A noite ainda é uma criança às 5h de segunda-feira. “Oh, if I catch you, oh, oh, if I catch you”, canta a judoca californiana Marti Malloy, de 30 anos, ao dançar com um carioca cheio de ginga na boate Pink Elephant, na Barra da Tijuca. Ciúme na pista: um colega do Team USA puxa a ruiva, medalhista de bronze na Olimpíada de Londres, perguntando “por que você não dança comigo?”. O brasileiro dá risada.
Não é casual que o hit de Michel Teló tenha tocado na versão em inglês. Talvez metade da pista na filial carioca da casa nova-iorquina fosse de estrangeiros querendo aproveitar ao máximo os prazeres noturnos de uma cidade que ferve. Quando MC Marcelly pede a todos que desçam até o chão, nem o brutamontes holandês Peter Mullenberg consegue ficar parado. O pugilista meio-pesado de 27 anos, eliminado na quinta-feira em sua segunda luta, descobre que rebolar é para poucos — ainda mais até o chão, estando a 1,83m do solo.
A pouco mais de 10km de distância do Parque Olímpico, a Pink Elephant é um dos destinos preferidos de boa parte dos esportistas e técnicos hospedados na Vila dos Atletas. Com a pista de dança lotada, garrafas de champanhe chegam em baldes de gelo com recursos pirotécnicos. Não precisa ser Veuve-Clicquot nem Henriot Blanc des Blanc, basta um Chandon para os garçons acenderem fogos de artifício. Ouve-se um estranho pipoco, alguns se assustam, mas era apenas o DJ explodindo na pista uma bomba de papel picado.
— Pensei que fosse tiro, que susto — comenta um canadense da equipe de natação.
Os nadadores parecem ter mais fôlego para beber e dançar até de manhã. Musa das piscinas, a francesa Cloé Hache, de 19 anos, atraía olhares de três continentes: holandeses, americanos e australianos, além de seus conterrâneos, ficam hipnotizados. Um brasileiro se enche de coragem e caipirinha para falar com ela. Fita o par de olhos azuis, escorado na parede para não cair, e pede um beijo. Ganha apenas um sorriso.
O também francês Frederick Bousquet, ex-recordista mundial dos 50 metros rasos, abraça o brasileiro Thiago Pereira em um camarote ao lado da pista. Parece consolar o medalha de prata em Londres nos 400 metros medley, que acabou em sétimo nos Jogos do Rio, nos 200 metros da modalidade. MC Marcelly anuncia a presença do brasileiro:
— Thiago Pereira também está aqui.
Do outro lado da pista, perto do esgrimista francês Enzo Lefort, de 24 anos, que ganhou prata no Rio na disputa por equipe, uma transsexual chama atenção de um europeu. Ele pergunta se ela é uma mulher e ouve como resposta: “Quase”. Ela tira o francês para dançar música sertaneja. Os corpos se esfregam, de repente o atleta dá um grito e um salto para trás, a outra solta uma gargalhada.
BOEMIA NOS ARCOS
A noite segue na cidade olímpica. Longe dali, nos Arcos da Lapa,a ambulante Roziene Salvador diz que “os gringos piram” no coração da boemia. Ela, que vendia 70 latinhas de cerveja por noite, tem vendido 200 desde o início da Olimpíada. Americanos fantasiados de Tio Ben riem de tudo. Um deles vai à lona, com a calça arriada, e deve estar de ressaca até agora. Sob o velho aqueduto, um holandês está tão transtornado que fuma um cigarro apagado sem perceber. É a noite mais democrática da cidade, com a Rua Mem de Sá completamente lotada às 5h, especialmente no trecho entre os arcos e a Rua do Lavradio, onde carro nenhum passa. Uma delegação da Arábia Saudita se esbalda com litros de uísque na casa de shows Sarau Rio. O sócio da casa, Fabrício Bueno, tem tido problemas com alguns excessos da animada freguesia:
— O principal é a caipirinha. Os estrangeiros bebem muito rápido. Às vezes, temos que pedir para eles pararem, se não pode haver um desastre.
Na longa jornada noite adentro, vê-se gente de todos os tipos nas ruas do bairro: um grupo de jovens noruegueses, um casal de atletas suíços, um irlandês enrolado à bandeira de seu país, um morador de rua de paletó. Há quem tenha saído dos shows na Praça Mauá, que acabam no máximo às 2h, e partido em romaria rumo à Lapa, sempre ela. Se antes fechavam mais cedo, por causa da queda no movimento que atinge todas as casas noturnas da cidade, hoje os bares da região ficam abertos até o sol raiar.
— Queria que essa noite não acabasse — diz a holandesa Sanne Veldt, ao lado de três amigas.
Anunciando o novo dia, pássaros cantam nas árvores e é possível ouvi-los de qualquer boteco enquanto todos voltam para casa, exaustos, bêbados e felizes.
Fonte: O GLobo
Foto: Pedro Teixeira
Postado por: Raul Motta Junior