Um presente de Deus. A definição parte do próprio Vicente Mendonça Filho, de 54 anos. Marceneiro, ele é artista por opção — e vocação — desde 1994. Naquele ano, conta, o morador de Manilha, em Itaboraí, viu uma reportagem publicada no GLOBO sobre o trabalho de um artista plástico que fazia pinturas em cabeças de pregos. Nascia, assim, a nova vocação que, além de passatempo, o ajudaria a vencer o alcoolismo: confeccionar peças diversificadas em miniaturas. Hoje, com cerca de três mil peças em seu acervo, o artista adotou nova alcunha: Vicente das Miniaturas.
— Eu era alcoólatra. Comecei a fazer para distrair a mente. Sou muito agitado, não tenho muita paciência. Por isso não sei explicar como consigo fazer as miniaturas. É um dom — diz o artista, frequentador da Assembleia de Deus.
Basta um estilete, um alicate, uma lixa e tempo, que pode variar de um a três dias, dependendo da complexidade de produção de cada peça. Dessa forma, Vicente transforma o material — 100% reciclado, ressalta — em obras de arte. E em recordes. Em 2004, o marceneiro entrou para o Rank Brasil, empresa brasileira que, a exemplo do Guinness, homologa recordes nacionais. O feito foi uma quadra de vôlei de dois milímetros por um milímetro esculpida na cabeça de um alfinete. Já em 2007, outra obra de arte mereceu o mesmo reconhecimento: um lápis de apenas três milímetros.
De tão pequenas, as peças exigem o auxílio de uma lupa para serem contempladas. Essas criações, porém, não estão sozinhas. No mesmo estilo de produção, há réplicas do Maracanã, do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar e até mesmo das torres gêmeas do World Trade Center, entre outras construções. A inspiração, segundo Vicente, vem de revistas.
OBRAS DE ARTE EM MINIATURA
— Gosto de reproduzir pontos turísticos do Rio e do mundo em miniatura. Eu vejo em uma revista e começo a fazer — afirma.
O acervo de Vicente, porém, não é feito só de peças que precisam de lente de aumento para serem contempladas. Uma peça de dominó, por exemplo, foi transformada em pequeno complexo esportivo, com três quadras (basquete, tênis e vôlei de praia) nas mãos do miniaturista. Faltando 89 dias para o início dos Jogos Olímpicos disputados no Rio, referências ao maior torneio esportivo do planeta não poderiam faltar. De Tom e Vinicius, mascotes oficiais da competição, a luvas de boxe e utensílios de outros esportes, sempre feitos em uma escala reduzida, estão todos lá.
Em busca de reconhecimento, embora não deixe de caminhar com os pés no chão, Vicente não deixa de sonhar:
— Assim que comecei a fazer as miniaturas, ouvi que faria sucesso na colônia (Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio). Eu não sabia o que era. Depois, uma pessoa me disse que era onde ficavam os malucos. Mas sou insistente. Ainda quero entrar para o Guinness Book — diz, entre risos.
O marceneiro, que já expôs sua coleção em Santa Teresa e no Castelinho do Flamengo, aproveita a pergunta sobre a possibilidade de criar uma exposição permanente do seu acervo para sonhar ainda mais alto:
— Quem sabe, um dia, encontro um patrocinador para criar um museu?
Fonte: O Globo
Foto: Analice Paron
Postado por: Raul Motta Junior