instalados entre a Avenida Salvador Allende e a Estrada dos Bandeirantes, afetados durante as obras da Transolímpica.
— Lá foi um caos total. Claro que você espera que obras tragam transtorno, mas foi algo acima do tolerável. Não havia sinalização decente também — diz Lopes.
“Acima do tolerável”. Avenida Salvador Allende: interdição causou graves consequências ao comércio – Guilherme Leporace / Agência O Globo
A julgar pela visão dos lojistas, o comércio dessa área realmente não conseguiu superar o trauma causado pela construção da via expressa. Prejudicados pelo fechamento total de trechos da Salvador Allende, que foi duplicada, os comerciantes atualmente sofrem não só pela crise econômica, mas pela nova configuração viária.
— Antes, todo carro passava pela Estrada dos Bandeirantes; agora, como há a opção de seguir direto pela alça da Transolímpica, o movimento caiu muito. Se eu conseguir faturar metade do que conseguia antes das obras, comemoro — diz Eloisa Gomes, gerente do Atacadão Madeiras, na Estrada dos Bandeirantes.
Para Eloísa, o período durante as obras foi péssimo, mas a situação continua ruim:
— Até para manter o quadro de funcionários fica difícil. Como não vendem muito, eles ganham menos e não querem ficar. Entre 2014 e 2016, foi um fracasso total, muitas lojas fecharam. O outro atacado que tinha aqui fechou, o que é ruim, embora ele fosse um concorrente, porque, quanto mais lojas, mais clientes são atraídos para a região.
No Recreio, BRT acabou com vagas de estacionamento
Projetando um aumento populacional naquela região, um centro comercial foi aberto pela BR Stores na Salvador Allende, ao lado do condomínio Minha Praia. O negócio, porém, não se desenvolveu como o imaginado. Por muito tempo o trecho da avenida onde fica o empreendimento esteve totalmente interditado. Uma academia e uma lavanderia não resistiram e encerraram as atividades. Nos últimos meses, a situação melhorou, mas não o suficiente, diz Leandro dos Santos, gerente do Habib’s:
— O movimento ainda não está igual ao que era antes da obra. Estamos tentando sobreviver. Na teoria, era para a mobilidade ter melhorado, mas a crise financeira também atrapalha. Nenhum lojista está satisfeito. O empreendimento tem tentado promover ações como fazer panfletagem e solicitar a instalação de placas de sinalização, mas elas ainda não surtiram efeito.
A melhoria da mobilidade, que, em alguns trechos, teve como efeito colateral a queda no movimento do comércio, não é uma situação inédita. Com a inauguração do corredor Transoeste, em 2012, as vagas de estacionamento nas pistas laterais da Avenida das Américas, na altura do Recreio, foram extintas. O presidente da Amore, uma das associações de moradores do bairro, Dair José, diz que as consequências foram drásticas para as lojas de rua da região, e que, desde então, o comércio da área jamais se recuperou.
— Cerca de 150 lojas fecharam na Avenida das Américas. Se levarmos em conta a crise econômica de agora, o número de estabelecimentos fechados no bairro nos últimos quatro anos pode chegar a 600 — afirma Dair José, que diz ter alertado a prefeitura a s respeito das dificuldades dos comerciantes. — Nós fizemos abaixo-assinado; todo mundo sabia que isso poderia acontecer. Agora, além de faltarem estacionamentos, quase não passam mais ônibus nas pistas laterais. As lojas perderam muitos clientes, e também espaço para carga e descarga. Foi um prejuízo muito grande.
A Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio) vai realizar, no ano que vem, o impacto das obras de mobilidade no comércio da Barra e do Recreio. Alfredo Lopes, da ABIH-RJ e da Acir Transoeste, acredita que, apesar das dificuldades ainda existentes, o pior já passou, e agora está na hora de os setores de comércio e serviço “aproveitarem o bônus” trazido pelas mudanças viárias e pelos novos modais de transporte.
— Na Barra e nos bairros vizinhos, há algumas vantagens, como entidades civis organizadas e fortes, que conseguem cuidar do espaço público, conservar as ruas, e assim criar um ambiente convidativo para o comércio, mesmo em períodos de transtorno. Durante as obras, muita gente sofreu, mas agora começaram a retomar o movimento — diz.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior