A comerciária Ana Carolina Silva, moradora da Venda da Cruz, trabalha numa loja na Praça do Rink, no Centro, e embarca todos os dias, por volta das 19h, no ônibus da linha 41 no Terminal Rodoviário João Goulart. O tempo que ela leva, nas suas contas, depois que entra no coletivo até a Avenida Feliciano Sodré (cerca de 900 metros adiante) é quase os mesmos 30 minutos do restante do trajeto de 6,2 quilômetros até a sua casa. Ela explica que a demora ocorre devido ao trânsito nos acessos ao terminal. O mesmo motivo é apontado pelo engenheiro Paulo Amorim para percorrer em 40 minutos o caminho do trabalho, na Ilha da Conceição, até sua casa, no Ingá, de carro. A sobrecarga do terminal — que hoje tem 57% mais acessos diários do que comporta sua capacidade, provocando transtornos na vida de quem usa o equipamento e também de quem não depende dele — é alvo de um inquérito na promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Consumidor e Contribuinte do Núcleo Niterói do Ministério Público (MP).
A investigação do MP trata da falta de infraestrutura do espaço, constatada, na última quarta-feira, pelo GLOBO-Niterói. Uma espécie de “puxadinho”, construído há dois anos nos fundos do terminal para servir de local de espera dos ônibus antes de eles acessarem as baias (muito cheias, sobretudo nas horas de rush), passou a ser usado para embarque e desembarque de passageiros. Carros particulares também estacionam ali, sem qualquer segregação dos coletivos. Montanhas de materiais usados para pavimentar o terreno, como piche e terra, ficam às margens da Baía de Guanabara e, sobre elas, motoristas tentam estacionar seus ônibus, deixando-os inclinados. Grupos consomem drogas no terreno, e abrigos foram construídos por moradores de rua quase dentro d’água. Uma das mais graves consequências do estado de desordem no terreno foi a morte, na sexta-feira passada, de um homem atropelado por um ônibus. Segundo testemunhas, ele era morador de rua e passava atrás do coletivo no momento em que o veículo manobrava.
Agentes do Ministério Público se reuniram, no dia 16 de fevereiro, com representantes da Superintendência de Terminais e Estacionamentos de Niterói (Suten), da Niterói Transporte e Trânsito (NitTrans) e do consórcio Teroni, que administra o terminal. No encontro, o órgão pediu providências para a adequação e sinalização do “puxadinho”. “A investigação trata da lotação do espaço, em especial do embarque e desembarque de passageiros”, informou o MP, em nota.
Ana Carolina, que depende do terminal para pegar ônibus todos os dias, espera que a movimentação se traduza em melhorias e maior rapidez para os usuários.
— Alguma coisa precisa ser feita, porque de um ano para cá está impossível pegar ônibus no terminal. É muita confusão nas baias e no trânsito em volta — reclama.
Ônibus dentro do Terminal João Goulart: nos horários de maior movimento, alta circulação de coletivos dificulta o acesso às baias, provocando atrasos nas viagens e congestionamento nas ruas do entorno – Analice Paron / Agência O Globo
Paulo Amorin, que há muitos anos não pega ônibus no terminal, espera que as medidas de adequação também solucionem o problema do trânsito nos horários de rush, melhorando o fluxo para quem passa de carro pelo Centro:
— Isso (a melhoria da infraestrutura do terminal) já deveria ter acontecido, para não termos que passar pela situação de colapso que está hoje. À noite, o trânsito no Centro está impraticável por conta dos ônibus que ficam parados em fileiras, esperando para entrar no terminal.
O consórcio Teroni diz que toda a área do terminal, incluindo o terreno localizado nos fundos, pertence ao município e que o atual contrato de concessão envolve apenas a área construída. A Teroni admite, portanto, que fez a pavimentação do terreno para que ele pudesse receber os ônibus, e que as sobras de materiais serão removidas à medida em que forem feitas novas terraplanagens. Sobre as adequações e a sinalização do local pedidos pelo MP, o consórcio afirma que já investiu R$ 23 milhões em obras de infraestrutura e modernização do terminal desde que assumiu a gestão do equipamento há dez anos, e aguarda um posicionamento da prefeitura para executar o que for necessário.
— Pelo contrato, só temos como realizar melhorias na área construída do terminal. Depois da reunião com o MP, ainda não tivemos um retorno (da prefeitura). Estamos aguardando um posicionamento dos órgãos da prefeitura para saber que providências serão tomadas e como vamos ajudar. Caso haja ampliação da área do terminal, isso precisa ser incluído no contrato para que possamos realizar a gestão do espaço — explica o gerente administrativo do terminal, Aníbal Bonorino.
A Suten informa que está elaborando um estudo junto ao consórcio Teroni e ao Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Setrerj) para readequar o espaço do “puxadinho” do terminal “devido o aumento expressivo da demanda nos últimos 20 anos (de 350 mil acessos para 550 mil), inclusive com o reordenamento das baias, visando a melhorar a fluidez do trânsito no espaço”. De acordo com o órgão, todo processo está sendo feito em comum acordo com a Setrerj para melhorar o atendimento aos usuários e trabalhadores do terminal. “A Suten informa ainda que determinou à concessionária Teroni uma série de medidas para melhorar a qualidade dos serviços prestados no terminal, inclusive com aumento de fiscalização (dentro da gare e das plataformas), além de aumentar os corredores de circulação de pessoas e redistribuição dos comércios”. A Suten reitera que o MP deu prazo de 60 dias para a elaboração e apresentação do estudo de readequação do espaço e que a prefeitura está dentro do prazo. A Secretaria de Ordem Pública (Seop) disse que fará fiscalização no local para averiguar a presença de moradores de rua instalados no terreno.
NOVA RUA SERÁ ABERTA
As intervenções previstas pela prefeitura para o entorno do terminal incluem a reabertura de uma via entre a gare e o “puxadinho”, a antiga Rua 4. A nova passagem servirá, principalmente, para os carros que saem do Teatro Popular Oscar Niemeyer, sentido Zona Sul. A rua passará pela lateral do terminal até o Bay Market e contornará o shopping, saindo ao lado da Praça Araribóia. O projeto inclui ainda uma ciclovia com o mesmo traçado. De acordo com a prefeitura, a passagem já estará aberta a partir do mês que vem.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo