Cercado por guias e taxistas que disputam turistas na área de desembarque do Aeroporto Internacional Tom Jobim , o empresário canadense Jacques Saint-James de 46 anos, desembarcou no Rio, no último fim de semana disposto a explorar a cidade maravilhosa por conta própria. Ele, no entanto, esbarrou em um desafio logo nos primeiros minutos. Principal ponto de chegada de vistantes estrangeiros ao Rio, o Tom Jobim não dispõe de um posto de informações para visitantes. A Riotur desativou o serviço no local mais de um ano: hoje, o espaço é ocupado por uma locadora de carros. O problema não se limita ao Aeroporto Tom Jobim. Por falta de recursos para manter o serviço, a Riotur dispõe de apenas sete postos de informações espalhados pela cidade, menos da metade do que já existiu há dois anos.
Os problemas se multiplicam. Antes mensal, a publicação oficial da Riotur com dados sobre atrações e pontos turísticos da cidade não tem uma nova edição desde a publicação bimestral de maio/junho. Nos postos, nem sempre os mapas disponíveis feitos em parceria entre a prefeitura e operadores turísticos mostram toda a cidade.
No dia em que O GLOBO visitou o quiosque de informações instalado em frente ao Pão de Açúcar, só havia mapas de uma operadora de ônibus turísticos indicando as regiões pelas quais os coletivos passavam. No posto da Rodoviária Novo Rio, os exemplares disponíveis divulgavam, principalmente, a localização dos hostels na Zona Sul. No material disponível para consulta nos postos, ainda havia exemplares de impressos preparados para a Olimpíada há mais de dois anos. A prefeitura argumenta que o material continua a ser distribuído porque até o início da Olimpíada de Tóquio, em julho de 2020, o Rio continuará a ser uma cidade olímpica.
Em agosto de 2016, durante a Olimpíada, a Riotur chegou a contar com 19 postos de atendimento espalhados pela cidade. Dois ficavam nas áreas de desembarque do Aeroporto Tom Jobim. Entre os locais que estão agora sem o serviço, encontram-se a Candelária, que tinha um quiosque cedido pela Associação Comercial (Acerj); a Lapa; e o Leblon, na Praça Cazuza (Leblon); Santa Teresa; e a Praia do Pepê (Barra da Tijuca). No Leblon, o quiosque desocupado acabou sendo invadido por moradores de rua, antes de ser desocupado e demolido por agentes da Secretaria de Ordem Púbica e da Guarda Municipal, no ano passado.
A Riotur anunciou, em agosto de 2017, um plano para instalar dez quiosques modernos, com terminais de computador e acesso a internet para que o turista pudesse se informar sobre a cidade. No entanto, desse total, apenas três foram implantados: Aeroporto Santos Dumont, Rodoviária Novo Rio e Praia Vermelha.
Além disso, o quiosque do Santos Dumont não é refrigerado: o calor é minimizado por um enorme ventilador cedido pela administração do aeroporto. Em lugar da estrutura prometida para o Largo do Machado, o atendimento na praça é feito em um contêiner refrigerado cedido pela concessionária Trenzinho do Corcovado, que mantém um posto de atendimento no local. O horário de funcionamento informado no site da Riotur está errado. O posto fecha na realidade às 17h e não às 18h. Assim como no Tom Jobim, os novos postos prometidos em regiões como Boulevard Olímpico, Leblon, Ipanema, Barra da Tijuca e Largo do Machado estão no papel.
O posto do Shopping da Gávea funciona em um ponto cedido pela administração do local. No entanto, fica escondido entre pilastras, e é quase imperceptível a quem já esteja perdido achar o ponto que deveria servir para socorrer com informações quem não conhece a cidade. Em Copacabana, existem dois postos. Um deles é um escritório da Riotur na Avenida Princesa Isabel. O segundo posto foi montado em um quiosque duplo na orla em frente à Rua Hilário de Gouvêa. O espaço é compartilhado entre a Riotur e pelo menos dez operadores turísticos. Ali, o principal problema enfrentado pelos funcionários é o forte calor. Devido à padronização dos quiosques da orla, o espaço não é refrigerado.
O presidente da Riotur, Marcelo Alves, explica que a crise financeira fez com que o órgão sofresse cortes no orçamento nos últimos dois anos, a exemplo do que ocorreu em toda a prefeitura. Ele explicou que a prioridade é abrir um posto na área internacional do Tom Jobim, o que já vinha sendo negociado há meses com a concessionária Rio Galeão. Segundo o presidente da Riotur, isso deve acontecer em 20 dias. Sobre o guia informativo, a prefeitura acena com o lançamento de uma nova edição em fevereiro. No entanto, será uma publicação fria, sem data de validade. Novamente por restrições no orçamento.
— Nossa principal fonte de recursos são receitas vindas de empresas que patrocinam o réveillon e o carnaval. Temos algumas limitações de recursos, mas estamos divulgando a cidade, investindo em uma série de medidas como a captação de mais eventos para o Rio — argumentou Marcelo Alves.
No quiosque da prefeitura montado na orla de Copacabana, um recepcionista da Riotur que pediu para não se identificar, contou que a maioria das perguntas se referem a questões do dia a dia. No verão, o posto funciona das 8h às 20h. O atendimento pelos prestadores de serviços varia conforme a operadora.
— Aqui é na base do everythink, every time (tudo, a toda hora). Já me perguntaram onde ir ao banheiro, encontrar uma sauna, fazer compras de mercado — contou o atendente.
No dia a dia, os turistas também convivem com a realidade da cidade, que limita ou dificulta alguns passeios turísticos. Um funcionário de uma operadora de turismo que atende no quiosque de Copacabana, conta que, por medida de segurança, só tem oferecido passeios para ensaios do Salgueiro às quintas-feiras e aos sábados. Até o ano passado, a empresa oferecia o serviço também para quem quisesse acompanhar os ensaios da Portela e da Vila Isabel.
Na Praia Vermelha, onde os turistas podem consultar um guia de favelas, uma prestadora de serviços da Riotur alerta os interessados que nem todas as comunidades são seguras. Ela sugere visitas apenas à Santa Marta (Botafogo) e ao Vidigal, mesmo assim acompanhados por guias.
— Tem muita gente que quer saber como pegar o transporte público até o Cosme Velho para passear no trenzinho do Corcovado ou chegar à Praia de Copacabana. O problema é que o intervalo dessas linhas que passam pela Praia Vermelha chega a uma hora. No caso de Copacabana, pode até ser mais rápido ir a pé — contou a atendente Letícia Barreto de Souza.
Apesar dos problemas, visitantes também elogiam alguns serviços disponíveis. Morador de Belo Horizonte, o aposentado Maurício Weber, de 57 anos, queria subir o Morro da Urca através da trilha que se inicia na pista Claudio Coutinho, na companhia da mulher Liliane Coelho, 46, e seu filho Gabriel Maia, 11 anos.
— Consultamos a maioria das informações pela internet, mas esse ponto de dúvidas é importante também. Achei o posto bem estruturado. Ajudou sim.
O empresário americano Iohanson Katini, 43 anos, comentou que, apesar da reduzida oferta de pontos de atendimento ao turista pela cidade, o importante é que a população do Rio colabora.
— As pessoas nas ruas me ajudam bastante. Bem mais que qualquer folheto, na verdade — brincou Iohanson.
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Alfredo Lopes, o pouco investimento em informações turísticas e em material promocional institucional demonstram a falta de uma estratégia pública para o desenvolvimento do setor, que vá além da divulgação da cidade para o réveillon e o carnaval. Em sua avaliação, a realização de grandes eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada melhorou bastante a infraestrutura para os visitantes através da ampliação da oferta hoteleira em mais de 20 mil quartos e melhorias da rede de transportes, com a implantação do VLT e a expansão da rede metroviária até a Barra da Tijuca:
— O Rio não tem uma estratégia de promoção institucional para o ano inteiro. Por falta de verbas, a Riotur não participa de feiras e de convenções internacionais para divulgar a cidade e muito menos divulgar o país no exterior. Uma das consequências disso é que hoje 80% dos turistas da cidade vêm de outros estados. Esse fenômeno foi provocado principalmente pela alta do dólar, que tornou o turismo no exterior mais caro. No passado, a proporção de estrangeiros chegou a 40% — explicou Lopes.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior