O Rio de João Gilberto: os cantos que contam histórias do artista na cidade

O restaurante Mariu´s, no Leme, onde João Gilberto jantou, última terça-feira , está recebendo um novo tipo de cliente, depois da morte do músico, no sábado. A mesa 69, onde o gênio comeu frutos do mar, na companhia de Maria do Céu Harris e do advogado Gustavo Carvalho Miranda, virou um ponto de peregrinação. Fãs têm entrado no estabelecimento e ignorado as iguarias servidas na casa: querem mesmo é tirar uma selfie diante do local onde João Gilberto passou uma de suas últimas noites . Tem até quem fique na fila para poder sentar na agora disputada mesa 69.

– No domingo, um cliente esperou a mesa 69 vagar só para poder comer e tirar foto no mesmo lugar do João Gilberto – relata Otoniel Monteiro, funcionário do Mariu’s.

De uma ponta a outra do Rio, não faltam lugares que serviram de cenário para histórias na qual João foi protagonista. Uma das poucas jornalistas com contato com o artista, a repórter Sofia Cerqueira guarda boas lembranças das conversas por telefone com o cantor:

– Na década de 1990, ele me contava que ia dirigindo de carro pela Zona Sul até Grumari. Ele gostava de passar pelos túneis, de cruzar a cidade – conta ela.

O vizinho “invisível”
Com fama de recluso, João Gilberto foi recebido no restaurante com festa. Foi uma das raras ocasiões em que o músico apareceu em público nos últimos anos. Como ele mal saía de casa, poucos vizinhos, na Rua Carlos Góis, no Leblon, sabiam que o músico morava no apartamento 802 do prédio 234. Menos pessoas ainda tiveram a chance de vê-lo, ao vivo e a cores.

– Em quatro anos aqui, nunca o vi nem conheci quem o conhecesse – conta Queila Costa, recepcionista de uma barbearia colada ao edifício Jardim Leblon, onde o artista vivia.

Apenas quem trabalha na área há mais tempo relata ter presenciado aparições do cantor, como os funcionários mais antigos de um apart-hotel da rua Almirante Guilhem, onde o artista morou até o começo da década de 1990. Eles se lembram de uma pessoa reservada, que vez por outra ia a uma padaria na esquina oposta, onde hoje existe uma cafeteria.

O guardador de carros Mário Nogueira presenciou duas aparições do músico: uma em 2005 e outra em 2006, sempre de dia e com João embarcando em um carro logo em seguida.

– Antigamente, ficava cheio de repórter aqui na porta na época do aniversário dele. Mas não adiantava nada, porque ele nunca saía de casa – comenta o flanelinha.

Por coincidência, Nogueira também é músico e compôs os sambas-enredo de 1989 e 1994 da G.R.E.S. Estácio de Sá:

– O cara que cria um estilo é um gênio. Ele fez uma coisa simples, que encaixou – opina o guardador de carros.

O restaurante predileto
Apesar de passar agora a ser lembrado como o último restaurante que João Gilberto visitou, a Mariu’s não era o local preferido do artista. João Gilberto tinha o Degrau, no Leblon, como seu fornecedor oficial dos almoços e jantares de João há cerca de 40 anos. Todos os dias, ele ligava para o local e pedia suas refeições à mesma pessoa: Sebastião Alves, seu garçom favorito no estabelecimento.

A confiança era tanta que Tiãozinho, como o cantor costumava chamar, atendia o artista até nos dias de folga, anotando seus pedidos e repassando por telefone à cozinha da casa, que depois fazia a entrega na casa do músico.

– Na véspera da morte, ele pediu salmão no almoço e filé com arroz e feijão no jantar. Cheguei a falar com ele uma hora antes de morrer. Era uma pessoa muito bacana e carinhosa. Quando eu deixava a comida, ele fazia questão de esperar a porta do elevador fechar para fechar a porta de casa – relembra Alves..

Como qualquer um, o gênio também tinha suas extravagâncias. Até pouco tempo atrás, costumava pedir até três garrafas por dia de Pêra Manca, um vinho português cuja garrafa custa R$ 398 no Degrau. De acordo com Alves, os problemas de saúde nos últimos cinco anos fizeram com que o artista largasse o hábito. Apesar de cliente fiel do restaurante, funcionários relatam que João só esteve presencialmente no Degrau uma vez nos últimos 20 anos.

– Cheguei a fazer entregas na casa dele, mas nunca o vi de corpo inteiro – afirma Roberto de Assis, ex-entregador e atual porteiro do restaurante.

Quando perguntado se apreciava as músicas de João, Assis dá uma resposta taxativa:

– Só o ouvi na propaganda do Brahma Chopp – numa alusão a um comercial veiculado há quase 30 anos.

O berço da Bossa
De todos os locais frequentados por João, um dos mais especiais teve um dos destinos mais interessantes. Localizado no número 277 da Avenida Rio Branco, o edifício São Borja abrigava no quarto andar os estúdios da gravadora Odeon em 1958. Foi ali que o músico gravou “Chega de Saudade”, marco inaugural da Bossa Nova e obra-prima do artista.

Sessenta anos depois, o pavimento tem apenas uma de suas duas salas ocupadas por um sindicato de empresas de perícia. A entidade deve trocar o escritório por um espaço no sétimo andar do mesmo prédio dentro de um mês.

– Não sabia que esse lugar tinha essa história. Ele não era meu cantor favorito, mas tinha uma voz bonita – diz Cristina Fernandes Moço, contadora que trabalha no local.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Leo Aversa / Agência O Globo