Um a cada três pedidos ao serviço 1746 não tem solução

Dona Lindalva Bispo, de 58 anos, teve dois trabalhos: ligar para a central 1746, da prefeitura, para pedir a capina da calçada na rua onde mora e, já que não foi atendida, pagar pela limpeza. A dona de casa vive na Rua Sônia Mendonça, em Campo Grande, e não é a única da região que costuma ficar sem resposta quando recorre ao serviço do município. O bairro da Zona Oeste é o que mais tem pedidos encerrados sem solução, segundo dados obtidos com exclusividade pelo GLOBO através da Lei de Acesso à Informação. E o problema atinge também outras áreas do Rio, onde um em cada três pedidos feitos à prefeitura pelo canal são fechados sem que o serviço seja prestado.

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— A gente liga o tempo todo, e a prefeitura não faz nada — reclama.

O 1746 é uma central única para a população realizar diversos pedidos — através do telefone, do aplicativo de celular ou do site. Através dele, o cidadão pode requerer remoção de entulho, substituição de lâmpadas queimadas, combate ao mosquito da dengue, reparo de buracos, limpeza urbana, reclamar de estacionamento irregular, entre diversos outros serviços. Entre janeiro de 2017 e abril de 2018, foram feitos 1,1 milhão de pedidos através do canal. Desse total, 771.904 foram resolvidos, 321.876 foram fechados sem solução e 18.416 ainda estão abertos.

Em Campo Grande, o bairro campeão em pedidos não atendidos (21 mil), a causa mais comum de reclamação é o estacionamento irregular (5.665 solicitações), seguido por lâmpada apagada (2.548), remoção de entulho (1.786), capina de vias (1.185) e remoção de veículo abandonado (543). Morador da Estrada do Tingui, Sérgio Barroso, de 76 anos, é um dos que já ligou diversas vezes para o 1746 para reclamar de um lixão que está se formando na via e, até agora, não foi combatido pela prefeitura:

— Já pedi inúmeras vezes para virem tirar esse lixo e o entulho. Mas, até agora, ninguém fez nada. Já tem um ano que isso está assim.

Os resultados da central de atendimentos
Os dez serviços com mais pedidos que não foram resolvidos
(JANEIRO DE 2017 A ABRIL DE 2018)
SERVIÇOS
PEDIDOS
131.049
Fiscalização de estacionamento irregular
Remoção de entulho e bens inservíveis
Reparo de lâmpada apagada
Remoção de veículo abandonado
32.926
20.251
7.662
Fiscalização de calçadas
e/ou vias públicas obstruídas
6.265
Total de pedidos fechados que não foram atendidos
6.046
Acolhimento de população de rua
Reparo de buraco na pista ou rua
Transporte da gestante
Remoção de resíduos
Capina em logradouro
5.687
321.876
4.717
4.642
3.952
Bairros com mais
pedidos não resolvidos
Bairros com mais pedidos
abertos há pelo menos um ano
BAIRRO
Tijuca
Campo Grande
Bangu
Barra da Tijuca
Copacabana
Realengo
Recreio dos Bandeirantes
Santa Cruz
Vila Isabel
Taquara
PEDIDOS
862
780
617
593
567
559
510
418
413
387
BAIRRO
Campo Grande
Tijuca
Barra da Tijuca
Copacabana
Bangu
Centro
Taquara
Recreio dos Bandeirantes
Botafogo
Santa Cruz
PEDIDOS
20.809
14.193
11.379
9.699
9.308
8.790
7.464
6.998
6.803
6.761
Fonte: Secretaria municipal da Casa Civil
Na cidade como um todo, o pedido mais recorrente é o de remoção de entulho (262 mil). Os dados obtidos pelo GLOBO mostram que, no período analisado, 88% dos casos (229 mil) foram atendidos. Por outro lado, para a segunda maior queixa quase não há resultados: houve 173 mil reclamações de estacionamento irregular, e só 25% (42 mil) foram resolvidas.

As informações obtidas mostram também que quase 20% de todas as solicitações que se encontraram abertas até o fim de abril estão esperando por respostas da prefeitura há pelo menos um ano, inclusive casos de estacionamento irregular. Atualmente, são 103.344 pedidos em aberto. Desses, 18.416 foram feitos entre janeiro e abril de 2017.

A avaliação para a necessidade de poda de árvore em via pública é o item com mais pedidos “engavetados”. Há, hoje, 5.503 solicitações esperando por atendimento. Luiz Cortes, de 37 anos, morador da Rua Félix Pacheco, na Tijuca, por exemplo, fez um pedido de poda há mais de um ano e ainda aguarda pela resposta do 1746. Dois meses atrás, o primo dele foi ferido por um galho que caiu na sua cabeça.

— Na hora de cobrar o nosso IPTU, eles são o número um. Mas quando é para fazer o serviço, é nota zero — reclamou Cortes.

Depois da poda, a segunda fila de espera que se arrasta há mais de um ano é a de pedidos para conserto de buraco. São 1.969 requisições aguardando respostas.

SATISFAÇÃO DE 73 % COM O SERVIÇO

A Secretaria municipal da Casal Civil informou que todas as solicitações feitas pelos cidadãos são recebidas pelos seus canais, registradas e encaminhadas aos órgãos competentes, que dão seguimento à demanda. “Os pedidos são mapeados e monitorados mensalmente pela Central 1746 junto aos órgãos. Na avaliação de janeiro deste ano, a satisfação do cidadão com o serviço dos órgãos atingiu 73%, enquanto a aprovação da central de atendimento 1746 chegou a 94%”, diz a Casa Civil. O órgão informa ainda que o cidadão que estiver insatisfeito com alguma solicitação que não foi realizada no prazo ou com a qualidade desejada pode acionar a Ouvidoria, através do telefone 1746, portal ou pelo próprio aplicativo”, informou a nota.

Já a Comlurb, responsável pela poda das árvores, informou que “os serviços de manejo arbóreo (poda, remoção etc) só podem ser realizados após vistoria e emissão de laudo técnico por engenheiros florestais ou agrônomos, mas que nem todas as solicitações são ratificadas pelos engenheiros após as vistorias”. De acordo com a empresa, “em algumas situações, o vegetal pode estar em conflito com a rede elétrica e é necessária uma operação conjunta com a Light para o desligamento da rede, tornando o processo um pouco mais moroso”. Já a Secretaria municipal de Conservação , responsável pelo recapeamento das vias, alega que a demora se deve ao fato de que “grande parte dos buracos em questão são de responsabilidade de concessionárias, e, para que se possa realizar o asfaltamento, muitas vezes a prefeitura precisa aguardar a intervenção dos responsáveis antes de realizar o procedimento”.

Fonte: O Globo
postado por: Raul Motta Junior