Livro resgata legado africano no Rio

Quando a família real portuguesa chegou ao Rio, em 1808, a população da cidade era majoritariamente negra: cerca de 60 a 70% eram africanos e seus descendentes nascidos no Brasil, fenômeno naturalmente atrelado à escravidão. Apesar dessa forte presença demográfica, vista em todo o país ainda hoje, o território carioca gradativamente se desligou das raízes culturais do povo preto, coisa que há pouco tempo vem se reestruturando. No bojo de eventos que revalorizaram a presença afro no cotidiano local, como o reconhecimento do Cais do Valongo, patrimônio mundial da Unesco, se inscreve o livro “Roteiro da herança africana no Rio de Janeiro” (Casa da Palavra), nas livrarias a partir da segunda quinzena deste mês (sem data definida). A proposta da publicação é listar alguns marcos históricos ligados à herança africana no país.

Num total de 159 páginas, com textos escritos em português e inglês, o livro reúne aspectos históricos, manifestações culturais e práticas políticas e religiosas que constituem a parcela africana da carioquice, em 15 tópicos. Entre os pontos marcantes, estão aqueles mais próximos da área portuária do Rio, capital do Brasil à época, como a Pedra do Sal, a Pequena África e o próprio Cais do Valongo, e os mais distantes, já na Zona Sul, como os quilombos do Leblon e Sacopã, na Lagoa. A organização da publicação é coordenada pelo antropólogo Milton Guran, que destaca na produção textos montados por 13 especialistas. Em conjunto, ele diz, os capítulos fornecem uma “topografia histórica da matriz africana”.

— Escolhemos lugares de representação histórica, como o quilombo do Leblon, que foi importante para o movimento abolicionista; de defesa e reivindicação da população negra, como é o caso do quilombo Sacopã; e monumentos e festas — explica Guran, que também coordenou o grupo de trabalho encarregado da candidatura do Sítio Arqueológico Cais do Valongo a patrimônio mundial. — A casquinha do Rio é indígena, mas a matriz é negra. Nossas comidas, festas, o chiado do falar do carioca, a receptividade do povo… tudo remete a essa fonte. Apesar disso, ainda se olha pouco para as raízes africanas.

Das colônias de escravos fugidos, o quilombo do Leblon, mencionado pelo organizador, é reconhecido por ser um dos representantes de um novo paradigma de resistência ao sistema escravocrata: era um assentamento abolicionista, atrelado ao movimento de libertação que ganhava força na época.

Situado no atual Clube Campestre da Guanabara (relativamente próximo ao morro Dois Irmãos), o local se destacou em relação a outros núcleos de enfrentamento ao sistema vigente pela forte presença de membros da elite intelectual. Entre seus frequentadores figuravam o jornalista José do Patrocínio e a Princesa Isabel.

— O quilombo era especializado na produção de camélias, e as flores viraram símbolo da luta contra a escravidão. Quando Isabel assinou a Lei Áurea, inclusive, ganhou dois buquês, um em nome do movimento abolicionista e outro em nome dos quilombolas — conta Guran.

Segundo ele, a libertação sempre foi muito criticada por não ter demonstrado uma real preocupação com os ex-escravos.

— Na verdade, a alforria só veio porque bancá-los custava mais do que lhes pagar um salário e não ter que se preocupar — conta o antropólogo.

Além do quilombo do Leblon, o livro organizado por Milton Guran lista mais três tópicos ligados à Zona Sul: a capoeira, com dois grupos que promovem rodas no Leme; a reverência a Iemanjá durante o réveillon na Praia de Copacabana; e o quilombo Sacopã, que guarda um histórico de luta por um espaço de direito e resiste há mais de 100 anos na Lagoa.

Embora não tenha recebido escravos, o quilombo Sacopã se assemelha aos antigos refúgios pela resistência, desta vez direcionada à permanência de um terreno legitimamente negro. O livro reconta a história do lugar, fundado no início do século XX e de propriedade da família Pinto. O patriarca, Manoel, recebeu porções de terra nas proximidades da Rua Sacopã por ter se engajado na abertura das vias do futuro bairro da Lagoa. Na década de 1960, entretanto, as políticas de remoção recaíram sobre o local, no esforço de realocar o povo pobre, e sobretudo negro, para longe.

— Os filhos de Manoel lutaram contra as investidas do poder público pela gastronomia e pela música, que fizeram a fama do lugar. Mas essa é a face visível da resistência, que se deu por uma série de alianças entre setores e famílias, pela religiosidade e pela construção de uma memória comum de existência — argumenta Guran.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior