Em um momento em que o mundo discute a relação entre imigrantes e os países que os recebem, vem da Zona Sul do Rio um exemplo de que a acolhida de quem precisou deixar tudo para trás pode transformar positivamente a vida de quem chega e de quem os recebe. São sobreviventes poloneses, que, vindos para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, guardam na memória as histórias de dor e superação que trouxeram à Cidade Maravilhosa. Reunidos na Associação dos Ex-Combatentes Poloneses no Rio de Janeiro, se encontram anualmente em novembro no Monumento aos Pracinhas para comemorar o Dia do Soldado Polonês, homenagear amigos que já morreram e cultivar as memórias que os transformaram em brasileiros. Dos 350 refugiados que fundaram a associação, apenas nove estão vivos. Um grupo que se encarrega de propagar seu legado não só nas histórias que mantém vivas, mas também no convívio com os filhos, netos e amigos que ganharam por aqui.
Tempos de paz
De guerreiro a aposentado
Fé e bondade para seguir em frente
Um novo começo
Tempos de paz
Ignacy Felczak, com sua pistola na floresta de Kampinos – Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
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Aos 87 anos, o engenheiro naval Ignacy Felczack é o presidente da associação e, desde 1987, organiza os eventos no Parque do Flamengo que homenageiam os veteranos de guerra, soldados falecidos e pessoas que tenham prestado serviços à associação e aos ex-combatentes, sempre com a presença do embaixador polonês Andrzej Braiter. Além de entregar medalhas e homenagear outras pessoas, o próprio Felczack já recebeu ele mesmo algumas honrarias brasileiras, polonesas e francesas. Só no terno são 22 medalhas, mais as dez que não cabem no uniforme de veterano de guerra. A mais especial, segundo o engenheiro, é o Mérito Naval do Brasil, grau de oficial.
— Ela é ligada à minha profissão e aos meus pensamentos — orgulha-se.
Nascido numa família militar, Felczack foi integrante da Armia Krajowa (AK), o exército de resistência polonês criado depois da invasão alemã, em 1939, sob comando do governo polonês no exílio, na Inglaterra. O grupo clandestino era formado por militares que não foram capturados e permaneceram no país, e recebeu reforços de homens, mulheres e até crianças civis. O grupo foi responsável pelo Levante de Varsóvia, entre 1º de agosto e 5 de setembro de 1944, que levou à destruição da cidade e à morte de 168 mil pessoas entre soldados e civis. Felczack fazia parte da 8º divisão, do 13º regimento na floresta de Kampinos, perto de Varsóvia.
— Fui escoteiro desde pequeno, antes da guerra. Era uma forma de já recebermos treinamento como cavar trincheiras, e de buscar proteção contra gases venenosos… Eu andava sozinho pela floresta com foguetes de diferentes cores para dar sinal caso houvesse alemães na floresta e uma pistolinha para me defender — lembra.
Já sua mulher, Alina Felczack, de 82 anos, poderia ter sido mais uma vítima do banho de sangue no qual se transformou o levante. Ela é uma das sobreviventes da execução em Zoliborz, um bairro de Varsóvia. Aos 11 anos, foi levada de casa pelos nazistas, junto com um grupo de pessoas, para um palácio na periferia da cidade, e foi atingida, juntamente com homens, mulheres e outras crianças, por balas de um tanque do Exército alemão.
IGNACY E ALINA FELCZA
Alina e Ignacy Felczack vivem alegres no RioFoto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
Ignacy Felczack e a esposa, Alina sobreviveram a guera e tiveram uma filha e três netosFoto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo
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— De repente, nós escutamos um apito, o tanque começou a virar para o nosso lado e começaram a atirar. Caíram pessoas e pedaços de parede do palacete. Alguém gritou para nos deitarmos e uma amiga da minha mãe me empurrou para trás de uma mala. Um homem levou um tiro na cabeça e caiu deitado em cima das minhas pernas, já morto — lembra Alina, com um sotaque polonês. — Quando pararam de atirar, eu vi um soldado alemão na frente do tanque com uma metralhadora pesada e uma comprida fita de balas, nunca me esqueço disso. Ele começou a atirar e eu senti uma pancada quente nas costas. As minha pernas ficaram dormentes por causa do corpo sobre elas e eu as puxei para me livrar do peso. Perto de mim, vi um outro soldado com uma arma na mão mirando a minha cabeça. Ele acertou, cortou um pedaço da minha orelhinha, que sempre escondo. Eu tinha muito cabelo e acho que isso me ajudou porque a bala pegou de raspão.
Alina ficou horas entre os mortos, enquanto os alemães ainda estavam dentro do prédio. Ela se lembra de ter sentido algo estranho nas costas e ter passado a mão, que ficou toda ensaguentada. A outra amiga de sua mãe mandou que ela ficasse quieta, não se mexesse e se fingisse de morta.
— Uma outra bala entrou nas minhas costas e cortou metade do osso da coluna, faltando muito pouco, meio milímetro, para atingir a medula e me impedir de andar. A metade cortada está até hoje alojada dentro na minha coluna. Morreram mais de 130 pessoas naquele dia, entre elas muitas crianças. Os soldados alemães colocaram todos os corpos dentro do palácio e atearam fogo. Além de mim, salvaram-se minha amiga de 6 anos, a mãe dela e outras duas pessoas — conta.
O casal Felczack se conheceu na Polônia comunista, já depois da guerra. E foi durante um estágio num estaleiro polonês, que fazia navios para o Brasil, que surgiu a oportunidade de a família se mudar para cá. Primeiro veio Felczack, a trabalho, em março de 1960, e oito meses depois vieram Alina e Beata, a única filha do casal. Hoje eles têm três netos e visitam a Polônia periodicamente, mas fizeram do Rio de Janeiro o seu lar.
De guerreiro a aposentado
Gluchowski começou para escrever para o “Polish Daily”, de Londres e para o “Polish New Daily”, de Nova York, tornando-se correspondente internacional – Bárbara Lopes / Agência O Globo
Amigo do casal, Krzysztof Gluchowski também participou da Armia Krajowa. Ele conta que, quando a Guerra começou, seu pai era diretor do escritório do presidente da República. Durante o Levante de Varsóvia, ele entrou para o 7º regimento, designado para estar com o comando supremo da AK e as autoridades civis num conglomerado de fábricas tomado pelos combatentes. E depois da derrota dos poloneses, foi levado como prisioneiro de guerra para a Alemanha, de onde só foi liberado em abril de 1945 pelos americanos:
— Eles nos levaram em luxuosos vagões de gado. Pulei de campo em campo até chegar em Mönchengladbach para trabalhar e reconstruir ruínas.
Com o fim da guerra, Gluchowski buscou refúgio na Inglaterra, onde trabalhou numa empresa de engenharia. Durante uma viagem a trabalho, em Madri, ele conheceu uma brasileira, com quem está casado há 45 anos. Em 1988, veio morar no Rio de Janeiro, onde se aposentou.
Fé e bondade para seguir em frente
Tomasz Lychowski tem oito livros publicados e também é pintor – Bárbara Lopes / Agência O Globo
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Migrar para um lugar novo certamente não é tarefa fácil, mas quando o destino é o Rio de Janeiro, a adaptação acaba sendo mais amigável. Thomasz Lychowski passou por várias experiências de quase morte, mas o destino quis que ele sobrevivesse e se tornasse escritor, poeta, pintor e professor de inglês na cidade. Pai de quatro filhos, Lychowski tem oito livros publicados e faz pinturas multicoloridas.
— A vida de um imigrante é a vida de um sobrevivente. Como fomos bem recebidos, me encantei. É importante quando esse “transplante” de nacionalidade dá certo e é muito enriquecedor ser uma ponte entre duas culturas — filosofa.
Filho de pai polonês e mãe alemã, Lychowski nasceu em Angola, em 1934. Sua família conseguiu uma plantação de café no país e saiu da Europa para investir no ramo.
Com apenas alguns meses de vida, ele pegou uma infecção e precisou de uma transfusão de sangue para sobreviver. Como na fazenda onde eles moravam não existia essa possibilidade, a solução foi tentar uma transfusão direta com seu próprio pai, sem testes. Deu certo.
— Foi feito nas mais precárias condições médicas possíveis. Mas foi a primeira vez que consegui sobreviver — relembra, emocionado.
Como o pai de Lychowski não teve sucesso com a plantação de café, a família retornou à Polônia em 1938. Veterano de guerra, o patriarca da família foi oficial da artilharia na defesa de Varsóvia, em 1939. Depois da rendição, entrou para a Armia Krajowa.
Em 1939, Lychowski escapou da morte mais uma vez. Durante os bombardeios, ele e sua mãe corriam para um abrigo perto de casa. Porém, numa noite, a rua já estava em chamas e eles não conseguiram chegar até a instalação. A solução foi voltar para casa.
— No dia seguinte, descobrimos que a bomba caiu no abrigo e matou todos — diz.
Por causa das atividades de seu pai , a família foi capturada em 1942 e enviada para a prisão de Pawiak, no Gueto de Varsóvia. Nove meses depois, seu pai foi mandado para Auschwitz e, depois, para Buchenwald, na Alemanha.
Durante a temporada na prisão, Lychowski sobreviveu ao frio e à fome. Aos 8 anos, a única criança da cela, ele ganhou de Natal de suas companheiras um cartão e um coelhinho de pano que ele guarda até hoje. O cartão foi doado para o museu da prisão.
Em 1944, antes do Levante de Varsóvia, os alemães mandaram a mãe de Lychowski voltar para a Alemanha. Dois anos depois, em 1946, a família se reuniu novamente. O pai de Lychowski sobreviveu à temporada nos campos de concentração e conseguiu reencontrar a família em meio à Europa destruída.
AS MEMÓRIAS DA PRISÃO DE PAWIAK
Cartão recebido no Natal de 1942, na prisão de PawiakFoto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
Coelhinho de Natal que Lychowski ganhou aos oito anosFoto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
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— Eu vi meu pai pela última vez em 1942 e depois só o revi em 1946. Fiquei dos 8 aos 12 sem sua presença e três anos depois ele morreu, aqui no Rio. Tive meu pai por muito pouco tempo — lamenta.
Na vinda para o Brasil, em janeiro de 1949, a família embarcou num navio inglês muito velho. Ele conta que eram 800 imigrantes, entre jovens, velhos, crianças. E que, no meio da viagem, entrou água no navio:
— Fomos nos arrastando até o porto de Vitória. Depois lemos em um jornal, já aqui no Brasil, que ele acabou afundando.
Apesar da boa adaptação, a chegada ao Rio não foi muito suave. O pai de Lychowski foi preso logo no desembarque, acusado de ser comunista.
— O comandante quis se vingar porque meu pai denunciou à imprensa as condições precárias da viagem. Por isso, ele mandou um telegrama falando que tinha um comunista agitador que falava português. Meu pai, que passou por Auschwitz, foi preso como comunista assim que chegou ao Rio — conta.
Morador de Copacabana, Lychowski se tornou professor de inglês porque se encantou pela ajuda que as tropas de ocupação inglesas deram a sua família:
— O que me ajudou e continua ajudando é a prova de que no meio do caos e da destruição existe a bondade. É importante acreditar na bondade do ser humano. Não perdendo a fé no ser humano, você não perde a fé na vida.
Um novo começo
Liliana escapou da Sibéria e refez sua vida no Rio – Luiz Ackermann / Agência O Globo
Liliana Syrkis chegou ao Rio de Janeiro em 1947, depois do pogrom de Kielce, um massacre de judeus sobreviventes que voltaram à cidade polonesa para retomar seus bens, já durante o regime comunista.
— Depois de cinco, seis anos, a pessoa se sente dona. Quando os judeus voltaram, os ocupantes usaram a calúnia para lutar. Acho que mataram 20 judeus — relembra.
Ela lembra que ainda tinha esperanças de ficar na Polônia e estudar numa Varsóvia em ruínas, mas diz que o ataque foi a gota d’água. Como ela já tinha família e conhecidos no Rio, a cidade acabou sendo o destino escolhido:
— Tivemos que ficar um ano na Suécia esperando, pois o Brasil não permitia a entrada de judeus. Só depois que um padre deu atestado de que éramos católicos, pudemos vir.
Liliana nasceu em outubro de 1923, na cidade de Pinsk, no leste da Polônia. A região, que hoje pertence à Bielorrússia, foi invadida pelos russos no começo da guerra. Por terem um oficial do Exército polonês na família, Liliana, sua mãe e a irmã mais nova foram deportadas para a Sibéria em 13 de abril de 1940. O pai dela foi um dos oito mil soldados poloneses mortos na floresta de Katyn, pelo Exército soviético.
— A deportação, no entanto, acabou salvando nossas vidas. Apenas 17 judeus sobreviveram em Pinsk depois da invasão alemã. Dos cerca de 60 parentes que ficaram por lá, ninguém se salvou — conta.
Liliana passou muita fome e frio nos anos na Sibéria, além de ter trabalhado muito. Sua primeira tarefa era cortar estrume de vaca em forma de tijolos e colocá-los para secar ao sol até que pudessem ser usados como combustível:
— Colhi sozinha uma tonelada de batatas durante o verão. Nós cozinhávamos as batatas e só comíamos isso.
Mãe do ex-deputado federal Alfredo Sirkis, Liliana chegou ao Rio e começou a trabalhar como costureira na Maison Colette. Apesar de não ter escolhido a profissão, tornou-se uma especialista em alta-costura, atendendo nomes como Sarah Kubitschek e Lily Marinho.
— Comecei a trabalhar como ajudante de costureira e usava minha habilidade em matemática para calcular o corte dos tecidos — diz.
Eugenio Syrkis, marido de liliana morto em 2004, na ponta esquerda, e Gluchowski e Felczack, na outra ponta – Luiz Ackermann / Agência O Globo
Depois de aposentada, Liliana se dedicou a escrever suas memórias e, em 2011, lançou o livro “Lila”, contando sua trajetória até a chegada ao Rio.
— Meus netos não imaginam o que passamos, têm exigências bobas. Queria que eles aprendessem — reflete sobre sua principal motivação para escrever o livro.
Segundo Aleksandra Pluta, jornalista que pesquisa a imigração de poloneses para o Chile e o Brasil desde 2008, a migração não é vista como um problema para quem sobreviveu às atrocidades do período da Segunda Guerra.
— A chegada num continente sem guerra e sem crueldade era uma situação libertadora. Acostumar-se com arroz e feijão não é um desafio frente à fome — conta.
Fonte: O GLobo
Foto: Varsóvia pintada por Thomasz Lychowski Foto: Acervo pessoal/Thomas Lychowski
Postado por: Raul Motta Junior