Wakanda in Madureira se fortaleceu como evento e hoje é um festival afro

O professor de história, filósofo e poeta Jonathan Raymundo começou a escrever sobre racismo em suas redes sociais em março de 2018. Além de milhares de compartilhamentos e curtidas, suas publicações promoveram identificação e amizade. As trocas de afeto entre os internautas que comentavam nas publicações transbordaram o mundo virtual e foram parar, naquele mesmo mês, no Wakanda in Madureira . O evento, que nasceu como um piquenique de negros , é hoje um festival afro, realizado bimestralmente, de graça, com música, gastronomia, moda, artesanato, poesia, roda de samba e espaço infantil. A última edição, em outubro, contou com 900 pessoas, mas o recorde é de 1.400. Para o deste sábado, a expectativa de público é alta, já que este será o último do ano.

Para promover o Wakanda , Raymundo contou com a parceria da idealizadora do coletivo Gordas em Movimento , Dandara Barbosa. O festival será realizado na parte externa da Arena Carioca Fernando Torres , das 11h às 21h30m, no Parque Madureira .

— O Wakanda sempre foi promovido no Parque de Madureira, mas a primeira edição, no dia 17 de março do ano passado, foi um piquenique com 40 pessoas num gramado do espaço. Até hoje, mesmo maior, mantivemos essa cultura de permitir que as pessoas levem alimentos e bebida para ser compartilhados no evento, porque se o processo colonial e o racismo estrutural nos afastam enquanto comunidade, como resposta, nós buscamos integração e educação racial, por meio dessa troca de carinho e afeto — explica Raymundo.

Na quinta edição, uma forte chuva pegou os frequentadores de surpresa. Como na época já existia um convite da administração da Arena Carioca Fernando Torres de levar o então piquenique para dentro de suas instalações, os organizadores do Wakanda, rapidamente, entraram em contato com os responsáveis pelo espaço e conseguiram uma autorização para usá-lo, a tempo de salvar o evento.

— Desde então, passamos a ter a arena como nosso endereço fixo. Graças à estrutura desse equipamento da prefeitura, na edição seguinte, em que comemoramos um ano de Wakanda, convidamos artistas que já tinham se apresentado no espaço e oferecemos exibições musicais para os nossos frequentadores. E assim, passamos a ter custos. Para pagar essas despesas, criamos uma feira e passamos a arrecadar com o aluguel das barracas. E assim o evento só foi crescendo, até que se transformou num festival — conta Dandara.

Para o professor Carlos Medeiros, mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF e doutorando em História Comparada pela UFRJ, o Wakanda é muito mais do que um festival. Ele — que é autor dos livros “Racismo, preconceito e intolerância”, com os antropólogos Jacques D’Adesky e Edson Borges; e “Na lei e na raça. Legislação e relações raciais Brasil-Estados Unidos”; e traduziu cerca de 40 títulos estrangeiros, entre eles, mais de 20 assinados pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman — analisa o evento “dentro de um contexto mais amplo, junto a uma série de manifestações que têm sido realizadas sobre afirmação de identidade negra brasileira”:

— Movimentos como o Wakanda, o Projeto Criolice, o Terreiro de Crioulo, a Marcha das Mulheres Negras e a Marcha do Empoderamento Crespo, entre outros, também são importantes para a valorização da estética e do fenótipo do negro, além exaltar a nossa ancestralidade africana. O crescimento desses coletivos mostra como a nossa sociedade é tão contraditória ao abrigar tendências diferentes e como o autoritarismo tem limites.

Inspiração em país fictício
O nome Wakanda foi inspirado no país fictício da África Subsaariana presente nas histórias em quadrinhos da Marvel Comics e no filme “Pantera Negra”. No festival de Madureira não há heróis nem príncipes, mas por lá já passaram muitas personalidades negras, como a escritora do best-seller “O crime do Cais do Valongo”, Eliane Alves Cruz; o humorista Yuri Marçal; e o ator e cantor Serjão Loroza. Sem delimitação de área vip, famosos e anônimos convivem em harmonia no evento.

— No Wakanda, todo mundo é igual. As pessoas até demoram a identificar os famosos justamente porque fica todo mundo junto, sem essa coisa de separação. Eu me sinto amada nesse evento. Olho ao redor e me sinto representada, amada, vejo possibilidades de paquera, de troca, eu me sinto bonita no meio de pessoas lindas. É um festival que possibilita que o frequentador se conecte com as suas raízes por meio da nossa cultura e nossos costumes — enfatiza a cantora Késia Estácio.

O ator e diretor Rodrigo França foi a quase todas as edições do festival, acompanhado de sua mãe. Para ele, é de grande importância a presença ali de crianças, acompanhadas de seus pais.

— A maior tecnologia que existe e foi desenvolvida pelos povos originários, como os indígenas e os africanos, o estar junto, na coletividade, é o aquilombamento. O Wakanda possibilita a desintoxicação de tudo o que passamos ao longo da semana, porque, ao estar com os nossos, percebemos que a vida não é só luta, mas também afeto. E nos reconhecermos nos iguais nos fortalece. O evento tem uma ação que é muito bacana, que é o encontro de crianças negras, que estabelece representatividade, autoestima, autocuidado e, principalmente, o autoamor — diz.

No próximo sábado, o festival oferecerá almoço gratuito para 300 pessoas. Haverá shows de Soul de BR, Léo Bruno, Wallace Silva e roda de samba com o grupo Coração Batuqueiro, que promoverá uma oficina de carnaval infantil, das 15h às 17h.

Fonte: GLobo
Postado por: Raul Motta Junior