Prestes a ganhar um hotel de uma rede francesa, o Largo do Boticário está dando a volta por cima. Depois de anos abandonado, com o charmoso casario erguido no fim do século XIX em ruínas, o espaço no Cosme Velho vem atraindo uma turma jovem, que se reúne em rodas de samba no fim da tarde. Mas para participar do evento Sambotica é preciso, além de gostar de música, ficar atento às redes sociais: cada encontro é divulgado, via Facebook, apenas três dias antes de ser realizado.
O cientista social Lucas Noleto, de 30 anos, que organiza o evento, conta que ficou ressabiado depois que as casas foram vendidas ao grupo francês, sem saber se poderia continuar tocando no Largo do Boticário. Mas deu tudo certo e o samba, pelo menos por enquanto, não corre o risco de morrer.
— Antes de realizarmos o último evento, nós fomos lá e conversamos com os representantes do hotel. Eles falaram que não teria problema nenhum. Parece até que eles vão usar o espaço para eventos culturais também — diz Lucas.
Sempre que o samba vai para o Boticário, os moradores do local, que fiscalizam a limpeza pós-evento de perto, também são avisados. Inclusive, o Sambotica só existe por causa de um deles.
Lucas conta que, quando era adolescente, costumava participar das festas do amigo Leo Carvalho, que comemorava aniversários na casa que sua família tinha no local. O som era sempre samba. O tempo passou e, há três anos, vagou um quarto na casa de Leo. Foi a deixa para que Lucas e o amigo começassem, de maneira informal, a tocar um centro cultural, o Espaço Botica, que promovia encontros artísticos, teatro e shows. Para usar o espaço externo da casa, o Largo, como palco para roda de samba, foi um pulo. Nascia ali o Sambotica.
Leo foi morar em Madrid, e o coletivo não tem mais uma sede fixa. Mas o legado permaneceu.
— Teve muita gente mais nova que conheceu o Largo do Boticário conosco. Depois descobri que lá já teve show da Nara Leão e do Barão Vermelho, e que o artista plástico Augusto Rodrigues teve um ateliê lá — diz Lucas, explicando por que o evento não acontece sempre. — Garanto que lá não vai virar uma Praça São Salvador. Por isso é que não tem direto.
Durante o feriado de Finados aconteceu a segunda edição do evento este ano. O Sambotica recebeu três mil pessoas, dos 8 aos 80 anos. Muitos pais e avós, encantados com o clima familiar do evento, levaram os filhos e netos. A criançada, aliás, já ganhou até uma apresentação só para elas.
Turistas também já estão começando a frequentar a roda de samba . A advogada Nidia Aguilar, de 63 anos, por exemplo, foi pela primeira vez levada pelo filho. Agora, já arrastou o cunhado e a irmã dele, ambos alemães, ao evento. E garante que todos saíram embevecidos.
— Eles ficaram encantados porque o samba e a estrutura são de alto nível — disse a advogada.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior