A lógica na administração pública é perversa: menos recursos, menos serviços. E, nessa crise na qual a prefeitura do Rio está mergulhada, a primeira vítima tem sido a saúde. Faltam remédios e insumos, enquanto as dívidas crescem e funcionários cruzam os braços diante de atrasos nos salários. Nos quase três anos da administração do prefeito Marcelo Crivella , do orçamento total previsto para a pasta, cerca de R$ 2,2 bilhões (em valores corrigidos pelo IPCA-E de setembro) deixaram de ser aplicados em atendimentos, obras e compras.
Só este ano, ainda não foi executado R$ 1,04 bilhão de um orçamento de R$ 5,2 bilhões. O Fincon — sistema de acompanhamento da Câmara Municipal — mostra ainda que a prefeitura tem uma dívida R$ 268,57 milhões com fornecedores só do setor da saúde. O levantamento feito pelo gabinete da vereadora Teresa Bergher (PSDB) ressalta, no entanto, que esse valor não leva em conta os restos a pagar de anos anteriores, que somam R$ 350 milhões. O total de débitos foi informado pela secretária municipal de Saúde, Ana Beatriz Busch, em recente audiência na Câmara Municipal.
— O cidadão não consegue atendimento, os hospitais estão à míngua e toda a rede virou um verdadeiro caos. Não há dinheiro nem gestão. É uma mistura de incompetência com falta de prioridades e dinheiro — criticou Teresa Bergher, que vai remeter esses dados para o Ministério Público. — A rede de saúde pública praticamente deixou de funcionar, e os gestores podem responder por crime de responsabilidade.
Já o vereador Paulo Pinheiro (PSOL) chama a atenção para os remanejamentos de recursos da saúde para outras áreas, o que contribui para agravar a crise nas unidades. A perda do setor ficou em R$ 98 milhões este ano. Segundo ele, a penúria atinge até mesmo o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. Lá, diz, faltam antibióticos e anestésicos, além de profissionais de saúde:
— Os sete leitos da unidade coronariana estão fechados desde julho por falta de pessoal.
Em visita ao Albert Schweitzer, em Realengo, administrado por uma Organização Social (OS), Pinheiro constatou que 25 vagas no CTI estão fechadas.
— O mau uso do orçamento atinge tanto as unidades administradas pela prefeitura, como as operadas por OSs e pela RioSaúde (empresa do município). Sem falar que acabaram com 200 equipes de saúde da família, o que provocou a demissão de 2.500 profissionais de OSs. A crise na saúde não está acontecendo por acaso — afirma o vereador.
Os gastos com o setor no Rio
Em R$ bilhões
Dotação orçamentária atualizada
Despesa liquidada*
Ainda não executado
2017
2018
2019
2020**
5,695
6
5,638
5,635
5,224
5,201
93%
4,910
86%
5
4,154
80%
4
3
2
1,047
0,784
1
0,414
0
O QUE FOI FEITO E PAGO EM 2019
Despesa liquidada*
4,154
R$ 350
Dívida de anos
anteriores
milhões
Despesa paga
3,885
Dívida
0,268
*A execução do serviço foi constatada **Previsão 2020
Os valores foram atualizados pelo IPCA-E de setembro de 2019.
Os deste ano correspondem à execução orçamentária até 27 de novembro.
Fonte: Levantamento feito pelo gabinete da vereadora Teresa Bergher, com base em dados do Fincon
Por trás desses números, há muito sofrimento. A dona de casa Ana Anita de Medeiros, de 76 anos, que descobriu recentemente ter um tumor em um dos rins, foi aconselhada a procurar atendimento ambulatorial na Coordenação de Emergência Regional (CER) do Centro, mas não passou da recepção. Decepcionada, a filha de Ana Anita, Geusa Dantas, disse que recomendaram que ela buscasse um posto de saúde.
— Disseram que só estão atendendo os casos graves. Ainda bem que minha mãe foi medicada e não está com dores. É um absurdo uma pessoa da idade dela passar por esse constrangimento — reclamou Geusa.
Sem oftalmologista
Mas o pedreiro Michel Vicente Santos da Silva, de 30 anos, sentia muita dor quando chegou ontem de manhã à CER e, ainda assim, ficou sem atendimento. Com uma farpa de metal no olho direito, ele sequer passou pela triagem. Disseram apenas que não havia oftalmologista.
Com um caroço no pescoço, Juliana Leite Rangel, de 21 anos, também ficou sem atendimento na CER. Moradora de Belford Roxo, na Baixada, ela não conseguiu ser vista por um médico em postos e hospitais da região.
— Já não sei mais o que fazer. Aqui, na CER do Centro, disseram que só estão atendendo quem chega morrendo. Mandaram que eu fosse para a UPA da Tijuca — disse a mãe da jovem, Dayse Luci Leite Rangel.
A situação não era muito diferente em outro ponto da cidade, na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do Engenho de Dentro, administrada pela prefeitura. Lá, o movimento era bem pequeno ontem, mas, mesmo assim, poucas pessoas conseguiram atendimento. Com vômitos, febre e dor na barriga, Théo, de 3 anos, foi levado pelo pai, o autônomo Jefferson de Oliveira Feitosa, ao posto.
— Não sei o que ele tem e pode ser grave. Disseram que o atendimento é restrito e me mandaram ir para a UPA do Engenho Novo. Um absurdo ter que ficar andando com essa criança passando mal — disse Jefferson.
Procurados pelo GLOBO, a Secretaria municipal de Saúde e o gabinete do prefeito não se manifestaram. Ao RJ-TV, da TV Globo, a secretária Ana Beatriz Busch disse que a situação da saúde é de responsabilidade da administração anterior:
— Desde 2017, havia um déficit na saúde de R$ 1 bilhão, herdado do governo anterior. Eram R$ 266 milhões em empenhos cancelados, 46 clínicas inauguradas no ano das eleições, em 2016, 288 equipes contratadas no último trimestre, fora as equipes de saúde bucal. Essa dívida vem sendo amortizada ao longo desses anos, mas é a causa direta de atrasos.
Daniel Soranz, que foi secretário de Saúde na gestão do ex-prefeito Eduardo Paes, rebateu as críticas:
— Governar é fazer opções. O prefeito Eduardo Paes aplicava 50% da arredação em saúde e educação. Não é falta de recurso, mas decisão política. Não deixamos dívidas na área da saúde. Funcionários e fornecedores eram pagos em dia. Deixamos em caixa os R$ 32 milhões para que a prefeitura quitasse em janeiro (2017) as dívidas com fornecedores.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior