Famosa entre músicos, cineastas, intelectuais, artistas e jornalistas, Gilda Mattoso ganhou da única filha, Marina, de 30 anos, um título que vai carregar para sempre. Ainda criança, ela disse que queria ser como a mãe e tascou: “Assessora de encrenca”. Empresária, produtora e assessora de imprensa, Gilda lançou um livro com este título em 2006. Boa contadora de casos, só de uns tempos para cá ela resolveu levar ao palco o seu dom tanto para viver quanto para contar boas histórias, com direito a imitações, sotaques e trejeitos.
A primeira plateia foi no ano passado, em Belo Horizonte, a convite do estilista Ronaldo Fraga. Em outubro, ela se apresentou em Niterói, onde nasceu. Terça, a partir das 21h, Gilda estará contando quase tudo, sob a direção do amigo Aloísio de Abreu, no Dummont Arte Bar, no Baixo Gávea.
— Não era a minha intenção partir do livro para um talk-show, mas há muitos casos que não entraram no livro porque escritos ficariam muito sem graça. Amigos insistiram para eu contar essas histórias ao vivo ou fazendo um programa de rádio. Teve alguém que sugeriu um podcast e outro falou sobre o talk-show. Eu parti para essa ideia, mas também não descarto as outras — diz Gilda, de 67 anos.
Mas que ninguém pense que ela vai entregar tudo o que passou, entre camarins, quartos de hotel e mesas de bar, ao lado de grandes nomes da música brasileira, como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Jobim, Renato Russo, Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Não vão rolar polêmicas ou indiscrições. Viúva de Vinicius de Moraes e com quem o Poetinha viveu seus últimos anos de vida, Gilda diz que tem segredos que não revelará nunca.
— Costumo dizer que não sou o mordomo da Lady Di. Nem todos os casos que colecionei ao longo de mais de 40 anos dedicados à cultura estão no livro, já que muitos perdem a graça se não forem acompanhados de sonoplastias e coreografias. Alguns não conto por uma simples questão de ética. Privo da intimidade de pessoas famosas e não seria legal revelar a intimidade de quem a compartilha comigo — explica a assessora, batizada assim por conta da personagem de Rita Hayworth no filme “Gilda”.
A niteroiense, que chegou a cursar Letras na UFF, mas não conclui o curso, fala com fluência inglês, francês, italiano e espanhol. Foi morar em Londres aos 20 e poucos anos, seguindo os passos de um dos seus seis irmãos. Quando morou na Inglatera, na década de 1970, trabalhou numa loja de luxo, a Smythson’s of Bond Street. Depois de atender Frank Sinatra e Greta Garbo, ela conta que ficou, definitivamente, curada do que chama de “síndrome de tietagem”. Da capital inglesa, ela partiu para a Itália, e por lá acabou conhecendo Franco Fontana, empresário italiano que cuidava dos grandes nomes da música brasileira na Europa. Além disso, dava aulas de português a executivos, fazia participações como backing vocal e ainda fazia bico como baby-sitter.
De volta ao Brasil,casada com Vinicius, Gilda continuou acompanhando de camarote a música brasileira. Após a morte dele, foi trabalhar na extinta gravadora Ariola e depois na Polygram. Desde 1989, ela tem seu próprio escritório, dividido com o sócio e compadre, Marcus Vinicius dos Santos, o sempre animado Marquinhos, que saiu com ela da Polygram.
—Nunca brigamos. Ele é o melhor padrinho que a minha filha poderia ter. Eu acompanho os artistas pela Europa e o Marquinhos gosta de ficar pelo Brasil mesmo. Teve uma cidade no Nordeste onde o Gil foi fazer show e lembro que eles ficaram hospedados na casa do prefeito — conta ela, sempre rindo.
Quase sempre às quintas-feiras, Gilda pode ser vista almoçando no bar Boa Sorte, na Rua Garcia D’Ávila, na companhia de Marquinhos.
— É o dia que a dona do bar, a portuguesa Conceição, prepara pernil—diz Gilda, que vai do boteco aos restaurantes refinados.
Hoje, a dupla cuida das carreiras de Gilberto Gil, Elba Ramalho, Frejat, George Israel, Marcelo D2 e Toni Garrido.
Em abril, há a possibilidade de Gilda se apresentar no Manouche, no Jardim Botânico.
A entrada para o talk-show no Dummont Bar custará R$ 30, mas haverá uma lista amiga a R$ 20. Reservas: 3199-0151.
Do carnaval paradão a reedição de livro
Marina tinha 1 ano quando Gilda Mattoso, cansada da rotina puxada de trabalho, resolveu aceitar o convite de Tom Jobim e Ana Lontra para passar o carnaval no sítio que a família tinha em Poço Fundo, localidade a 40 minutos de Petrópolis, onde Tom fez a letra e a música de “Águas de março”. Um lugar onde o silêncio só era quebrado pelo canto dos passarinhos ou pelas notas do maestro ao piano. Gilda conta que tinha acabado de contratar uma babá, Ondina, para ajudá-la com a filha. Rindo, ela lembra:
— Perguntei a Ondina se ela sabia quem era o Tom, um grande músico e compositor. Ela respondeu: “Assim de nome, não tô sabendo quem é”.
Na segunda de carnaval, a babá pediu um “particular” com a patroa, aos prantos. E disse que queria ir embora daquele lugar onde não não havia nem sombra de carnaval. Rindo, Gilda conta o motivo da fuga desesperada da empregada que não queria saber de descansar durante a folia.
— Ela disse para mim: “Chega de manhã, dona Gilda, lá vem esse homem de pijama e arrastando o chinelo. Ele dana a tocar um punhado de música triste e desanimada. Vai me dando uma tristeza, dona Gilda” — conta.
Testemunha de cenas cômicas e inesquecíveis, Gilda também tem uma história triste para contar, mas que permanece só nas páginas de “Assessora de encrenca”. No dia 24 de maio de 2004, ela estava sozinha e prestes a fechar o escritório onde trabalhava tamanha era a dor de cabeça que sentia. A campainha tocou, chegando a assustá-la. Era Toni Garrido, que no mesmo momento percebeu que Gilda não estava bem. Foi ele quem insistiu que ela não fosse para casa. Três dias depois, a assessora foi operada pelo neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, devido a um aneurisma cerebral periférico.
Lançado pela Ediouro, o livro que conta os casos de Gilda e um pouco de sua vida, com prefácio de Caetano Veloso e depoimento de Pedro Almodóvar na contracapa, hoje está com edição esgotada. A veia satírica e a discrição são mencionadas no texto do músico baiano, assim como o dom de viver de uma maneira positiva foi mencionado pelo cineasta espanhol, que escreveu “Gilda Mattoso é uma superdotada para viver o melhor da vida e fazer com que assim também vivam os demais”.
Como todo mundo pede um bis de seus escritos, ela revela:
— Não tem mais para comprar nas livrarias, mas meus amigos Bruno Thys e Luiz André Alzer, da editora Máquina de Livros, querem relançá-lo.
Alzer confirma que o projeto existe.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior