Sob o efeito Rafaela: Cidade de Deus esquece seus problemas para vibrar com a campeã

A pequena e espevitada Geovana responde com velocidade olímpica o que vai ser quando crescer: “lutadora de judô”. Com apenas 4 anos, ela é a prima mais falante de Rafaela Silva. Vivendo na casa onde nasceu o primeiro ouro do Brasil nos Jogos, a menina promete seguir os passos da atleta cuja conquista no tatame sacudiu de alegria, na segunda-feira, a conturbada Cidade de Deus.

Veja também

Sorriso de criança. RafaelaFavela corre na veia de Rafaela Silva
Coach esportiva Nell Salgado que ajudou Rafaela Silva a superar críticas‘É amor, tiro, porrada e bomba’
Rafaela Silva com o técnico Geraldo Bernardes‘Medalha de sabor social’, diz técnico de Rafaela Silva
— A comunidade estava com uma expectativa muito grande em relação à participação de Rafaela na Olimpíada. Cada luta dela parecia uma final de Copa do Mundo. As pessoas torceram, comemoraram demais. Foi um dia diferente, marcante para todos nós — disse o major Roberto Valente, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que, horas mais tarde, voltou à rotina: seus homens entraram novamente em confronto com a facção que controla um exército de jovens na favela de Jacarepaguá.

Valente espera que a medalha de ouro conquistada por Rafaela dê força para ações sociais na comunidade. Ele não tem dúvida de que o esporte é o melhor caminho para afastar crianças do tráfico.

— Temos um projeto de artes marciais para os jovens. O principal objetivo dessa iniciativa não é o pódio, mas, sim, fazer uma prevenção, ocupar crianças e adolescentes para que o esporte seja a saída de um ambiente perigoso. Atendemos 300 jovens, e Rafaela é a madrinha desse trabalho, sempre o incentivou. Algumas crianças começam uma trajetória parecida com a dela, outras já são vitoriosas por terem se afastado do crime. Rafaela é importante demais porque a gente precisa de exemplo. Quando alguém vai lá e faz, mostra que é possível, temos uma verdadeira festa. Pode não durar muito, mas marca. O que vemos hoje (ontem), tantos moradores felizes, é um efeito da conquista, uma inspiração — afirmou o major da PM.

Na Cidade de Deus, a terça-feira não teve rodinhas de discussões sobre o momento de Neymar, gols mal anulados ou as camisas mais bonitas das seleções de futebol. Foi outro dia de debates animados sobre ippons, wazaris e outros golpes do judô. Entre vizinhos da família Silva, todo mundo, parente ou amigo, contava histórias de convivência com o novo ídolo nacional. As ruas empoeiradas viraram tatames nos quais crianças se agarravam sem parar, derrubando umas às outras e avisando aos adultos: “Viu? Viu? Igual a ela!”. João Vitor, de 13 anos, praticante de judô, tirava onda e dava dicas; Brian, de 7, recuperava-se de um tombo e garantia:

— Quero ganhar uma Olimpíada.

Com uma população bastante jovem — 11.500 (23%) de seus 50 mil moradores têm até 14 anos, segundo dados do IBGE —, a Cidade de Deus apresenta um dos Índices de Desenvolvimento Humano mais baixos do município: ocupa a 116ª colocação em um ranking de 126 regiões do Rio. Há locais de extrema miséria, como a localidade chamada de Barracos, cheia de casebres erguidos com pedaços de madeira e PVC. Mas, mesmo ali, a felicidade estava no rosto de todos.

— Foi muito legal, né? Eu também lutava! Lutava boxe, mas tive que parar por causa de alguns problemas… — comentou Diogo, de 10 anos, evitando falar dos frequentes tiroteios. — Acho que a situação vai melhorar, aí poderei voltar. Quero ser lutador.

Um homem que nasceu e cresceu na Cidade de Deus acompanhava com um sorriso cada pequeno dando entrevista. Ele espera que a empolgação generalizada com a conquista de Rafaela não passe tão cedo e lamenta que, hoje, o “esporte” praticado por boa parte da criançada não seja nobre como as modalidades olímpicas:

— Se você for ao campinho ali atrás vai ver um monte de crianças jogando ronda. Sabe o que é? Um jogo de cartas com apostas em dinheiro. Alguns dos meninos têm só 5, 6 anos. É a cultura que estão aprendendo com o tráfico.

Fonte: O Globo
Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior