Professor de História da Faetec dribla crise com humor e talento

Mais conhecido como Cadu Manhães, ele deu uma guinada na carreira graças ao seu bom humor. Desde 2016 está sem receber regularmente, e já ficou três meses seguidos sem ver a cor do salário. Por conta disso, tem dívidas acumuladas até hoje. Mas Cadu decidiu fazer piada da situação. Há um ano, o pai de Beatrice, Eduarda e Miguel se enveredou pela vida de comediante em bares e casas noturnas de Niterói e São Gonçalo. Com a ajuda de um amigo, decidiu levar aos palcos as piadas que faz corriqueiramente nas salas de aula e nas redes sociais:

— Conheci o Markus Rosa frequentando seu bar, o Rock’n’Beer Pub. Era a única pessoa da cena de humor mais próxima. Ele começou a me seguir nas redes sociais e a curtir as minhas piadas. Um dia, na cara de pau, eu sugeri me apresentar, e ele topou.

O amigo recente, ex-aluno do Henrique Lage, sentiu afinidade e tinha certeza de que Cadu seria um sucesso.

— Coloquei uma atração musical no dia de estreia e divulguei muito. Foi a combinação perfeita. Tudo fluiu, e a galera adorou — conta Rosa.

Novos shows foram acontecendo, e Cadu começou a investir nos textos e a aprender técnicas para melhorar as apresentações. O professor precisou, então, aumentar sua rede de contatos na área. Conheceu dois comediantes profissionais que o ajudaram nessa jornada. As primeiras dicas de como escrever um stand up foram de Iuri Salvador, comediante de São Gonçalo. Ele também corrigia os textos e sugeria alternativas e soluções engraçadas:

— O texto do Cadu, como todo texto de principiante, era cheio de boas ideias, mas sem o timing da comédia. Eu ajudei a podar, mas o restante foi uma questão de dedicação, domínio, técnica, vontade e criatividade.

O comediante Eduardo Jericó ofereceu os primeiros open mics, participação de humoristas iniciantes em apresentações profissionais.

— É como se fosse um test drive. Era só isso que ele precisava: uma oportunidade. Ele é um comediante disciplinado, estudioso, que pratica em busca do conhecimento — diz Jericó.

Dos 44 anos de Cadu, 17 foram dedicados a lecionar no Henrique Lage. O professor, que se formou na UFF e vive desde os 8 anos em Niterói, conheceu sua mulher nas salas de aula da universidade. Luciana Gonçalves também é professora de História. Para ela, Cadu deveria conciliar as duas carreias.

— Numa, ele está iniciando, e é tudo meio incerto. Noutra, ainda existe a estabilidade do serviço público — diz Luciana, que sempre percebeu a vocação do marido para a comédia. — Buscar no humor uma alternativa se mostrou uma saída para seu estado de espírito e a garantia de um dinheirinho extra.

Premiado por alunos

Cadu continua lecionando e faz entre seis e oito shows por mês, números que, segundo ele, são razoáveis para o mercado carioca de humor.

— Não tenho uma projeção otimista quanto às dívidas, que se acumularam. E, infelizmente, ainda não é possível viver só de humor — lamenta Cadu. — São pouquíssimos os lugares de stand up no Rio, se comparado a São Paulo. Mas vou me apresentar ao mercado paulista ainda este ano.

Pela prova de talento ele já passou e foi aprovado: no final do ano passado, Cadu faturou o título de vice-campeão do prêmio Humor de Boteco, disputado na casa de shows Berlinda:

— É uma premiação criada pelos alunos de Produção Cultural da Estácio de Sá. Havia cerca de 15 competidores.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior