Sexo frágil? Fala sério! As mulheres estão conquistando cada vez mais espaço nas cozinhas de restaurantes cariocas, reduto predominantemente masculino, provando que têm a força — e muita força. No Olympe, na Lagoa, Gabriela Gomes, de 28 anos, acaba de deixar a praça de entradas para assumir o posto de cozinheira do fogão. Agora, prepara pratos com carne e peixe, que exigem pontos perfeitos. É a primeira mulher a ocupar a posição nos 14 anos de casa.
— Há um ano, tinha surgido uma vaga no fogão, e contrataram um homem ao invés de me promover. Fiquei sentida, mas não desisti. Fiz de tudo para subir e estou muito orgulhosa da minha conquista — afirma Gabriela.
O Olympe agora tem sete mulheres na cozinha. Bem diferente de quando Claude Troisgros o abriu, em 2003…
— Era uma outra época, nem tinha faculdade de gastronomia. Aconteceu naturalmente. A gente começou a receber estagiárias, e elas foram sendo promovidas por competência, mérito puro — conta Thomas Troisgros, filho de Claude e chef do restaurante.
Mas nem tudo são flores no mundo das panelas. O preconceito, apesar de cada vez menor, ainda existe.
— Às vezes, quando começamos a trabalhar num restaurante, ouvimos comentários maldosos de homens insinuando que somos “mulherzinhas”. Mas acho que temos capacidade de fazer absolutamente tudo o que eles conseguem fazer — assegura Luiza Marques, de 27 anos, também cozinheira do Olympe.
A rotina é puxada: a jornada chega a dez horas por dia, com apenas uma folga por semana. No pacote, está trabalhar sextas, sábados, domingos e datas festivas, como Natal e Réveillon. E não é só. É preciso carregar panelas pesadas e correr contra o relógio para preparar pratos com rapidez e perfeição. Mas elas fazem tudo com disposição — e uma bandana colorida na cabeça.
— Antes, a gente tinha que usar chapéu, era ruim, esquentava. As bandanas deixam a gente mais bonita — diz Nina Carnaval, confeiteira da casa.
Aprendizes. Mariana Rios (de lenço rosa) com estagiárias do Puro: ela cozinhou oito horas com dedo ferido. Depois, levou sete pontos – Agência O Globo / Monica Imbuzeiro
Na praça da confeitaria, onde são preparadas as sobremesas, aliás, as mulheres são ainda mais valorizadas. Nada como um toque feminino…
— A mulher é muito mais cuidadosa e delicada na finalização — atesta Pedro Siqueira, chef do restaurante Puro, no Jardim Botânico, onde metade da equipe é mulher.
Uma das cozinheiras da casa é Mariana Rios, de 36 anos, que exibe com orgulho cada uma das cicatrizes que tem no braço, frutos do trabalho ao fogão:
— Logo quando comecei num restaurante, cortei o dedo, fiz um curativo e segurei firme. Só depois de oito horas de trabalho descobri que tinha que levar sete pontos. E tem homem que acha que mulher é mais frágil…
No restaurante Zuka, no Leblon, o jogo é virado: a chef Ludmilla Soeiro, com mais de 20 anos de profissão, comanda sozinha uma equipe de 26 homens:
— Hoje em dia não é difícil. Mas foi um processo, você vai conquistando o respeito e aprendendo com eles. Tem que ter jogo de cintura.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Monica Imbuzeiro / Agência O Globo