Se o Halloween, celebrado amanhã, dia 31 de outubro, é uma data festiva típica dos Estados Unidos, no Rio não faltarão motivos para festejar — ou se assustar por aí. No Dia das Bruxas carioca, é preciso tomar cuidado, pois à espreita, numa esquina ou num beco, uma alma penada pode estar esperando contato. É o que garantem profissionais que exploram aqui o chamado turismo do terror, que tem pontos de visitação em vários bairros e hoje conta com dois roteiros gratuitos guiados.
— Essa modalidade de turismo é praticada no Rio pelo menos desde a década de 1990, quando o professor de História Milton Teixeira criou o Tour dos Fantasmas. Adepto da doutrina de Kardec, o guia espírita fazia um percurso que incluía a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Histórico Nacional e o Arco do Teles.
— Depois iniciei o Tour dos Cemitérios, que começou no São João Batista, em Botafogo, e agora acontece no Cemitério da Penitência, no Caju. Ao longo desses anos, presenciei alguns episódios insólitos — afirma Teixeira.
Segundo o guia, um médium — pessoa acessível à influência dos espíritos, uma espécie de ponte entre o mundo dos mortos e dos vivos — contou-lhe que as almas do São João Batista apreciavam o trabalho dele por continuar seu legado biográfico. Mas o mesmo não pode ser dito do Cemitério da Penitência, onde fará visita guiada gratuita amanhã, a partir das 19h. (Veja outro roteiro de graça no final do texto.)
— Estava com um grupo, e paramos perto de um túmulo de mármore de carrara bonito, que apresentei como sendo do português Manuel de Souza. Nisso, uma moça me perguntou como eu sabia a nacionalidade do defunto. Fiz uma imitação de português descontraída e, em seguida, um vaso da sepultura virou violentamente na minha direção como se tivesse sido empurrado e me cobriu de lama. Mantive a calma e continuei como se nada tivesse acontecido — relatou Teixeira.
A tranquilidade também é a postura indicada pelo guia da Biblioteca Nacional Dário de Oliveira, que já vivenciou algumas situações sombrias no local. Funcionário da casa desde 1997, Oliveira lembra que personalidades ilustres, como o escritor Ruy Barbosa e os poetas Waly Salomão e Ferreira Gullar, foram velados no saguão, que guarda enterrado um baú com a lista em couro dos presentes no lançamento da pedra fundamental do edifício, em 1905.
— A biblioteca tem uma relação muito íntima com a morte. Nos primeiros dias aqui, estranhei muito porque, enquanto andava no corredor, escutava chamarem meu nome em qualquer horário do dia. Livros que caíam da estante quando não tinha ninguém, e sentia apoiarem a mão no meu ombro. Eu aprendi desde criança a não demonstrar medo nesse tipo de relação com o sobrenatural. Quando sinto a presença, digo “bom dia” e “bem-vindo” — conta.
Talismã para proteção
A guia Juliana Fiuza, que gosta de chamar as visitações de turismo gótico ou macabro, também realiza uma visitação gratuita amanhã, às 18h, saindo do Arco do Teles. O trajeto para na Praça João Cândido, no Paço Imperial, na Alerj e termina na Cinelândia. Juliana diz que, por vezes, precisa interromper o passeio, pois a atmosfera pesa e inesperadamente objetos caem. Algumas pessoas têm sensações diferentes e passam mal. Principalmente quando a parada é o Arco do Teles, local em que no passado ocorreram incêndios e que foi moradia de Bárbara dos Prazeres, uma mulher que, na época, acreditava-se ser uma bruxa que matava crianças e se banhava com o sangue delas em busca da vida eterna. Segundo Juliana, a lenda diz que ela era prostituta e que espalhava boatos a respeito de seus clientes e, por isso, era espancada.
— Por isso, carrego no bolso uma medalha protetiva de São Bento. Apesar de serem histórias de terror, as pessoas se divertem bastante. É tragicamente cômico. As crianças ficam apavoradas com essa história, e as mulheres gostam de ver uma mulher com tamanha força — diz Juliana.
Atrações do além
Castelinho do Flamengo:
O edifício tombado fica na esquina da Rua Dois de Dezembro com a Praia do Flamengo. O casal de moradores do castelinho teria sido atropelado pelo bondinho na porta de casa, em 1932, deixando uma filha orfã. Aos cuidados do tutor, a menina passou a ser maltratada e se jogou da torre.
A maldição do castelinho do Castelinho do Flamengo teria começado em 1932 Foto: Márcia Foletto / Agência O GLOBO
A maldição do castelinho do Castelinho do Flamengo teria começado em 1932 Foto: Márcia Foletto / Agência O GLOBO
Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro:
Ali na Rua Santa Luzia, no Centro, foram instaladas as primeiras alas de psiquiatria, e os tratamentos do seculo XIV para pessoas com problemas mentais eram quase desumanos. Em ao local ficava a praia, que era uma espécie de cemitério de indigentes.
Teatro Municipal:
Uma funcionária do teatro foi até o local para assistir uma apresentação de balé relata ter visto uma figura bem magra, com palito nos lábios, um bigodinho claro, usando oculos de metal. A criatura foi, segundo Milton Teixeira, identificada como o poeta Olavo Bilac.
Alerj:
Em frente à Alerj funcionou a prisão da corte portuguesa. Tiradentes ficou em cárcere no local antes de ser esquartejado. Vigias do local relataram terem visto uma aparição que seria o inconfidente.
Museu Histórico Nacional:
Inaugurado em 1922, na Praça Marechal Âncora, o museu teve como seu primeiro diretor o advogado e jornalista Gustavo Barroso, que voltou do mundo dos mortos para consultar um livro na biblioteca do museu. Contudo, não conseguiu encontrá-lo, pois houve uma rearrumação das prateleiras. Na ocasião, ele disse que se lembrava apenas da posição antiga.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior