Moradores da Maré organizam ato pelo fim da violência na região

Davison Lucas da Silva, de 15 anos, havia saído de casa para comprar pão. Fernanda Pinheiro, de 7, brincava de boneca na laje. Rosimeire da Silva, de 40, voltava para seu conjugado depois de visitar o companheiro no hospital. Os três se viram em meio a um confronto entre policiais e traficantes no Complexo da Maré; morreram numa região em que tiroteios são uma triste rotina. Alimentaram dores de uma realidade que, com o fenômeno das redes sociais, ganharam corações e mentes em todos os bairros do Rio. Nesta quarta-feira, vans sairão de vários pontos da cidade rumo ao complexo de 16 favelas, localizada entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, no caminho para o Aeroporto Galeão-Tom Jobim. É um caminho que ganhou painéis, medida vista por uns como uma tentativa de mascarar a pobreza; por outros, como fundamental para proteger os visitantes que desembarcam em solo carioca.

Num movimento inédito, ONGs, religiosos, ativistas sociais, estudantes, políticos e artistas se uniram para realizar a Marcha Contra a Violência na Maré. Os rostos e as histórias de Davison, Fernanda, Rosimeri e de pelo menos outras dez pessoas assassinadas nos primeiros três meses deste ano estamparão cartazes.

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Organizada pelo Fórum Basta de Violência! Outra Maré é Possível, a marcha começará às 13h. Sairá de dois pontos nas extremidades do complexo — a Praça do Parque União e a Associação de Moradores do Conjunto Esperança. Em seguida, cruzará ruas de quase todas as comunidades e terminará num destino simbólico: uma praça numa localidade conhecida como Divisa, na esquina das ruas Evanildo Alves e Principal, na Baixa do Sapateiro. Ali é uma espécie de fronteira, um local de confrontos que separa os territórios de duas das três facções criminosas — Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) — que dominam a região, com cerca de dez quilômetros quadrados. A terceira é uma milícia. Diante de casas cravadas de tiros, os participantes vão fazer apresentações, ler manifestos, cantar e pedir o fim da guerra.

— A ideia surgiu a partir de uma articulação de organizações da Maré. O aumento da violência é impressionante: nos primeiros três meses deste ano, tivemos 13 homicídios em intervenções policiais, contra 33 ao longo de 2016. É importante encararmos a marcha como uma primeira ação que marca a iniciativa de enfrentar o problema de forma coletiva. É preciso diminuir a segregação entre as favelas e o asfalto. O evento também serve para mostrarmos aos moradores da favela que eles não têm que achar a violência algo normal — diz Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré.

Marcha contra a violência na Maré
Duas passeatas partirão de pontos opostos do bairro e para se encontrar na fronteira entre áreas controladas por facções rivais
Áreas ocupadas
pela Milícia
Favelas sob
domínio do TCP
Conjunto de favelas
sob o controle do CV
AEROPORTO
Baía de
Guanabara
N
Praia de
Ramos
Parque
Roquete
Pinto
MORTES NOS TRÊS PRIMEIROS MESES DO ANO
Parque União
5
ILHA DO
FUNDÃO
Conjunto Esperança
3
Parque
União
(UFRJ)
13H
Nova Holanda
2
Concentração na praça do Parque União
Baixa do Sapateiro
2
Nova
Holanda
Parque Maré
1
Parque
Maré
15H30
Encontro e ato na R. Principal com a R. Evanildo Alves
Nova Maré
17 dias
Baixa do
Sapateiro
Morro do
Timbau
sem postos de saúde
Bento
Ribeiro
Dantas
Vila do
Pinheiro
Conjunto
Pinheiros
11 dias
Salsa e
Merengue
sem escola por causa de confrontos armados na Maré
Vila do João
13H
Conjunto
Esperança
Concentração no Conj. Esperança
PRINCIPAIS ONGS E COLETIVOS QUE ATUAM NA MARÉ
Conexão G
Instituto Maria e João Aleixo
Ação Comunitária do Brasil
Nova Direção
Biblioteca Nélida Piñon
Cineminha no Beco
Força do Esporte
APAR
Coletivo Rock e Movimento
Skate Maré
Redes da Maré
Observatório de Favelas
Luta pela Paz
Uerê
Vida Real
Fonte: ONG Redes da Maré
Com aproximadamente 130 mil habitantes, segundo o último Censo, ou mais de 140 mil, de acordo com estimativas de ONGs, a Maré, se fosse uma cidade, seria a 24ª mais populosa do Estado do Rio. A posição é estratégica, está às margens de caminhos obrigatórios de milhares de pessoas todos os dias. Fica numa região com 45 escolas e nove postos de saúde, e seu alto nível de organização pode ser expresso na existência de mais de 20 ONGs. Ainda assim, o complexo de favelas se ressente de décadas de promessas não cumpridas. Uma delas, a instalação de quatro Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que nunca saiu do papel.

Para preparar o terreno que daria início ao processo de pacificação, o complexo chegou a ser ocupado pelas Forças Armadas por 14 meses, de abril de 2014 a junho de 2015. No fim, foi anunciada a substituição dos militares pela polícia. Mas, com a crise financeira que paralisou o Rio, o projeto ficou de lado. As duas facções do tráfico na região seguiram com seu poderio. A milícia que ocupa duas comunidades da Maré continua sem recuar. E os moradores são reféns.

A guerra da Maré se reflete em todo o seu entorno. Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), a área do 22º BPM, que abrange outros bairros da região, teve 41 homicídios, 70% a mais do que os 24 do mesmo período do ano passado. A curva de criminalidade, que chegou a ceder, mudou. A taxa de homicídios da Maré — uma das 33 Regiões Administrativas da cidade —, que chegou a 31,59 mortes por 100 mil habitantes em 2010, caiu para 4,54 em 2013. No entanto, pouco a pouco, o quadro foi se alterando. Em 2014, subiu para 15,85 mortes por 100 mil. E, de acordo com o Índice de Progresso Social divulgado pela prefeitura no ano passado, chegou a 16,98 mortes por 100 mil em 2015, mais do que outras áreas conhecidas por serem violentas, como o Complexo do Alemão, por exemplo.

Em vez de ocupação permanente, os moradores têm que conviver com frequentes incursões policiais. Dados do Projeto de Acompanhamento Permanente mostram que, no ano passado, houve 33 operações no conjunto de favelas: uma a cada 11 dias. A maioria foi na Nova Holanda, no Parque União, no Parque Rubens Vaz e no Parque Maré, todas da mesma facção. Nessas operações, são relatadas violações de direitos. As estatísticas indicam também que pelo menos 20 dias foram desperdiçados, com o fechamento de escolas e postos de saúde.

Com frequência, motoristas são baleados quando erram o caminho e entram na Maré. No último episódio, a médica Klayne Moura Teixeira de Souza, de 28 anos, foi atingida após um aplicativo indicar uma rota alternativa. Ela foi socorrida pelos próprios traficantes que atiraram.

— A pessoas precisam entender que o problema não é só da Maré. É da cidade inteira — resume a mestre em educação e políticas públicas Shyrlei Rosendo, moradora da Maré e uma das organizadoras da marcha de hoje.

APOIO DE ARTISTAS

Convidados pelas lideranças da Maré, alguns famosos aderiram à causa. A atriz Cissa Guimarães emprestou a voz para gravar uma mensagem de convocação, veiculada em carros de som que percorreram a Maré na última semana, avisando sobre a marcha. Muitos publicaram vídeos e fotos com mensagens nas redes sociais, como os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura e as atrizes Camila Pitanga, Carolina Ferraz e Patrícia Pillar. O empresário de moda e fotógrafo Oskar Metsavah é uma das personalidades que confirmaram presença:

— Vou filmar e fotografar. É importante porque não se trata apenas de contar o número de mortos e feridos na Maré, mas de abrir os olhos da sociedade para o que acontece lá. É uma região da cidade em que os direitos humanos não são respeitados.

A atriz e artista plástica Maria Luisa Mendonça visitou a favela há aproximadamente um mês. Anteontem, voltou para ajudar a pintar um grande coração numa praça.

— Precisamos recuperar o direito de ir e vir por toda a cidade. A violência afeta todo mundo, não só quem mora na favela — diz ela, que abriu as portas de seu ateliê na Urca para um grupo que fez os cartazes da passeata.

Sem perder o tom de desabafo, a marcha também terá manifestações culturais. A coreógrafa Lia Rodrigues, que frequenta as favelas da Maré há 12 anos, em atividades na Escola Livre de Dança da Maré, preparou uma encenação para o evento. A artista plástica e designer Maria Nepomuceno fez um balão gigante inflável, com as frases “Amor é Maré” e “Maré é amor”. Treze furos vão representar cada um dos mortos em ações policiais este ano. No fim da passeata, uma orquestra com crianças do complexo fará uma apresentação.

Para facilitar a chegada na Maré, vans sairão da Zona Sul e do Centro. Haverá pontos de embarque na Lapa (em frente à Fundição Progresso) e no Parque Lage. A saída será às 11h, com previsão de retorno às 17h. A manifestação será acompanhada por equipes de um batalhão da PM.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Antônio Scorza / Agência O Globo