É quase impossível escrever de forma concisa sobre Alberto Jacob. Deixo essa missão para vocês, jornalistas. Isso já me lembra uma frase muito dita pelos colegas de trabalho de Jacob: “Missão impossível? Chame o Jacob”. Aí vai então uma tentativa de expressar o turbilhão de sentimentos que vieram ao saber da notícia de seu falecimento.
Foi durante a faculdade que o conheci. Queria fazer um documentário. Eu não tinha tema, motivo, história. Só a vontade de realizar um filme.
Um dia, meus pais, jornalistas, me contaram, despretensiosamente, a história de uma família de fotojornalistas. O pai, os dois filhos e o neto. Já fiquei encantada. “ele se chama Alberto Jacob”, meus pais disseram. Prontamente, fui buscá-lo no Google e me deparei com aquela sua famosa foto do prêmio Esso — a que ele mesmo deu o nome de “a mão de Deus”(Jacob tinha essa particularidade: dava nome as suas fotos).
Lembro-me que tive medo do primeiro contato com ele. Adiei por alguns dias a ligação. Até que tomei coragem e liguei para sua casa. Dona Neuza, sua esposa, atendeu, e antes de me passar para ele, disse que eu teria que falar alto, porque ele já não ouvia tão bem. Sem problemas”, eu disse. A conversa por telefone foi o bastante para marcarmos um encontro em sua casa, em Jacarepaguá.
Nossa primeira conversa durou por volta de 4 horas. Eu havia levado comigo algumas folhas de papel em branco e uma caneta. A ideia era anotar tudo que achasse interessante. Mas logo nos primeiros minutos, percebi que teria que mudar meu processo de pesquisa. Tudo que ele dizia tinha um valor enorme. Foi quando decido ligar o gravador. Nossas conversas iam tarde adentro em seu quintal cheio de verde e azul. Enquanto isso dona Neuza passava um café.
Em uma das visitas ele me mostrou seu quarto de memórias. Era lá que ficavam todas as suas fotografias, todas as capas de jornal e de revista que trabalhou. E ele guardava tudo com o maior carinho e organização. Foi quando me apaixonei por memórias. Desde então tudo que venho criando e produzindo passa por esse tema.
A cada dia de filmagem, Jacob me surpreendia com mais uma lembrança que ele tirava de sua cartola. Mais do que um fotojornalista, encontrei naquela casa um cara sensível e cheio de paciência.
Poderia falar por horas e horas do Jacob, porque gosto das nossas memórias. Juntos, fomos até ao Palácio Guanabara, onde ele presenciou o momento do golpe militar na virada do dia 31 e março para primeiro de abril de 1964. Fomos também à PUC assistir a exibição do filme para os alunos e professores. Mas encheu meu coração de alegria poder levar o filme para sua casa e exibi-lo na frente da sua família. Dava pra ver os olhinhos brilhando. De onde estiver, sei que vai seguir registrando tudo que suas lentes sensíveis captarem.
Alberto Jacob morreu nessa terça-feira, aos 84 anos, de falência múltipla dos órgãos, decorrente de um câncer, com o qual lutava há 10 anos. Deixa quatro filhos, cinco netos e quatro bisnetos.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior