O cenário mais futurista do Rio — o Museu do Amanhã — virou ontem passarela para um grupo de homens e mulheres em situação de rua ou que vivem em hotéis da prefeitura. Foi o último ensaio para o concurso Miss e Mister Rua, que amanhã no fim do dia encerra, no próprio museu, o Festival Desculpe Incomodar. O desfile de ontem, que aconteceu sob a luz do pôr do sol e junto a um dos edifícios mais icônicos da cidade, já deu um gostinho do que o público assistirá durante a competição.
Vestindo looks sustentáveis do estilista Almir França, do projeto Ecomoda, e botas de serviço customizadas por alunos do curso de Design de Moda do Senais Cetiq, a turma mostrou o que aprendeu nas aulas do professor de modelos Eduardo Arauju: postura e autoestima lá em cima. É que não se trata de competição de beleza. Os vencedores serão aqueles que mais se destacarem, ou seja, os mais empoderados.
Essa é a terceira edição do Miss Rua — criado por Arauju em parceria com a Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos —, mas será a primeira vez do Mister. Outra novidade é o Museu do Amanhã como palco. O professor de modelos, acostumado a remar contra a maré no mundo da moda (ele é o cara por trás de projetos como Miss Plus Size e Senhoras do Calendário), teve desta vez uma surpresa: houve uma procura maior de homens. Há 19 inscritos no total, sendo que eles são 13. E entre os candidatas há uma trans.
O Festival Desculpe Incomodar, como o nome provocativo sugere, pretende derrubar os muros que separam a população de rua do resto da sociedade com apresentações de arte espalhadas por espaços culturais, hoje e amanhã. Entre as instituições parceiras, estão o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio (MAR). A programação será aberta hoje às 10h na Sala Cecilia Meirelles: destaque para uma bailarina do Teatro Municipal que, com moradores de rua, fará um trecho de “Cisne Negro” dançando do palco até o lado de fora do templo da música clássica, em plena Lapa.
Já o Miss e Mister Rua acontece às 16h de amanhã, ao lado do Museu do Amanhã, com vista para a Baía de Guanabara. O desfile promete também muita emoção. Ontem, ao final do ensaio, Arauju recebeu um abraço coletivo dos alunos. Os próprios modelos contam que abraçar uns aos outros é parte dos ensinamentos para o concurso, assim como manter o pensamento positivo.
— Para as pessoas serem felizes basta o gesto de dar a mão, de oferecer uma oportunidade — diz Arauju, contando, com olhos cheios d´água, que recebeu de um morador de rua um “muito obrigado por olhar para a gente”. — Isso não tem preço.
Jonathan e Jéssica
Jonathan Rosa da Silva, de 29 anos, é um dos candidatos a Mister Rua. Vivendo hoje nas calçadas de Bonsucesso, ele foi atraído para a competição pela mulher, Jéssica Cristina de Souza, de 39, que no ano passado ganhou o Miss Rua. Os dois se conheceram nas ruas tem um filho, Gabriel, de apenas dois meses. Por causa do bebê, hoje ela é acolhida por uma tia do companheiro em Bangu. Jonathan relutou um pouco pela timidez, mas viu na sua participação uma chance:
— Vai que surge uma oportunidade de trabalho? — sonha ele, que já foi garçom e barbeiro e está há dois anos morando nas ruas por causa do desemprego.
Mãe de outros quatro filhos de dois outros casamentos, Jéssica estava ontem animadíssima: passará a faixa a uma das mulheres.
— Fiquei mais vaidosa. A gente se sente artista – diz ela, completando:
— O concurso serve para mostrar que somos gente como todo mundo, porque há pessoas que ajudam, mas também quem nos despreza.
Ana Lucia
Ana Lucia Cortez, de 57 anos, já mostrou que é forte candidata. Com postura impecável, ela revela: foi modelo na infância e adolescência, quando apareceu em comerciais e fotografou para grifes. Mãe de três e com dois netos, a carioca da Taquara viveu por oito anos nas ruas por causa de “conflitos familiares”. Há dois meses dorme num abrigo do Centro, de onde sai para ir a médicos e vender balas em ônibus.
Soropositiva, ela teve recentemente sérias complicações de saúde. Mas, agora, com o tratamento em dia, é só sorrisos e animação na passarela, onde ontem deu até uns passinhos de dança.
— O concurso é como um recomeço da minha vida — conta ela.
Nestor
Ex-garçom de restaurantes de Bangu, Nestor Passos de Oliveira, de 38 anos, encara com seriedade o concurso. Assim como quase todo mundo ali, decidiu passar pelo desafio da passarela em busca de visibilidade, de alguém que lhe estenda a mão: desempregado, foi parar nas ruas em novembro do ano passado. Dormia na estação do BRT de Santa Cruz e na Praia do Recreio. Há cinco meses, foi convencido por assistentes sociais a ir para o Hotel Solidário de Bonsucesso.
Pai de uma menino de dez anos, ele mostra a foto do filho num celular que comprou com o dinheiro que conseguiu sacar do FGTS.
— No hotel solidário, consegui tirar minha carteira de trabalho, roubada com a minha mochila, e me mantenho limpo. Me ajudaram a preparar um currículo, e estou procurando emprego de garçom em Madureira — conta ele, que nos ensaios recebeu verdadeiras lições de otimismo — O concurso é uma oportunidade de me conhecerem, de alguém querer me ajudar e até me dar um emprego.
Fernanda Valeska
Enquanto outros pisam na passarela de olho numa chance, Fernanda Valeska Christovão da Silva, de 20 anos, vê o desfile como uma forma de protesto. Aos 12 anos, em consequência de brigas com a mãe, foi parar nas ruas do Centro. Ela não tem qualquer contato com a família e hoje está abrigada num hotel solidário da prefeitura. Politizada, não poupa ninguém:
— Estou qui desfilando mais pelo Bolsonaro, para mostrar a ele que morador de rua tem direito de ir e vir e é um ser humano — afirmou ela, em tom de revolta, criticando também ações como o confisco de pertences de moradores de rua pela Comlurb.
Mesmo vivendo dias como modelo, não gosta de ser clicada: ela prefere fotografar. Tendo estudado até a antiga 4ª série, quer voltar para as salas de aula. E sonha alto:
— Quero ser desembargadora.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior