Há mais de um século, Miguel Pereira, no Centro-Sul Fluminense, ostenta o título (extraoficial) de ser a terceira cidade com o melhor clima do mundo. Com 25 mil habitantes, nesta época atrai turistas pelo friozinho: as temperaturas agora variam entre 12 e 19 graus, com a vantagem de céu aberto quase todos os dias. Mas uma ideia inusitada da prefeitura pretende alterar completamente essa fama. Embora o lugar não seja terreno para escavações paleontológicas nem registre descobertas jurássicas, o prefeito André Português tem o plano ambicioso de fazer de Miguel Pereira “a cidade dos dinossauros”.
Ao lado de uma réplica de um tiranossauro rex em seu gabinete, ele promete, em dez dias, colocar na rua a licitação para a implantação de um parque no município com, inicialmente, 32 animais de mais de 30 metros de altura. Importados da China, eles se movimentam e emitem sons por meio de sensores. O projeto, chamado de Mundo dos Dinossauros, custaria R$ 8 milhões, com investimento total da iniciativa privada, em troca de uma concessão de 20 anos. A prefeitura ficaria com 5% da bilheteria — o valor do tíquete é calculado entre R$ 20 e R$ 60. O orçamento anual do município é da ordem de R$ 100 milhões.
Essa história começou com uma viagem do prefeito, em março de 2017, para conhecer os pontos turísticos de Gramado, no Rio Grande do Sul. Lá, Português visitou o Vale dos Dinossauros, que hoje apresenta 37 atrações “animatrônicas” de até dez metros, em passeios de 50 minutos. Desembarcou do Sul com a ideia fixa de fazer algo parecido, só que maior, no pacato município.
—Tive uma visão empreendedora — afirma ele, empresário da construção civil, que viu todos os filmes da série Jurassic Park de Steven Spielberg. — Quero colocar na estrada (a RJ-125) um tiranossauro rex grande, de boca aberta, como se estivesse caindo sobre os carros.
Sua ideia de parque mistura ciência e entretenimento. Ele já assinou um protocolo de intenções com o diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, para ter no local a chancela da instituição. A área para o empreendimento é o Parque Municipal Rocha Negra, de 1,4 milhão de metros quadrados, à beira da RJ-125 e a 6 km do Centro. Português, que não conhece outros parques do tipo, já chama o de Miguel Pereira de “o maior do mundo”.
— Tem que ter um carnavalesco no projeto, porque o projeto tem um clima de fantasia — acrescenta o prefeito, que está no seu primeiro mandato e pretende inaugurar o Mundo dos Dinossauros já no ano que vem, quando haverá eleições municipais.
Assunto na cidade
A promessa do político do PR gera, além de piadinhas — como a do “dinossauro do IPTU”, sobre o aumento em carnês por causa de um recadastramento feito pelo governo —, grande expectativa na população. A prefeitura estima que serão criados 300 empregos diretos e um fluxo de 250 mil visitantes ao ano. A atração terá lojinha, área de alimentação, exposição de fósseis, um centro de estudo ambiental e trilhas com cenas que vão parecer saídas do cinema. O roteiro, a pé, levaria até duas horas.
— A cidade não tem um atrativo grande assim. Com ele, vêm junto turismo e mais empregos — comenta Ana Carolina Fontes, dona de um restaurante no centro.
O parque temático caiu na boca do povo esta semana, quado o governador Wilson Witzel postou no Twitter um vídeo com a camisa do Mundo dos Dinossauros ao lado do prefeito. Na gravação, estão ainda o diretor Museu Nacional, a empresária Marlene Mattos, ex-diretora do “Xou da Xuxa”, e o designer Hans Donner, autor da logo. O prefeito diz que negocia parceria com Donner e contratou Marlene por R$ 150 mil para elaborar um plano de desenvolvimento do potencial do parque. Ele também conversa com o carnavalesco Cahê Rodrigues, que levou para a Avenida, em 2018, pela Imperatriz, o Museu Nacional.
—A maioria dos bichos vem da China, mas alguns dinossauros seriam reproduzidos aqui, com artistas do festival folclórico de Parintins — diz Cahê, que pensa em criar brinquedos temáticos e uma ponte com ossos de dinossauros.
Paleontólogo, Kellner se mostra animado, mas conta que ainda falta separar o lúdico do científico:
— Nós propomos realizar montagem de alguns dinossauros de forma cientifica, sob supervisão de paleontólogos— diz o especialista, que responde o que todos querem saber quando sabem do projeto: tem dinossauro de verdade em Miguel Pereira? —Por ser uma área montanhosa e pelo tipo de rocha, a chance de encontrar um fóssil é zero.
Fonte: O GLobo
Postado por; Raul Motta Junior