Antes das escolas de samba transformarem o carnaval carioca numa festa mundialmente famosa, as agremiações carnavalescas que predominavam na cidade eram o ranchos. Pouco conhecidos pelos foliões mais novos, esses grupos foram muito populares entre o fim do século XIX e o início do século XX e tiveram como colaboradores compositores famosos da música brasileira, como Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Anacleto de Medeiros e Bonfiglio de Oliveira. No início dos anos 2000, uma turma de amigos formada por artistas, jornalistas e professores — todos frequentadores do bar Bip Bip, em Copacabana — resolveu resgatar essa tradição e criou o Rancho Flor do Sereno, que até 2013 animou os carnavais na Zona Sul. Agora, depois de quatro anos parados, eles estão de volta com o espetáculo musical “O carnaval de Pixinguinha”, em cartaz até o dia 24 na Casa do Choro, no Centro.
— A ideia surgiu da cabeça do compositor Elton Medeiros, nosso mentor, que falava dos ranchos da sua infância. Fizemos muitos carnavais em Copacabana. Nos dois primeiros anos, saímos numa cortejo com um caminhãozinho de som modesto com a orquestra, alas fantasiadas e cantores. A partir do terceiro, decidimos ficar parados, por uma questão de logística e recursos escassos. A orquestra atraiu um imenso número de foliões, ocupando neste período um lugar de destaque no processo de retomada do carnaval de rua carioca — conta o violonista Paulo Aragão, que assina a direção musical do espetáculo.
Em 2007, o grupo lançou um CD, mesclando a rica e esquecida tradição de ranchos como o Ameno Resedá e o Flor de Abacate (os mais emblemáticos ranchos cariocas) a músicas de compositores cariocas da atualidade, como Elton Medeiros, Cristóvão Bastos, Mauricio Carrilho, Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc.
A falta de apoio e o crescimento das exigências para o carnaval de rua na cidade fizeram com que o Flor do Sereno encerrasse as atividades em 2013.
— Apesar de ser algo que sempre despertou muita paixão em todos os integrantes, o projeto acabou se tornando inviável. Com a criação da Casa do Choro, vimos que era possível retomá-lo no formato de um espetáculo. Esperamos agora conseguir apoio para levar essa apresentação para outros lugares. O mais difícil, que foi colocá-la de pé, já está feito — afirma Aragão.
O show foi batizado com o mesmo nome de um trabalho de resgate de composições de Pixinguinha feito pelo violonista ao lado de Bia Paes Leme, Marcílio Lopes e seu irmão, Pedro Aragão, lançado no formato de uma caixa de partituras pelo Instituto Moreira Salles.
— Tendo trabalhado intensamente na indústria fonográfica e no rádio, a partir da década de 1930, Pixinguinha deu formato à sonoridade do samba e da marchinha de carnaval, trazendo para os estúdios de gravação sua experiência como diretor de ranchos carnavalescos. Em dezenas de arranjos para estrelas da música da época, como Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda ou Silvio Caldas, Pixinguinha desenvolveu uma assinatura inconfundível, trazendo a percussão dos morros para o centro das músicas — explica o violonista, ressaltando que no repertório estão polcas, maxixes, tangos brasileiros, sambas e marchinhas de carnaval, que mostrarão como a verve de compositor segue viva e mais atual do que nunca.
Com um trecho instrumental, mas a maior parte cantada, a apresentação conta com as participações dos cantores Pedro Miranda, Pedro Paulo Malta e Nina Wirtti, figuras conhecidas do samba carioca.
— Estou evolvido com o Flor de Sereno desde o início, em Copacabana. Depois, participei de um show que foi montado para o lançamento da caixa de partituras. É uma emoção enorme fazer parte desse resgate de uma parte esquecida da nossa cultura — diz Pedro Miranda.
A Orquestra do Rancho Flor do Sereno é formada por Aquiles Moraes (trompete), Everson Moraes (bombardino), Jayme Vignoli e Lucas Souza (cavaquinho); Luiz Flavio Alcofra e Paulo Aragão (violão); Pedro Paes (sax tenor), Rui Alvim (clarinete e sax alto), Thiago Osório (tuba), Tomaz Retz (flauta e flautim); e Marcus Thadeu, Magno Julio, Gabriel Leite e Oscar Bolão (percussão).
— Essa formação com os instrumentos de sopro era exatamente o que havia nos carnavais de rua de antigamente, antes das escolas de samba. Temos inclusive um bombardino, instrumento pouco conhecido nos dias de hoje, mas muito popular na época — destaca Rui Alvim.
“O carnaval de Pixinguinha” pode ser visto às quartas e quintas-feiras deste mês, às 19h. O ingresso custa R$ 30, e a classificação é livre. A Casa do Choro fica na Rua da Carioca 38. Mais informações pelo telefone 2242-9947.
HOMENAGEM A ALFREDINHO, DO BIP BIP
“O Bip Bip é a cultura do Rio de Janeiro ao vivo, em cores, e com o melhor fundo musical possível. Seu proprietário e mestre-sala, meu particular amigo Alfredo, consegue um milagre tipicamente carioca: é o mais simpático e o mais irascível dono de bar da cidade. A história do Bip Bip já se confunde, unha e carne, com a história de São Sebastião do Rio de Janeiro.” As palavras do compositor Aldir Blanc — que estampam a contracapa do livro “Bip Bip, um bar a serviço da alegria” — descrevem bem a importância que esse reduto da boemia de Copacabana tem para a vida artística da cidade. Foi no Bip Bip, por exemplo, que o Rancho Flor do Sereno foi criado e promoveu os seus carnavais nos anos 2000. Agora, com o espetáculo “O carnaval de Pixinguinha”, o grupo preparou uma homenagem ao proprietário, Alfredo Jacinto Melo, o Alfredinho.
— O Alfredinho foi um dos grandes entusiastas do Rancho e é uma figura que fez e ainda faz muito pela cultura da cidade. Como não temos muita verba, a forma que achamos para homenageá-lo foi compondo duas canções para ele. Elas se chamam “Deus abençoe esta bagunça” e “A serviço da amizade” — conta o violonista Paulo Aragão, diretor musical do espetáculo.
O comerciante afirma que recebeu com emoção a homenagem, já que o rancho é um dos marcos da sua vida:
— O ano que eu não vi sair o Rancho, eu fui para minha casa e chorei muito. Nós não tivemos apoio financeiro, todo ano a mesma luta, e ainda assim fazíamos aquela festa de sempre em tantos carnavais. Era uma diversão na hora de sair, mas os músicos profissionais não recebem pelo seu talento. O Rancho era composto pelos melhores músicos, profissionais de verdade, e eu não sou cafetão de músico, ficava triste porque os músicos não ganhavam nada — diz Alfredinho.
À frente do bar desde os anos 1980, ele afirma que comprou o ponto com medo de que o local se transformasse numa farmácia:
— Eu era frequentador. Quando vi que estava vendendo, resolvi comprar porque fiquei com medo de virar farmácia. Tudo virava farmácia. Não entendia nada de ser dono de bar, como não entendo até agora. Então começamos a fazer música. Os maiores músicos do Brasil, sempre dando força aos mais jovens. O Bip Bip formou muito músico, muitos cantores são gratos — destaca.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Agência O Globo