Uma escadaria, um muro na ladeira ou as paredes das casas na viela: todo espaço vira tela para a arte que transforma comunidades do Rio e da Baixada em verdadeiras galerias a céu aberto.
No meio de outras expressões, o grafite predomina. Cria corredores que não devem nada ao famoso Beco do Batman, ponto turístico da Vila Madalena, em São Paulo. Mas, nos becos daqui, muitas vezes as cores e formas ficam escondidas pela violência, que impede um público maior de conhecer esses territórios.
O Morro da Providência, na Zona Portuária, é um desses, por assim dizer, distritos artísticos ocultos. Uma das iniciativas recentes, a Galeria Providência, idealizada pelo dançarino Hugo Oliveira, tem colorido subidas da favela.
Amanhã, a comunidade ganha mais uma atração: o projeto “Inside Out” cobrirá um muro da Rua Barão de Gamboa — até pouco tempo fechada por uma barricada do tráfico — com retratos feitos na hora e impressos em tamanho gigante, repetindo um sucesso do Boulevard Olímpico nos Jogos de 2016.
A intervenção será parte das comemorações de dez anos do primeiro trabalho na comunidade do fotógrafo francês JR — que está no Rio e participará do evento. Uma década atrás, ele subia o morro para clicar 37 mulheres e exibir as fotos em painéis nas fachadas das casas. Olhos enormes pareciam espiar a cidade.
— Começou com a fotografia. Na década de 90, ninguém andava com uma máquina no morro. Até que conseguimos levar alunos de uma oficina para fotografar a favela. Em 2005, imagens da Providência em tamanho real acabaram expostas numa estação de metrô de Paris. Foi ali o encontro com o JR — conta o fotógrafo Maurício Hora, cria do morro e filho de um ex-traficante.
Os dois criaram, então, em 2009, a Casa Amarela, num largo no topo da comunidade, que recebeu a visita de Madonna em 2017. Dali, dá para ver outra comunidade que é morada da arte. No Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, mais de cem artistas, como Marcio SWK e Marcelo Ment, deram vida ao Caminho do Grafite. Em 2013 e 2015, no auge das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), a ideia era valorizar a comunidade e promover a autoestima dos moradores por meio da arte. Rapidamente, as casas coloridas atraíram turistas. Que, no en tanto, desapareceram com o recrudescimento da violência.
— O morador criou uma relação de cuidado com o caminho. Tiram fotos. São eles que cuidam do espaço agora. É nítido perceber que, onde há os grafites, a limpeza e o zelo são maiores — afirma Charles Siqueira, da ONG Instituto Pólen.
Promover o orgulho da comunidade é o objetivo de outro movimento, o Meeting of Favela (MOF), considerado o maior evento voluntário de arte urbana da América Latina. Na Vila Operária, em Caxias, todos os anos cerca de 700 artistas grafitam a favela. A 13ª edição acontece neste fim de semana, até hoje à noite.
— Os grafites se renovam a cada ano. É uma galeria mutante, um painel de estilos, porque tem trabalhos de artistas dos cinco continentes. Este ano, um dos convidados é o inglês Dave Bonzai — conta Rafael Ferraz, um dos produtores do evento. — Além da arte, o MOF tem um papel social importante. A comunidade se vê como um lugar potente. Hoje, a Vila Operária está no mapa da arte urbana.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior