Músicos da Rocinha, Maré, Alemão e outras comunidades ganharam ingressos para o Rock In Rio

Sexta-feira passada, às 14h, quando foram abertos os portões da oitava edição do Rock in Rio , entre as centenas de pessoas que correram para dentro da Cidade do Rock estava um grupo de jovens que até pouco tempo nem pensava em realizar o sonho de ir ao festival. Emocionados com tudo o que os cercava, ficaram particularmente eufóricos ao ouvir, dali, o refrão do hino do evento: “Ôooo/Ôooo/Ôoo Rock in Rio” .

— Só acreditei que estava aqui quando passei pelos portões. Até então achava que seríamos barrados — contava Carlos Ferreira dos Santos, de 21 anos, integrante do Canto e Coral da Rocinha e morador da comunidade.

Ao todo, 140 jovens músicos do Canto e Coral da Rocinha ; da Orquestra de Câmara da Rocinha ; da Orquestra Maré do Amanhã , do Complexo da Maré ; e da Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro , que atua nas comunidades Babilônia , Chapéu Mangueira , Cantagalo , Pavão-Pavãozinho , Complexo do Alemão e Morro dos Macacos , ganharam convites das redes Pão de Açúcar e Extra para viver a experiência do Rock in Rio. O resultado será transformado num minidocumentário.

— Quando fiquei sabendo que viria, passei uma semana tremendo. Imagina: estar aqui e ainda poder dividir o momento com os meus amigos! — disse Will Barros de Oliveira, 22 anos, que toca na orquestra da Rocinha, à equipe do GLOBO-Barra que acompanhou parte do grupo selecionado para ir ao primeiro dia do evento.

Assim que chegaram, os jovens da Rocinha correram para o Espaço Favela. Se para alguns o lugar tem toques de mau gosto ou representa uma glamourização das comunidades, por eles a área foi mais do que aprovada.

— Esse espaço identifica quem a gente é, mostra que favela é cultura e que temos vozes e representatividade — afirmou Simone Ferreira da Silva, coordenadora dos projetos da Rocinha, que se dizia “em êxtase”. — Estou aqui tirando fotos de tudo e fazendo lives com a minha filha, que está enlouquecida.

O público do evento também chamava a atenção dos jovens, até pelas roupas.

— Tem todas as tribos aqui e não há preconceito. O povo é bem liberal. As pessoas sentem que podem usar o que quiserem e ninguém vai julgar — analisou Jéssica dos Santos da Silva, de 21 anos, cantora.

Quando começou o show de Alok, o primeiro do palco Mundo, os jovens debandaram. Não correram para o local: iam dançando, pulando, já curtindo o som. Durante o show, fizeram questão de registrar o momento, mas a ansiedade era para ver a última atração da noite.

— Estamos loucos para ver o Drake! — afirmaram Santos e vários outros.

Comprometimento garantiu presença
A escolha das ONGs que ganhariam os 140 ingressos foi feita de acordo com a relevância que elas têm em áreas carentes. Todas deveriam desenvolver trabalhos relacionados a música, além de estimular a cidadania, promover a inclusão social e investir em novos talentos. Já os jovens que iriam ao festival foram selecionados pelas próprias instituições das quais fazem parte, que optaram por alunos responsáveis e que tiveram suas vidas transformadas pela música.

Olavo John Clemente de Souza, de 18 anos, integrante da Orquestra Sinfônica Jovem do Rio de Janeiro, é um desses jovens comprometidos. Apesar de ter o ingressos em mãos e estar ansioso pelo seu primeiro Rock in Rio, só chegou ao local por volta das 21h, vindo de um ensaio. Ao entrar, comentou que cresceu ouvindo falar do festival:

— Sempre que tinha um Rock in Rio, meu pai falava que era o sonho dele estar no evento, e hoje eu estou aqui. Não ia deixar de vir. Ainda não consegui curtir, mas já percebi que a energia é muito boa. Vim pela alucinação que tenho pelo Drake, mas quero correr todos os palcos, visitar todos os lugares.

Foi o que ele fez. Ana Elisa Morais, sua colega de orquestra, contou depois que os dois circularam por toda a Cidade do Rock.

— Não conseguimos andar nos brinquedos nem ganhar brindes. Mas estar no Rock in Rio foi fantástico! — definiu a moradora do Complexo do Alemão.

A Orquestra Maré do Amanhã se apresentará sábado no Espaço Favela. Para os integrantes contemplados com ingressos para a semana passada, que já estavam em polvorosa porque subiriam ao palco do evento, a emoção foi dupla. Wagner Mello, que toca flauta e oboé, observou que, pela televisão, não é possível ter dimensão da grandiosidade do evento.

— Onde eu moro tem muitas festas e já estou acostumado com esse clima, mas nenhuma conseguiu me arrepiar como estar aqui. Poder fazer parte do festival duas vezes e de maneiras diferentes é esplêndido. Agora eu sei que a favela pode, sim, ocupar qualquer lugar — afirmou.

Com 23 anos, Lourenço Pereira Hipólito, também da Orquestra Maré do Amanhã, foi outro que chegou mais tarde para não faltar a um ensaio. Ainda em êxtase, repetia que a ficha não tinha caído.

— Quero que o público sinta tudo o que estou sentindo hoje quando a nossa orquestra subir ao palco. Quero passar a energia que os artistas estão me transmitindo, ver todo mundo pulando e feliz — desejou.

Violoncelista da Maré do Amanhã, Myllena Rosário está no projeto desde 2012 e saiu do evento animada, mas não deixou de fazer uma crítica ao seu ídolo:

— Estava muito ansiosa para assistir ao show do Drake, mas acho que poderia ter sido muito melhor! De qualquer forma, curti todos os momentos lá dentro. Foi inesquecível e, se for para definir a experiência com uma palavra, que seja gratidão.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior