Patrimônio Cultural do Rio, mate tem sua história contada em livro

Aos sábados e domingos, é provável esbarrar com um senhorzinho simpático, de chapéu e óculos garrafais, vendendo mate pelas areias do Leblon , na Zona Sul do Rio. José de Oliveira Dias, conhecido como Seu Zé, vende mate nas praias da Zona Sul desde 1983. Foi de copo em copo, conquistando os banhistas com seu carisma, que Zé criou seus dez filhos.

— Eu mesmo não paro mais. A minha vida é o mate — conta Seu Zé, orgulhoso.

Agora, aos 72 anos, trabalha somente aos fins de semana na orla. E, nos outros dias, costura uniformes para os mateiros, daqueles laranjas que os vendedores usam nas praias. A história de como o mate — que ganhou status de Patrimônio Cultural e Imaterial da cidade do Rio de Janeiro em 2012 —, chegou às areias cariocas, será contada no livro “O mate e a cultura do Rio”, que será lançado na próxima quarta-feira.

De acordo com Seu Zé, a ideia de adicionar limonada ao tradicional mate de galão foi dele, que trabalhava em um depósito de erva-mate em Copacabana nos anos 1970. Morador de Honório Gurgel, ele é reverenciado por vendedores da nova geração.

— Nosso bairro é conhecido pelos mateiros. Num dia de chuva, se você vir vários vendedores indo embora juntos, com certeza é para Honório Gurgel. O primeiro vendedor, Seu Zé, é de lá — conta Délcio Ribeiro, de 48 anos e mateiro desde 2004.

Para Alcir Nascimento, vendedor há 27 anos, o gosto pela profissão vem do contato com o público.

— Os clientes têm carinho por nós. Já fiz gente que tinha nojo do mate de praia virar cliente. É saber chegar nas pessoas —diz.

Apesar da satisfação dos mateiros, a profissão é árdua: eles carregam de 20 a 30 quilos por dia. Alguns ficam fora de casa por mais de 12 horas, andando o dia inteiro em busca de clientes sedentos.

Há registros do cultivo da erva-mate no Sul do país pelos índios guaranis desde o século XVI. Na época da Grande Crise, em 1929, a extração mateira representava 85% da economia do Paraná. Lá, ele costuma ser bebido quente, como chimarrão ou tereré.

Em 1920, foi criado o primeiro chá-mate brasileiro, pela empresa Real.

“O novo tipo de consumo, com a erva-mate tostada, buscava imitar o aspecto escuro do famoso chá-preto inglês, produzido na Índia e no Ceilão”, conta o livro, produzido pela Lamparina Comunicação e Responsabilidade Social.

Esse chá-mate gelado que virou um ícone carioca. O casamento entre mate e biscoito Globo aconteceu no Maracanã, por volta de 1950. Somente na década seguinte a dupla infalível conquistou os banhistas.

Em 2009, tentaram proibir a venda dos mates em galões na praia, por questões de higiene. Mas os cariocas não deixaram barato, e, depois de diversos protestos, a profissão foi regulamentada pelo então prefeito Eduardo Paes.

O mate da praia se popularizou tanto que os vendedores agora também trabalham em eventos como festas de aniversário, casamentos e shows.

Vida saudável
A busca por um estilo de vida saudável tem criado novas demandas no mercado do mate. A produtora cultural Manoela Pádua prefere o mate do vendedor Robson, que circula pelo Leme e é feito sem açúcar.

—Agora os vendedores do Leme estão inovando, alguns vendem mate sem açúcar ou até com maracujá como opção, no lugar da limonada. Prefiro assim, é mais natural — diz Manoela.

O livro “O mate e a cultura do Rio” mostra o aumento de produções orgânicas de mate, feitas por pequenos produtores. Essas plantações exigem uma forma específica de cultivo, alternadas com outras espécies locais. A Megamatte é uma das empresas que já adotam mate 100% orgânico em suas franquias.

— Além de bom e refrescante, o mate é diurético. Não tem todas as “tranqueiras” que o refrigerante tem — avalia o mateiro Alcir Nascimento.

Os benefícios da erva-mate para a saúde também são explorados no livro. Entre eles, o estímulo da cafeína, mas sem os efeitos colaterais atribuídos ao café.

ZS- Lançamento
ZS- Lançamento “O Mate e a Cultura do Rio”- 100 anos de chá mate. Sabrina Petry e Isabela Esteves, fundadoras da Lamparina Comunicação e Responsabilidade Social. Lamparina Comunicação/Mariana Gazzola Foto: Mariana Gazzola / Divulgação

A obra é assinada por Sabrina Petry e Isabela Esteves, duas jornalistas (e melhores amigas) que há sete anos resolveram empreender juntas, unindo comunicação ao socioambientalismo. O lançamento será quarta-feira, às 18h, na Livraria da Travessa do BarraShopping.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto Marcos Ramos / Agencia O Globo. Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo