Prefeitura recebe, em média, 69 solicitações de poda de árvores por dia; demora do serviço é alvo de reclamações

A imagem é de um imenso fícus italiano que esparrama galhos e folhas sobre um prédio de três andares na movimentada esquina da Rua Pereira Nunes com a Avenida Maracanã, na Tijuca. Poderia ser um recorte bucólico desse barulhento e engarrafado pedaço da cidade, se não fosse pelas dores de cabeça que a árvore causa nos moradores. Na verdade, a culpa não é dela, também conhecida como falsa-seringueira: os danos no telhado e as infiltrações nos apartamentos mais altos são resultado da falta de poda pela Comlurb, apesar de um condômino solicitar o serviço há quatro anos.

São milhares de pedidos de todas as regiões da cidade numa interminável fila. Em 2019, o número 1746, da prefeitura, recebeu 25.239 chamados para poda — o que dá uma média de 69 por dia. É o sétimo serviço mais solicitado pelo canal. Do total, 2.795 árvores foram vistoriadas e descartadas por não precisarem do serviço, na avaliação da Comlurb, que diz ter feito poda em 11.226. Restaram, então, nada menos que 11.218 solicitações. E a demanda continua crescendo.

Coleção de protocolos
Este ano (a Casa Civil do município, responsável por repassar os dados, não informou até que data), foram feitos 4.219 pedidos. A Comlurb atendeu 1.079, e considerou 339 dispensáveis. Estão em espera 2.801.

No caso do fícus da esquina da Rua Pereira Nunes com a Avenida Maracanã, o engenheiro Luiz Geraldo Furiatti, colecionador de protocolos do 1746, diz que seu prédio já ficou sem luz e internet por problemas na fiação causados por queda de galhos. Há aproximadamente oito meses, uma equipe da Comlurb esteve no local, mas fez uma poda parcial, junto à rede elétrica.

— Um funcionário me disse que a escada do caminhão da empresa não atingia o alto do prédio, que é baixo — diz ele indignado, mostrando o telhado que terá de passar por reparos. — A gente acaba desistindo de reclamar.

A falta de poda adequada também marca a Praça Paris, jardim francês de 1926 tombado pelo município, na Glória. Os arbustos geométricos, principal característica do lugar, perderam a forma. A Comlurb admite que, atualmente, não tem especialistas em topiaria (técnica de jardinagem artística). Assim, quem visita o local, em vez de contemplar uma pequena Versalhes, encontra uma série de árvores que parecem estar “descabeladas”. Hoje, arbustos que passaram por podas malfeitas lembram abacaxis.

— É mesmo um sinal de abandono — sentencia o engenheiro florestal Deivison Sampaio Faria, que trabalha com gestão ambiental e explica por que o tema gera tantas reclamações na cidade. — A poda passa por alguns processos. Para que não vire uma emergência, tem que haver manutenção. Isso realmente não se vê. Só é realizada poda onde o contribuinte reclama, e ele reclama porque a situação já chegou a um ponto crítico.

Em 2016, foi aprovado por decreto o Plano Diretor de Arborização Urbana da Cidade, que previa, entre outras medidas, a elaboração de um inventário das árvores do Rio. De acordo com a prefeitura, esse mapeamento não tem data para ser concluído. Na época do plano, a falta de poda liderava a lista de reclamações do 1746 (em 2019, afirma o município, ficou em sexto no ranking). O documento também tratava da necessidade de um órgão único para arborização — em 2008, a execução de podas saiu da responsabilidade da Fundação Parques e Jardins (FPJ) e foi para a Comlurb.

Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, houve queda de qualidade do serviço a partir da reestruturação. De acordo com eles, o trabalho passou a ser executado apenas de forma emergencial, a partir do recebimento de queixas registradas pelo 1746.

— A cidade tem cerca de um milhão de árvores e não está preparada para essa gestão. Falta planejamento — afirma o arquiteto e urbanista Roberto Rocha, que foi da FPJ e participou da elaboração do Plano Diretor de Arborização.

Na Câmara Municipal, tramita um projeto de lei da vereadora Teresa Bergher (PSDB) que, se for aprovado, devolve para a FPJ as atribuições de conservação de árvores. De acordo com um levantamento de seu gabinete, a rubrica “manejo de arborização”, que inclui ações como poda e remoção, sofreu uma redução orçamentária de 34% este ano, em comparação com 2019. A verba caiu de R$ 12 milhões para R$ 7,9 milhões. No próximo dia 30, o assunto será discutido em uma audiência pública.

Hoje, a Comlurb tem 14 engenheiros florestais e agrônomos para lidar com toda a demanda. Para a execução de serviços de poda e remoção, há 60 equipes, totalizando 600 profissionais operacionais e administrativos, segundo a companhia. A empresa diz que, até agosto do ano passado, sua capacidade para poda e remoção não dava conta da demanda “em função de recursos disponíveis”, mas, “a partir de setembro de 2019, 38 novos caminhões passaram a integrar a frota, o que permitiu dobrar o serviço”. “A companhia tem atendido aos pedidos que entram mensalmente e também todo o passivo gerado pela impossibilidade de atendimento do passado”, conclui, em nota.

Morador da Rua Paula Freitas, em Copacabana, o aposentado Luiz Antero conta que pede há 11 anos a poda das árvores entre a Barata Ribeiro e a Tonelero. No mês passado, a Comlurb esteve na rua, mas, segundo ele, não cuidou do trecho. A empresa nega, embora as árvores já formem uma espécie de túnel verde.

— O problema é que as árvores encobrem a iluminação, deixando a rua escura e insegura — reclama o aposentado.

A moradora de Laranjeiras Liane Reis tem outra queixa: os tocos de árvores, muitos com mais de um metro, deixados por equipes da Comlurb que passaram pelo bairro.

— Estão desfigurando a cidade — diz ela.

Essas ações já motivaram uma petição on-line, em protesto contra a Comlurb. A companhia afirma que a retirada dos tocos é feita após a remoção das árvores, num processo longo para não danificar redes subterrâneas de cabos.

O paisagista Gustavo Leivas, do Escritório Burle Marx, ressalta que uma poda malfeita pode matar uma árvore:

— A gente não vê plantio no lugar dessas árvores. E, assim, vai avançando, de forma silenciosa, a redução da cobertura verde. Uma árvore grande chega a reter dois mil litros de água da chuva. Quando você a retira, essa água vai toda para o chão, sobrecarregando o sistema de drenagem superficial.

Quem decide podar uma árvore sem autorização da prefeitura corre o risco de receber uma multa: aplicada pela Patrulha Ambiental, ela vai de R$ 89 a R$ 4.458.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior