Estátua do Pequeno Jornaleiro volta ao Centro do Rio após três anos guardada em depósito

O grito imortalizado do Pequeno Jornaleiro voltou a ecoar no Centro do Rio. Após ficar guardada por três anos em um depósito da prefeitura, a estátua foi reinaugurada nesta quinta-feira, num pequeno largo existente no encontro das ruas do Ouvidor e Miguel Couto com a Avenida Rio Branco. O local é o mesmo onde o monumento foi instalado originalmente, em 1933. A escultura chegou a ser transportada para a calçada da Rua Sete de Setembro, em 1996, onde permaneceu até 2016, quando precisou ser removida por causa das obras do VLT.

A obra reproduz um menino, em tamanho real, com roupas velhas e jornais debaixo do braço gritando as últimas manchetes na tentativa de vender exemplares. A cena, reproduzida em bronze fundido pelo artista Fritz — pseudônimo do caricaturista Anísio Oscar Mota —, era recorrente nas ruas da capital no início do século XX. A lembrança dos gritos de “extra!, extra!” bradados pelos jovens mexeu com a memória afetiva de jornaleiros que acompanharam a cerimônia, ainda em clima de celebração pelo Dia do Jornaleiro, comemorado na última segunda-feira.

— Meu pai foi distribuidor do número 1 da Revista Cruzeiro, do Chateaubriand, e a distribuiu até o último número. Eu, desde muito novo, acompanhava ele. Essa estátua vem lembrar que vamos continuar com as nossas bancas a prestar nosso serviço, sob o sol e sob a chuva. Apesar dos novos meios de comunicação, continuamos levando a informação, a educação e o entretenimento no formato impresso e, com certeza, nossa classe jamais será esquecida — disse o diretor do Sindicato dos Jornaleiros, Marcus Turano, de 72 anos, que é jornaleiro há 55 anos e falou em nome do presidente do sindicato, Nilton Carlos Dantas.

Para o historiador Luciano Magno, a reinauguração do monumento foi uma vitória. Em 2015, antes mesmo de a escultura ser removida da Rua Sete de Setembro, ele lançou a campanha “Salvem a estátua do Pequeno Jornaleiro”, pedindo às autoridades que ela fosse restituída ao local de origem.

— Eu me sensibilizei pela importância da obra e quis chamar atenção da prefeitura para a necessidade de se tomar o máximo de cuidado não somente na remoção, mas também na realocação da obra. É uma felicidade imensa ver a obra voltar a vir a público — vibrou Magno, que é biógrafo do caricaturista Fritz, escultor da estátua.

Legado social

Neta do presidente Getúlio Vargas, a socióloga Celina Vargas do Amaral Peixoto acompanhou a cerimônia de reinauguração da estátua do Pequeno Jornaleiro. De acordo com ela, o monumento pode ter servido de inspiração à avó, Darcy Vargas, para a criação da Casa do Pequeno Jornaleiro, uma instituição idealizada para dar apoio às crianças que vendiam os exemplares nas ruas.

— Essa escultura, que foi inaugurada em 1933, pode ter inspirado Darcy Vargas, que começou dando roupa e comida aos meninos de rua que vendiam jornais, até que achou aquilo insuficiente e criou a Casa do Pequeno Jornaleiro, em 1938 — contou ela.

A Fundação Darcy Vargas – Casa do Pequeno Jornaleiro existe até hoje, oferecendo o segundo ciclo do ensino fundamental, em período integral, para 104 crianças. A iniciativa também conta com a participação dos jornaleiros, que destinam um percentual das vendas das bancas para a manutenção da instituição.

— Desde o início, os jornaleiros repassaram e ainda repassam um percentual para a manutenção da casa. Assim obtivemos o nosso legado social. Os jovens tiveram uma socialização e, até hoje, o espaço, que tem instalações bonitas e modernas prepara os jovens para o dia de amanhã — afirmou o jornaleiro Vicente Francisco Scofano, de 80 anos, que é jornaleiro desde 1954.

A cerimônia contou ainda com a participação do presidente da Ital-Rio Sociedade Italiana, Antonio Vilardo, e do secretário municipal de Conservação, Roberto Nascimento Silva. Na visão do secretário, o monumento representa uma homenagem a todos os profissionais envolvidos na produção de informação.

— Por trás do Pequeno Jornaleiro existe toda uma equipe de reportagem, editores, radialistas, jornaleiros. O Pequeno Jornaleiro, sozinho, não iria nunca funcionar na vida real. Ele depende desse agregamento de pessoas querendo obter o resultado das notícias, da informação, para poder ajudar a população carioca — disse.

Inauguração

Em junho de 1933, o vespertino “A Noite” tomou a iniciativa de festejar o “Mês da Cidade”, organizando uma intensa programação que se iniciava com a inauguração da estátua Pequeno Jornaleiro, de modo a perpetuar no bronze a figura do jovem vendedor de jornais como um colaborador eficiente e anônimo da imprensa diária.

De acordo com o historiador Luciano Magno, coube ao então interventor Pedro Ernesto escolher o local de instalação da escultura, e ele optou pela convergência das ruas Miguel Couto (antiga Rua dos Ourives) e do Ouvidor com a Avenida Rio Branco.

Por volta das 15h do dia 1º de junho daquele ano, alunos de cinco colégios particulares e três escolas municipais se concentraram no local. Pouco antes das 16h, teve início uma parada, sob o comando do tenente Castro Júnior. As tropas juvenis adentraram a Avenida Rio Branco sob o som da banda dos Fuzileiros Navais, acompanhados pelos estudantes que empunhavam bandeiras de todas as escolas.

O monumento, que estava coberto pelas bandeiras do Brasil e do Distrito Federal, foi desvendado pelo menino José Bento de Carvalho, vendedor de jornais. Uma chuva de pétalas de rosa cobriu a escultura e, sob uma salva de palmas, foram soltos 300 pombos-correios pelos alunos do Colégio Vera Cruz.

O escritor Coelho Neto fez um discurso, exaltando os pequenos jornaleiros. Em seguida, a estudante Dalia de Morais, de 9 anos, aluna do Instituto La-Fayette, declamou o “Poema da Cidade”, de Álvaro Moreira. Depois, Rita Cataldi, aluna do Colégio Silvio Leite, leu junto ao monumento a “Exaltação do Jornaleiro Carioca”, escrita por ela.

Em pavilhão armado junto à estátua, encontravam-se o comandante Amaral Peixoto, representante de Getúlio Vargas; Pedro Ernesto, interventor do Distrito Federal; e Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, além de representantes dos demais ministros de estado e outras autoridades. As informações sobre a solenidade de inauguração constam na edição do dia 28 de maio de 1944 do jornal “Diário de Notícias”.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior