Com seus 21.400 hectares de Mata Atlântica preservada, o Parque Estadual do Desengano (PED) é o último grande ponto verde no mapa do Norte Fluminense. Numa região onde a economia é baseada na plantação de cana-de-açúcar e na extração do petróleo, o parque mais antigo do estado — completou 45 anos em abril — é a casa de dezenas de espécies de animais ameaçadas de extinção, como o macaco-muriqui, e nascente para 20 rios e riachos, que descem as montanhas do Desengano até encontrar o Paraíba do Sul.
Desde julho, condutores vêm sendo formados no parque para trabalhar como guias dentro da área preservada. Ao todo, 90 pessoas dos três municípios onde a reserva está alojada — Campos dos Goytacazes, Santa Maria Madalena e São Fidélis — receberão certificados para exercer a função.
O gestor do PED, Carlos Dário, observa o fluxo da Cahoeira da Cascata – Hermes de Paula / Agência O Globo
— Quando colocamos as pessoas da região dentro do parque, cria-se um sentimento de pertencimento. Eles passam a enxergar aquele espaço como delas, e isso ajuda muito na preservação — conta Carlos Dário, guarda-parques e gestor do PED.
Natural de Santa Maria Madalena, o empresário Ataulfo Marotti viu no curso uma oportunidade para ampliar seus negócios. Ele fez parte da segunda turma — a primeira foi de São Fidélis, e a terceira será de Campos. Com um hostel na cidade, ele pretende entrar de vez no ramo do turismo ecológico.
— Sempre gostei de estar em contato com a natureza. Quando surgiu a oportunidade de me capacitar, não pensei duas vezes. É mais uma maneira de agregar conhecimento — diz Marotti, que acaba de se formar na segunda turma de condutores.
Por quase três meses — são 100 horas/aula —, os alunos aprendem primeiros socorros e a se portar em um ambiente de mata fechada. Os aprendizes são apoiados pelas comunidades por onde passam, onde conseguem comida e abrigo em dias de chuva. O instrutor Daniel Zanuzzio, guarda-parques do Rio há três anos e responsável pela formação da segunda turma, fala com orgulho do projeto:
— Uma área com turismo correto acaba inibindo o uso incorreto do espaço. Quando se cria um condutor obedecendo normas, o risco de acidentes diminui. Além disso, conseguimos fixar renda na região.
Além de Dário e Zanuzzio, outros 12 guardas-parques trabalham no parque. Eles são responsáveis por patrulhar toda a área e impedir que incêndios — como o ocorrido em Serra das Almas, em janeiro — se alastrem. A tropa comandada por Dário auxilia ainda uma Unidade de Polícia Ambiental (UPAm) com 28 policiais militares, responsáveis por fiscalizar e impedir o trabalho de caçadores na região.
A reserva tem trilhas de diferentes níveis de dificuldade, proporcionando contato com lindas paisagens, como os vales formados pelas montanhas, de onde é possível olhar o horizonte e perder de vista os limites do PED. A árvore do arco é outro destaque, ponto de partida do Circuito da Cascata.
Apesar de tantos atrativos, pelo último levantamento disponível, de 2013, apenas 10.793 pessoas estiveram no parque — cerca de 900 por mês. Grande parte dos visitantes busca esportes de aventura e observação de aves.
Somada à zona de amortecimento, a extensão do parque chega a 40 mil hectares, e há projetos para a ampliação da reserva. Os rios que brotam no Desengano têm papel fundamental na preservação da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul, o que torna o trabalho de Dário e dos condutores ainda mais importante. O PED é prova de que a natureza respira. Ainda bem.
Fonte: O GLobo
Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior