Pianista nascido em Madureira recebe instrumento da família do ator Francisco Milani

ssim que seu primeiro piano ganhou um lugar na sala de casa, Jonathan Ferr não esperou nem para afiná-lo: tocou uma composição sua, chamada “Felicidade”. Era a canção que traduzia o sentimento de estar diante de um presente sempre desejado. Aos 30 anos, o pianista criado no Morro da Congonha, em Madureira, já havia levado sua música até para uma turnê na Europa. Mas, como mostrou O GLOBO no último dia 30 de julho, nunca teve seu próprio instrumento. Ao ler a reportagem, a família do ator e dublador Francisco Milani, morto em 2005, decidiu tirar do silêncio teclas e cordas que, por muito tempo, emitiram notas através das mãos do artista. E que, agora, vibram ao som do jazz feito por Ferr.

Ferr conta que a ideia de presenteá-lo foi da neta de Milani, a cantora e atriz Mariana Milani. Ela já conhecia o músico e, inclusive, tinha feito uma participação no disco que ele lançará em breve. Mas não podia imaginar que Ferr não tivesse um piano. Com a iniciativa aprovada pelo pai e pela avó de Mariana, ele precisaria arcar apenas com o transporte do instrumento. De novo, apareceu uma ajuda, também estimulada pela reportagem. Ele telefonou para a Casa Pierre Pianos, estabelecimento de Botafogo especializado nesse tipo de serviço, com planos de pedir um desconto. Ouviu, do outro lado da linha, a oferta para que tudo fosse feito de graça.

— No dia da entrega, desmarquei compromissos, reservei um lugar para o piano na sala, estava com medo de que ele não passasse no elevador… Fiquei aguardando com a ansiedade de quem espera um primeiro encontro com a futura namorada. Será que vai gostar de mim? Vai dar tudo certo? — perguntava-se Ferr nos instantes que antecederam a chegada do instrumento. — Quando tiramos o plástico que o cobria, eu disse “uau”! Tem uma energia, uma força… É um mundo gigantesco para caminhar, descobrir, explorar… Ter um piano em casa me ajuda a me dedicar ainda mais tecnicamente e a estudar para ser cada vez melhor.

Uma obstinação que surgiu quando Ferr ainda era criança. Foi perto dos 8 anos, quando saía de um culto numa igreja no morro da Serrinha, que ele escolheu, meio ao acaso, num camelô na rua, um vinil do pianista e pastor americano Jimmy Swarggart. Ouvia o disco tantas vezes que a família, ao notar o interesse do garoto pela música, resolveu incentivá-lo. E deu a ele um tecladinho infantil, que o menino tratou de carregar para um curso numa ONG da Congonha.

Para pagar as aulas, Ferr chegou até a vender garrafas de cloro na favela. A vaga na banda da igreja foi o próximo passo. E, dali, seguiu para a Escola de Música Villa-Lobos e para a faculdade na Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio) até iniciar as experimentações com jazz, depois de ouvir clássicos como John Coltrane e Thelonious Monk. De palco em palco, foi dos shows na noite carioca a apresentações em países como Portugal e Espanha. O teatro também deu-lhe as boas-vindas, com a estreia da pela “Josephine Baker — A Vênus negra”, em que toca e atua. Tudo ainda sem ter um piano.

— O que ganhei foi produzido especialmente para o jazz. É um pouco mais baixo, para que os músicos possam se olhar durante as apresentações, sempre cheias de improvisos. Agora, ele está aqui em casa, bonitão. E tem uma história linda. O Milani costumava tocá-lo para reunir a família. Era algo que ele gostava muito de fazer. Mas, desde sua morte, o instrumento estava parado — conta o jovem pianista, lembrando personagens memoráveis do ator, como o Seu Saraiva, do programa de humor “Zorra Total”, da TV Globo.

Morando agora num apartamento na Lapa, Ferr ainda teve outra boa notícia, que chegou junto com o piano. No último fim de semana, ele ganhou o Troféu Aleksander Henryk Laks, da Hebraica Rio, premiação destinada a dez pessoas que se destacaram em 2017. Os motivos para comemorar os bons ventos são muitos. Não é à toa que, antes de tocar “Felicidade” no instrumento que ganhou, Ferr só fez uma única coisa: agradeceu.

— Reverenciei meus ancestrais e meus mentores espirituais. Agradeci a todo mundo que me fez chegar até aqui. Sentei no piano agradecendo a presença dele. Gratidão é o que resume este momento. E quanto mais grato, mais feliz eu sou.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior