Monólogo ‘O Rei da Glória’ apresenta reflexões sobre o bairro

Nos últimos tempos — em meio ao agravamento da crise econômica na cidade — é impossível passar pela Rua da Glória sem nos depararmos com dezenas de vendedores ambulantes expondo os mais variados produtos em tendas montadas ao longo da calçada. O movimento cresceu tanto que foi batizado popularmente de Shopping Chão. E é esse o foco do monólogo “O rei da Glória”, escrito e estrelado pelo ator Anderson Cunha até o dia 1º de abril na Sala Municipal Baden Powell, em Copacabana.

No espetáculo, o protagonista, Rico Star, vende objetos usados na calçada do bairro e observa a vida de transeuntes inusitados, como um pastor que usa o dicionário em vez da Bíblia e prega o uso das palavras; um homem louco e genial que mora numa árvore; uma “virgem grávida” que movimenta a cidade à espera de um messias; e um cineasta que registra os depoimentos enquanto tenta resolver seus problemas amorosos. Cunha interpreta os personagens masculinos, enquanto as femininas entram em cena com uma locução em off.

— O Shopping Chão foi apenas o ponto de partida para a criação do espetáculo. Não me baseei em personagens que realmente existem por lá. A história é uma ficção e aponta questionamentos sobre intolerância, pobreza, marginalização e o caos contemporâneo. Numa época em que a falta de bom senso impera, o monólogo utiliza o realismo fantástico e a ironia lúdica para fazer uma crítica ao cotidiano — destaca o ator.

A direção é assinada pelo próprio Cunha e por Guilherme Miranda.

— Meu papel é ajudá-lo a dançar nas sutilezas propostas pelo texto sem deixar subtrair ou facilitar o que esta plataforma nos oferece. Anderson tem domínio do corpo e da voz em cena. Então, eu me sinto como um espectador privilegiado — afirma Miranda.

A peça abre a temporada da Sala Espelho, um espaço alternativo da Baden Powell, que desde o ano passado vem sendo utilizado para espetáculos com formato mais enxuto.

De acordo com o curador da casa, Sérgio Medeiros, o loca era utilizado para ensaios e oficinas fechadas. Mas, depois de uma pequena reforma, bancada com ajuda de artistas e produtores, passou a receber também espetáculos.

— Nesses tempos em que as salas de teatro estão fechando, resolvemos criar mais uma possibilidade para a cidade. Como aqui é menor, é mais fácil viabilizar projetos. Hoje, inclusive, temos mais pedidos de projetos para este espaço do que para a sala principal — afirma o curador da Sala Municipal Baden Powell.

Sala Municipal Baden Powell — Avenida Nossa Senhora de Copacabana 360, 5º andar. De sexta a domingo, às 19h. R$ 30. Classificação: 14 anos.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior