Versão compacta do Back2Black toma a Cidade das Artes no sábado

Criado em 2009, o Festival Back2Black se firmou no calendário do Rio de Janeiro como uma importante celebração da cultura negra. Realizado extraordinariamente em março na edição de 2015, o evento volta agora a acontecer perto do feriado em homenagem a Zumbi dos Palmares, abrindo os portões da Cidade das Artes às 18h deste sábado. Neste ano, o caldeirão de música, comidas típicas, artes visuais e cultura de rua vai contar ainda com a Batalha dos Barbeiros, em que os participantes são desafiados a criarem cortes inusitados.
— A proposta é cultural, muito mais do que entretenimento. Queremos que as pessoas sintam que estão levando algo a mais quando voltarem para casa — diz a curadora do evento Connie Lopes.

Por mais sólidos que sejam os pilotis da Cidade das Artes, eles vão tremer com as batidas do Festival Back2Black, que realiza no local sua sétima edição brasileira no próximo sábado. Em uma edição compacta — de apenas um dia de duração —, funk, hip hop, rap, R&B e outros ritmos igualmente dançantes abrem a festa para a apoteose comandada pela icônica Grace Jones.

Trazer a modelo, atriz e cantora jamaicana para se apresentar no Rio era um sonho acalentado há quatro anos por Connie Lopes, criadora e diretora geral do festival. Toda a curadoria da edição de 2016 foi feita a partir do momento em que a diva deu o “sim” e confirmou a inclusão do Brasil em sua turnê “The farewell tour”.

— A Grace Jones foi uma das primeiras a usar esses looks negros incríveis, e hoje a gente vê toda uma galera nessa onda. Já que ela lacrou lá nos anos 1980, vamos aproveitar para misturá-la a essa geração nova, como o pessoal do tombamento — empolga-se Connie, em uma referência ao movimento cultural de artistas como MC Linn da Quebrada e Rico Dalasam, que prezam o respeito à diversidade e imprimem sua marca por meio de um visual impactante, com cores fortes, elementos étnicos e muita atitude.

E se é para “tombar” (ou “arrasar”), a noite promete. No show “Nós por nós”, além de MC Linn e Dalasam, o palco recebe Daúde, Deize Tigrona, Tássia Reis e o Dream Team do Passinho, para cantarem, cada um, uma música autoral e um cover de um clássico da música negra. Em um total de 14 performances (sendo uma delas um solo de Lellêzinha, do Passinho), a seleção não é nem um pouco aleatória, indo da crítica ao machismo de “It’s a man’s man’s world”, de James Brown, à afirmação de espaço de MC Linn da Quebrada com sua incisiva canção “Talento” (“Vou te confessar que às vezes nem eu me aguento /Pra ser tão viado assim precisa ter muito, mas muito talento”).

Abrindo a pista, no primeiro show do festival, vai estar a mistura de guitarra baiana com música e arte urbanas promovida pela BaianaSystem. A banda, vencedora de dois Prêmios Multishow (melhor disco e melhor hit), tem seu nome inspirado no sound system, expressão que nasceu na Jamaica dos anos 1950 para designar um sistema de som improvisado, usado em festas de rua. E, se por aqui não dá para pensar em festa de rua sem lembrar dede carnaval, então o grupo de Salvador já passou pela principal prova de fogo: neste ano, eles botaram cerca de 30 mil pessoas para dançar em um trio ao lado de BNegão (uma espécie de padrinho da banda), da diva local Margareth Menezes e do líder do Psirico, Márcio Victor.

Entre cada um dos shows, a animação fica a cargo dos DJs da Batekoo, que chegou no Rio há quase um ano e arrebatou quase duas mil pessoas já na sua primeira edição. A festa foi criada em Salvador para ser uma alternativa de diversão e representatividade para jovens de periferia, principalmente para integrantes da comunidade LGBTT. A inclusão é um tema presente desde a escolha do setlist, que abarca artistas negros de todas as vertentes musicais, até as casas escolhidas para abrigar a festa, que começou na Lapa mas já passou por Madureira, Vila Mimosa e ainda pretende chegar à Baixada Fluminense.

— Eu acho bafo estar aqui na Cidade das Artes. Não é porque a gente valoriza a periferia e e espaços alternativos que deixamos de querer ocupar outros lugares. Para mim, é importante estar em locais como a Barra, que também podem ser nossos, e podem ser de todo mundo. Dificilmente a gente vê um evento de negros e que enalteça tanto a cultura negra aqui, neste lugar; então, para mim, isso é muito importante — diz Luis Otávio, conhecido na noite como a drag queen e DJ Onírica.

Para quem quiser chegar cedo e aproveitar tudo que o festival tem a oferecer, os portões abrem às 18h. Além dos food trucks (que dão atenção destaque especial às comidas de origem afro, como o acarajé) e dos bares temáticos, os frequentadores poderão assistir, às 19h, a um debate sobre cultura e empoderamento mediado pela ativista Monique Evelle. Considerada uma das jovens negras mais influentes, a criadora da rede Desabafo Social vai coordenar a conversa entre Daúde, Lellêzinha (do Dream Team do Passinho), Deize Tigrona, Rico Dalasam e MC Linn da Quebrada.

Quem já esteve em uma das edições anteriores do Back2Black sabe que as artes visuais não ficam de fora. Este ano, as diversas projeções criadas por Rico Lins, diretor de arte do festival, vão fazer uma espécie de retrospectiva histórica. Inspirado pelo icônico retrato de Grace Jones (claro) feito por Andy Warhol, ele retrabalhou as fotografias que João Wainer vem fazendo dos artistas que passaram pelo evento.

Se em 2015 a festa acabou acontecendo em março, nesta edição o Back2Black voltou ao calendário original. Aproveitando que o Dia da Consciência Negra vai cair no domingo, um dia após o evento, um dos pontos altos vai ser justamente a virada, com direito a contagem regressiva.

— Vai ser o réveillon dos pretos, né? A gente vai celebrar mais um ano de voz, de luta, de arte — comemora Lellêzinha.

Como diz um dos sucessos do Dream Team do Passinho, esse baile vai tremer.

Conexão Jamaica-Salvador

O BaianaSystem, atração musical que abre a festa no Back2Black, nasceu do cruzamento entre a guitarra baiana e os sound systems da Jamaica, sistemas de som usados em festas de rua que se tornaram uma importante forma de expressão e difusão cultural. Para quem quiser acompanhar a apresentação da banda do hit “Playsom”, única música brasileira na trilha do game “Fifa 16”, é bom chegar cedo: os soteropolitanos entram às 20h30m.

Desde que lançou “Duas cidades”, vencedor do Prêmio Multishow de melhor álbum de 2016, o BaianaSystem ainda não tinha conseguido incluir o Rio de Janeiro na agenda de shows.

— Estávamos loucos para tocar aí de novo. Chegou a rolar um amorzinho, mas não deu certo. No final, acabou acontecendo da melhor forma. O Back2Black é o palco perfeito para tocarmos as nossas referências — comemora o guitarrista Roberto Barreto, que já compareceu a três edições do festival, em 2009, 2012 e 2015. — Era uma coisa que fazia falta no Brasil, porque trouxe uma chance de vermos artistas africanos que não circulavam por aqui.

O visual criado por Filipe Cartaxo é a única certeza do show. No mais, o BaianaSystem experimenta continuamente com suas canções, com espaço para improvisos e participações especiais.

‘O corpo negro como protagonista’

Antes mesmo de a festa Batekoo chegar ao Rio de Janeiro, ela já era conhecida pelos cariocas, graças aos vídeos criados para cada edição e pelo burburinho que causava nas redes sociais.

— A gente não tinha esse recorte racial tão bem colocado na noite carioca. Esta é uma festa de preto para preto, colocando o corpo negro como protagonista. Aqui a lógica é totalmente ao contrário (do habitual) — explica Daniel Oliveira, um dos produtores.

— O protagonismo é negro, mas isso não significa que a gente exclua qualquer tipo de pessoa — complementa Guilherme Blum, sócio de Daniel na empreitada.

O time de DJs residentes da Batekoo carioca (em cada cidade, a produção procura destacar características da cultura local) vai animar o Back2Black entre os shows ao vivo, com entradas às 21h30m, à meia-noite e após o show de Grace Jones, das 2h30m em diante, encerrando o evento. DJ Garota, a dupla Twinshit, a drag queen Onírica e BBWJu vão fazer a pista ferver com eletrônica, R&B, dance hall, funk e até arrocha.

Em menos de um ano, a festa conquistou um público fiel, tornando-se um estilo de vida, afirma Guilherme:

— É fácil reconhecer uma pessoa Batekoo porque ela sabe que é bonita. A atitude livre aparece no jeito de andar, de se portar e de se vestir.

‘Uma noite de energia black’

A partir da esquerda, Pablinho, Hiltinho, Lellêzinha, Diogo Breguete e Rafael Mike acertam o passo – Agência O Globo
No dia em que fechou o contrato com Grace Jones, Connie Lopes recebeu um telefonema do diretor Rafael Dragaud. Do contato, nasceu o convite para que ele criasse o show “Nós por nós”, que coloca diferentes expoentes da música negra no mesmo palco, integrando as novas tendências com clássicos.

Rafael Mike, vocalista e diretor musical do Dream Team do Passinho, também participou da organização do show, que começa às 22h30m e termina com a virada para o Dia da Consciência Negra.

—O encontro é a grande celebração, mas a bandeira é política. Toda a preocupação desse show é reunir uma porção de pretos que estão militando, reivindicando, correndo atrás dos seus direitos através da arte, e vamos fazer isso junto com a Grace Jones, que é um outro símbolo — diz ele, sem economizar elogios a cada um dos participantes. — É a oportunidade de você ver um artista de quem gosta, negro, que te representa, cantando uma música autoral e um cover que também fala sobre a história da música negra.

Ao lado do Dream Team do Passinho estarão MC Linn da Quebrada, Rico Dalasam, Tássia Reis, Daúde e Deize Tigrona.

— Vai ser uma noite de muita energia black, de muito suingue, de muito sorrisão — resume o músico.

Diva das passarelas e das pistas

Muito tempo se passou desde que Grace Jones se escondia sob a mesa do estúdio para cantar, com vergonha dos técnicos e tímida por ainda não ter encontrado sua voz. Quando lançou seu primeiro álbum, “Portfolio” (1977), ela já tinha se consolidado como uma supermodelo, mas ainda queria mais: desfilar para Kenzo, Yves St. Laurent e Montana e ser fotografada por Helmut Newton e Guy Bourdin era pouco para essa jamaicana, nascida em 1948 em Spanish Town.

Já incluída no patamar das divas da disco music, Grace marcou profundamente o visual dos anos 1980, com seu look andrógino poderoso e seu destemor ao embarcar em projetos artísticos ousados. Em 1984, seu corpo pintado por Keith Haring foi fotografado por Robert Mapplethorpe, e a obra hoje faz parte do acervo do museu britânico Tate. No sábado, ela se apresenta coberta por grafismos inspirados na obra de Haring.

A atração principal do Back2Black sobre ao palco à 1h. Durante 90 minutos, Grace cantará 17 músicas, incluindo os sucessos “Slave to the rhythm” e “My Jamaican guy”.

Informações

Festival Back2Black

Cidade das Artes, nos pilotis.

Sábado, 19 de novembro, a partir das 18h.

Ingresso: R$ 250 (pista normal) e R$ 400 (pista premium)

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:Analice Paron / Agência O Globo