Janine Rodrigues sempre teve inclinação para a escrita, mas demorou a seguir a carreira. Fez um período e meio de Letras, depois cursou sete períodos de Direito e por fim se formou em Gestão Socioambiental. Prestou serviços para Furnas, Eletrobras e Petrobras, e trabalhou como coordenadora e gestora de projetos ambientais em duas empresas. Até criar em 2015 a Piraporiando , editora de livros infantojuvenis e produtora que realiza projetos de incentivo à leitura que valorizam a diversidade cultural. São ações como oficinas criativas, palestras, contação de história, mediação de leitura e rodas de debate que abordam questões como autoestima, medo, discriminação e amizade. Um dos projetos, “Quem é o autor”, de valorização de escritores brasileiros, foi um dos vencedores do prêmio Arte Escola Territórios Sociais, da Secretaria municipal de Cultura. O trabalho de Janine já atingiu 16 mil crianças e 6.700 educadores. Ela lançou há pouco seu quinto livro, “Nuang — Caminhos da liberdade”, após “No reino de Pirapora”, “As duas bonecas azuis”, que virou peça pela Companhia Miolo de Teatro Intuitivo, “Contos Piraporianos” e “Histórias do velho Nestor — Contando seus contos de horror”. Janine está desenvolvendo uma plataforma de incentivo à leitura na internet para expandir as ações. Esta semana recebeu a chancela da Fundação Palmares. “Disseram que o projeto de ‘Nuang’ contribui muito para a celebração da cultura afrobrasileira na infância”, diz essa carioca da Lapa, de 36 anos, criada em Cardoso Moreira, no interior do Rio. Ela mantém um canal no YouTube e é a autora homenageada deste mês pelo Itaú Cultural. Por conta disso, está desde ontem em São Paulo lançando “Nuang” e fazendo contação de história e rodas de conversa.
De onde vem a ligação com a literatura?
A paixão começou quando ganhei o livro “O Menino Maluquinho”, do Ziraldo, de meu cunhado Ricardo. Quando queria algo da minha mãe, mas não tinha coragem de pedir cara a cara, escrevia cartinhas e botava em gavetas, em cima da geladeira. Lembro de uma oficina de redação para adultos que teve em Cardoso Moreira. Eu era a única criança na sala. Mas demorei a seguir minha vocação. Eu não via a literatura como profissão. Não sabia como ela poderia ser um trabalho. Até que meu primeiro livro, “No reino de Pirapora”, acabou adotado por escolas e fiz um projeto de incentivo à leitura falando sobre bullying.
Qual o objetivo de seu trabalho?
Promover ações que juntem diversão, leitura e reflexão. A secretária de Educação de Piraí disse que meus livros e projetos “fazem as crianças pensarem, se questionarem e nos questionarem”. Tratar de temas difíceis como bullying, preconceito e racismo de forma lúdica pode ajudar as crianças a se tornarem mais tolerantes. Nas atividades literárias, priorizo a voz das crianças, estimulando que mudem o fim dos livros que leio ou das histórias escritas pelos colegas. É uma forma de saber o que sentem e pensam. O diálogo é fundamental para superar medos e enfrentar preconceitos.
Como as crianças reagem?
Uma vez uma menina de seus 6 anos mudou o fim de “O Menino Maluquinho”. Na história dela, ele não crescia. É que ela não queria que ele ficasse grande para não ficar mau. Além disso, ela pegou uma ilustração do pai do personagem e fez contornos em que todos os órgãos eram avantajados. Suspeitamos que fosse abusada e se comprovou. Teve outra menina, de 8 anos, que após ler “Histórias do velho Nestor” disse: “Eu tinha medo de tudo, mas percebi que nem tudo é o que parece.” É que no livro todos acham que o velho Nestor é mau, até que um garoto descobre que ele é apenas estranho. Foi inspirado num cachorro que meu marido achou na rua. Estava muito machucado, passou fome. Ele tentava nos morder, mas não era mau, estava na defensiva.
Fale de outros exemplos.
Em “No reino de Pirapora”, uma menina é motivo de chacota após pegar catapora e ficar com o corpo coberto de bolinhas. Quando vira rainha dá o troco e só permite brinquedos redondos, que lembrem suas marcas. Ela se torna solitária e agressiva. Até que um menino com um carrinho quadrado transforma sua vida. Certa vez, um menino de 8 anos disse que se identificou. Contou que era zoado na escola, chamado de gay. Por isso, batia nos outros. Mas ninguém se preocupava em saber as razões de seu comportamento. Como a personagem, que era incompreendida.
Como surgiu o livro “Nuang”?
Criei Nuang na minha cabeça aos 9 anos. Ela era tudo que eu queria ser, mas não tinha coragem. Eu fantasiava que ela me defendia quando riam de mim e me chamavam de nariz de batata. Odiava meu cabelo e passei a alisar ainda criança. Ficava 40 minutos sentindo a pasta quente queimar o couro cabeludo, chorava de dor, mas não deixava tirar porque não estava liso o suficiente. Já Nuang se gostava do jeito que era. Comecei a rascunhar a história aos 11 anos e terminei aos 14. E agora resolvi compartilhar. Nuang é líder do povo Uthando, que é escravizado, mas recupera a liberdade. Após uma leitura do livro, uma menina de 8 anos me abraçou chorando e disse: “Você é Nuang, não é?” Falei que eu era e ela também. E que Nuang éramos todos nós. Como todo negro, sofri racismo. Certa vez uma professora falou: “Ah, tinha que ser essa macaca.” Reclamei com a diretora, que não acreditou. Mas o racismo não me pegou de surpresa porque meu pai me preparou. Ele tinha uma frase recorrente: “Cada passo que você der para a frente foi uma chibatada que um preto levou.” Ele não queria que eu fosse amargurada, mas ensinava que eu ia ser sempre colocada à prova e que devia respeitar meus ancestrais. Com minhas ações, quero colaborar para que outros pretos sejam livres. E mostrar a importância de não prejulgar, de se botar no lugar do próximo e de considerar seu ponto de vista. Você pode não entender o gosto do outro. Não precisa gostar, nem achar bonito. Mas precisa respeitar.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Mauro Ventura / Agência O Globo