Por falta de vigilância da prefeitura, crianças e adultos continuavam brincando ontem embaixo da estrutura de concreto do Parque dos Patins, na Lagoa, que está sob risco iminente de desabamento. É grande o perigo de um acidente de graves proporções. No último dia 8, a área foi interditada pela Defesa Civil do Rio a pedido da Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), que admitiu, em nota, o risco de pilares e vigas virem abaixo por causa de seu péssimo estado de conservação. Mas, tanto no fim de semana quanto ontem, parte das faixas amarelas usadas para isolar a área já estava caída no chão, e, para completar o descaso, não havia sequer um funcionário para advertir os frequentadores do perigo que estão correndo.
No parque que deveria estar interditado, o concreto das estruturas está tão gasto que as ferragens estão expostas e enferrujadas. Na área dos brinquedos, muitos deles pichados, a ponte de madeira também foi fechada, e as gangorras estão frouxas. O cenário é de total abandono. A Seconserma diz que ainda está fazendo o projeto técnico para a elaboração do orçamento das obras. Por isso, ainda não há nem previsão de reabertura do espaço. Na semana passada, a Comlurb deu uma melhorada nos balanços e começou a pintar o labirinto do parque, um dos mais importantes da Zona Sul.
Enquanto isso, moradores do Rio, sem saber da gravidade do problema, continuam frequentando o parque normalmente. O servidor público Daniel Almeida não foi alertado e deixou os dois filhos pequenos, de 4 e 6 anos, percorrerem toda a área de bicicleta, pois nada os impediu de entrar. Ele nem sequer sabia da interdição. A menos de 50 metros deles, no estacionamento, uma equipe do Lagoa Presente fazia a ronda, mas não interferia no acesso ao local.
— Eu sempre venho aqui. Há mais ou menos uns dois meses, vi que houve uma movimentação de isolar essa cobertura, mas hoje percebi que esse isolamento tinha sido retirado. Entrei tranquilamente com as crianças, sem ser impedido — disse Daniel.
ESPECIALISTA: FALHAS DESDE A CONCEPÇÃO
A situação é realmente séria. Ex-conselheiro do Crea-RJ e especialista em Patologia das Estruturas, o engenheiro civil Antonio Eulalio analisou as construções do parque e confirmou que tudo corre o risco de desabar a qualquer momento. Ele avaliou, inclusive, que o perigo não começou nas últimas semanas.
— Isso é o resultado de, pelo menos, uns dez anos sem manutenção estrutural. A Defesa Civil tem muita razão em interditar, pois, quando o aço corrói, ele aumenta de volume e começa a desagregar o concreto, que pode se soltar e ferir uma criança ou um adulto seriamente — disse Antonio.
Para o engenheiro, a estrutura também apresenta falhas que vão desde a sua concepção. O parque, com área total de 12 mil metros quadrados, foi feito em 1995, na gestão do ex-prefeito César Maia, e revitalizado em 2012. No local, funcionava antes o Tivoli Park. Bem perto da Lagoa, que recebe água do mar, a região tem características próprias.
— Em uma área dessas, bem salobra, é necessário que se tenha, pelo menos, uns 4 centímetros de cobertura das vigas, o que se nota que não existe. Considero que toda essa estrutura está perdida, é irrecuperável. Talvez tenha até que ser demolida por completo, pois pode sair mais barato — completou.
VERBA PARA CONSERVAÇÃO SÓ DIMINUI
Dados do Rio Transparente mostram uma redução dos gastos da prefeitura na conservação de espaços como o Parque dos Patins, nos últimos anos. Este ano, o portal informa que a prefeitura desembolsou R$ 1,73 milhão em obras e projetos de ampliação, reconstrução e reformas de praças, áreas de lazer, logradouros e parques urbanos.
O valor está longe de se aproximar dos R$ 28,7 milhões desembolsados na urbanização e revitalização de espaços públicos ao longo de 2017. E é ainda menos significativo se comparado com a quantia usada para pagamento dessas intervenções em 2016, ano da Olimpíada do Rio: um total de R$ R$ 452,4 milhões.
Assim, o Parque dos Patins não é o único da cidade com graves problemas. No Parque Garota de Ipanema, O GLOBO também encontrou ontem, próximo à entrada pela Rua Francisco Otaviano, uma estrutura de concreto visivelmente deteriorada, com uma boa parte das suas ferragens exposta e enferrujada. Questionada sobre o estado da construção, a Fundação Parques e Jardins, que administra o espaço urbano, anunciou que uma equipe técnica fará uma vistoria no local para adotar as providências necessárias. Em outra ponta do Rio, no Parque Radical, em Deodoro, parte dos equipamentos construídos para as Olimpíadas não está funcionando por falta de luz.
Funcionária de um dos pulas-pulas instalados do parque, Josineide Rodrigues nega que os próprios trabalhadores ou frequentadores tenham retirado as faixas de advertência da Defesa Civil, mas tenta minimizar o perigo:
— Com as faixas amarelas, ninguém estava querendo mais vir para cá. As pessoas ficavam com medo. Para mim, a questão é mais de política. Em todo ano eleitoral, tem esse movimento por aqui de tentarem interditar o parque.
Enquanto as pessoas se arriscam, a Seconserma informou que já acionou a Defesa Civil para repor as faixas amarelas de interdição da área coberta, por conta do risco de queda de revestimentos de pilares e vigas da estrutura de concreto. “Vale lembrar que, desde o último dia 8, a Seconserma já havia solicitado à Defesa Civil a interdição do Parque dos Patins pelo risco de desabamento da estrutura do pergolado, a fim de evitar acidentes; o que prontamente foi feito pelo órgão. No momento, técnicos da secretaria se dedicam a executar o projeto e o orçamento para recompor a área. Ainda não há previsão de reabertura”, disse, em nota.
Já a Subsecretaria municipal de Proteção e Defesa Civil do Rio (Supdec) afirmou que toda a área do parque permanece interditada pelo risco real da queda do revestimento, e que enviará uma equipe para recolocar as fitas amarelas.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior