Gastronomia, pode-se dizer, é uma forma de arte que sacia o corpo; e arte, em todas as suas formas, nutre a alma. Reunir comida e (outras) expressões artísticas, então, só pode resultar numa grande festa para os sentidos. É o que propõe o Mercado B, evento promovido pelo GLOBO que será realizado de amanhã a domingo, na Barra, com entrada gratuita.
Num espaço de nove mil metros quadrados na Avenida das Américas, onde funcionou uma loja da rede Walmart, o evento reunirá quiosques de bons restaurantes, food bikes, food trucks, aulas com chefs famosos, feira de produtos artesanais, oficinas, espaços expositivos de arte, shows, área para crianças e intervenções artísticas. Para dar conta do recado, foi escalado um time de peso: os artistas plásticos Afonso Tostes, Aderbal Ashogun, Vik Muniz e Carlos Vergara; os chefs Katia Barbosa, Claude Troisgros e Natacha Fink; e os cantores Pedro Luis, Donatinho, Julia Bosco e Jesuton. A ideia é que os profissionais de diferentes áreas interajam diante do público.
Organizador da parte artística do evento, João Vergara explica que sua curadoria se baseou em dois aspectos principais: ele selecionou artistas que pensam a cidade e a gastronomia.
— A cozinha faz parte da vida de vários artistas. Muitos cozinham mesmo. O Vik é um exímio cozinheiro, e começou a carreira como bartender, inclusive. Além disso, é uma pessoa que traz o enfoque da cidade. Ele vai levar para o evento o trabalho que desenvolve na sua Escola do Olhar, no Vidigal. O Carlos Vergara (pai de João) apresentará seu filme “Fome” e o trabalho dos feijões, que dialoga muito com a comida — explica Vergara, que vê muitas vantagens na união entre comida e arte. — Ajuda até a aproximar a arte contemporânea do público; desmistifica o estereótipo de que a arte é coisa para poucas pessoas. Os encontros ajudarão nesse processo.
No dia a dia, uma das grandes atrações do ateliê de Carlos Vergara, além das obras de arte, são os almoços realizados por ele. Seu lado mestre-cuca, já explorado em muitos trabalhos, será evidenciado no Mercado B.
— Sou um cara que gosta de cozinha. A gastronomia é uma forma de expressão que pode ser muito artística. Comida e arte são coisas para fazer você ficar junto de outras pessoas e conversar; gosto disso. Até por esse motivo vou levar os feijões, um trabalho que desenvolvi em 1983, na expansão do BarraShopping, inspirado no livro “A chave do tamanho”, de Monteiro Lobato — diz o artista.
Natacha Fink sentada numa das obras de Carlos Vergara, da série dos feijões – Analice Paron
Os chefs também celebram a receita do evento. Para Natacha Fink, do restaurante Espírito Santa, a arte ajudará a retomar a experiência da contemplação na culinária.
— Hoje a gastronomia é muito consumida como um produto comercial, como se fosse roupa; é exibida em fotos. Como chef, para mim é ótimo ter essa atmosfera artística ao redor — diz Natacha, que se apresentará ao lado do amigo Carlos Vergara. — Nós já fizemos diversas coisas juntos. Como ele vai levar o seu trabalho dos feijões, vou preparar três pratos nessa linha: o caldinho de feijão vermelho com laranja; a feijoada vegetariana, com tofu defumado, cogumelo e feijão-manteiguinha; e o bolinho de feijoada, o único que vai ter feijão-preto.
Para Katia Barbosa, do restaurante Aconchego Carioca, o encontro será uma oportunidade de unir linguagens.
— Não contextualizo as coisas da mesma forma que os artistas. Sou muito objetiva, enquanto eles trabalham com uma proposta mais subjetiva e filosófica. O encontro será muito interessante e divertido — acredita a chef, que se apresentará ao lado de Afonso Tostes e Aderbal Ashogun e cozinhará arroz vermelho. — Vai ser uma proposta bem brasileira, com influência nordestina. O arroz vermelho está desaparecendo, por falta de uso. Será uma oportunidade de apresentar esse ingrediente.
As apresentações de artistas e chefs ajudarão a “pensar a cidade”, explica João Vergara. E a Barra será um bairro muito presente nos trabalhos.
— Teremos obras de Burle Marx, cujo sítio fica nas imediações (em Guaratiba) e que muita gente que mora na Barra nunca visitou. Vamos trabalhar bastante a identidade do bairro. Obras de Rubens Gerchman, cujo instituto fica na Barra, também serão expostas — afirma Vergara, que destaca a relevância artística do evento. — O coletivo Opavivará apresentará, pela primeira vez no Brasil, uma obra que acabou de expor na Alemanha e na Holanda, a “Fonte de refrescos”: vieram ao Rio só para isso.
Carlos Vergara homenageará o bairro:
— Vou levar meus quadros inspirados nos mangues da Barra.
O artista Afonso Tostes, morador do bairro, celebra a oportunidade de um evento como o Mercado B numa região que ainda tenta se inserir no cenário da arte contemporânea:
— É um hábito educacional de consumo. Quem foi migrando para cá, décadas atrás, não tinha esse costume de consumir arte. Aos poucos, surgiram iniciativas para mudar isso. Aqui, existe basicamente a Cidade das Artes, que eu acho incrível. É a afirmação da cultura diante de um mar de consumo e comércio, e com uma arquitetura linda. A Barra pode, sim, ter arte.
Afonso Tostes, à frente, e Aderbal Ashogun se apresentam juntos – Analice Paron
Tostes levará para o Mercado B sua “Ferramentas”, uma espécie de instalação metalinguística, em que explora a produção do trabalho, com a exibição de ferramentas esculpidas e penduradas em um cabo.
— Não gosto muito de definir. Espero que o público possa tirar suas conclusões — diz.
Ao seu lado estará Aderbal Ashogun. O artista, que teve sua participação na Bienal de São Paulo de 2014 exaltada, levará a instalação “Gongá”, que trabalha conceitos como racismo ecológico e cultura tradicional, partindo de imagens de oferendas de rituais religiosos na Floresta da Tijuca.
— A arte é, antes de tudo, uma ferramenta de luta. Meu trabalho joga luz sobre a exclusão, principalmente em relação ao trabalho religioso realizado na Floresta da Tijuca, que sofre com a intolerância e se configura como um racismo ambiental; queremos dar visibilidade ao complexo cultural de matriz africana. Pego imagens e santos quebrados e ressacralizo. As peças voltam a um posto de arte — explica Ashogun.
A ligação entre as obras dos dois artistas plásticos, que se apresentarão amanhã, será feita por intermédio da comida. A chef Doya Moreira, irmã de Ashogun, foi convidada para criar pratos que tragam experiências diversas, como cheiros e cores.
PUBLICIDADE
— Os trabalhos têm pontos de contato e essa ligação virá pela Doya, que nos trará pratos apresentados com carinho e afeto. Uma das novidades do Mercado B é que a arte contemporânea vai visibilizar o conhecimento; nesse caso, o gastronômico. Normalmente, a arte se apoia em alguma referência específica para criar uma experiência — diz Ashogun.
Claude irá preparar uma surpresa para Vik Muniz – Foto Alexandre Campbell / Alexandre Campbell
Um dos encontros mais esperados reunirá Claude Troisgros e Vik Muniz, no sábado. O artista plástico exibirá sua série de fotos “Fonte da juventude”, em que o alfabeto é formado por frutas, verduras e legumes. Na palestra com o chef francês, ele ainda relembrará os tempos de bartender e preparará três drinques.
Já Troisgros preferiu manter o mistério, mas diz que preparou uma surpresa para o amigo. Pesquisando, conta o chef, ele descobriu um prato muito importante na trajetória de Vik, e, no encontro, revelará a receita “secreta” ao público.
— Quero tocar na alma, na essência e nas lembranças do Vik, e surpreendê-lo com uma receita que certamente o emocionará — afirma Troisgros.
O Mercado B tem patrocínio da Fecomércio e apoio de Deli Delícia, Unimed e Chevrolet.
Shows, feiras e oficinas
Além dos encontros entre chefs e artistas, o Mercado B oferecerá muitas outras experiências ao público. Haverá desde quiosques de comida vegana aos de restaurantes conceituados, como Barsa e Naga, bem como food trucks badalados, incluindo Cozinha Artagão e Delfina. Estão previstos ainda shows de Julia Bosco, Jesuton, Pedro Luis e Donatinho e de performances de coletivos como Pernaltas e Bando de Palhaços.
O Mercado B vai abrigar também duas grandes feiras. A do Sítio do Moinho venderá produtos orgânicos, pães e biscoitos sem glúten, entre outros itens. Já a Carioquíssima Gourmet, sucesso na Zona Sul desde o ano passado, chegará à Barra com o desafio de agradar a um novo público. Será a primeira edição do ano, em uma versão especial para o evento, com 20 expositores: oito de decoração e 12 de gastronomia.
— Fiz um mix do que normalmente oferecemos. Teremos quiosques de doces, compotas, sanduíches, drinques e produtos orgânicos. Na Carioquíssima Gourmet, os expositores são os próprios produtores, o que casa bastante com a proposta do Mercado B — conta Nathalie Aljalali, produtora executiva do Carioquíssima.
Outras atrações serão a loja da Deli Delícia, com embutidos, frios e sanduíches; e o Social Foodtruck Seara, que oferecerá degustações gratuitas.
O Senac organizará oficinas no estilo “mão na massa”, em que os visitantes aprenderão inusitadas técnicas de culinária. Oficinas inspiradas em grandes nomes da arte estão entre as cinco previstas.
— Teremos a oficina de food design, de decoração de pratos, inspirada no Miró, em que os participantes vão associar a comida à pintura. Também teremos uma de drinques, inspirada no trabalho do Monet; e outra de cakes, em que os minibolinhos serão decorados com inspiração na obra de Gaudí — explica Gisella Abrantes, coordenadora de pesquisa de cozinha do Senac.
O palhaço Thiago Quites e a chef Gisella Abrantes estarão no evento – Agência O Globo
As outras duas serão mais conceituais: uma sobre o processo criativo na elaboração de drinques, com palestra de um barman do Senac, e outra sobre design thinking gourmet.
O evento terá ainda um espaço especial para as crianças, onde também serão promovidas atividades relacionando arte e culinária.
Num evento tão multicultural, a música terá papel fundamental. Além das apresentações principais, realizadas ao fim de cada dia, coletivos marcarão presença no Mercado B no início da tarde. Domingo, o Bando de Palhaços levará ao público seu espetáculo “Rio do samba ao funk”, num cortejo que conta a história da música carioca.
— Partimos de “Pelo telefone”, primeiro samba gravado na história, e passamos por Simonal, Tim Maia e Jorge Benjor até chegar ao funk dos anos 1990 e à Batalha do Passinho — explica Thiago Quites, um dos membros do coletivo formado em 2010.
A cantora britânica radicada no Rio Jesuton se apresenta no domingo num show acústico, ao lado de um violinista.
— Faremos um som que traz nossa identidade sonora, com parte do meu CD “Show me your soul” — revela a artista, que elogia a fórmula do Mercado B. — É possível aprender muito sobre um povo por sua comida típica. É um aspecto ao qual estou sempre muito atenta.
Confira a programação
Encontros
O palco principal do Mercado B receberá as apresentações dos chefs com os artistas. Na sexta, às 19h, Afonso Tostes, Aderbal Ashogun e Katia Barbosa; no sábado, às 18h, Vik Muniz e Claude Troisgros; e no domingo, às 19h, Carlos Vergara e Natacha Fink.
Restaurantes e Food trucks
Os restaurantes Barsa, Naga, Tia Penha, Entrerapas e Academia da Cachaça oferecerão menus especiais, em quiosques. Haverá ainda 11 food trucks, incluindo o Suddog, de Roberta Sudbrack; e três food bikes.
Shows
Na sexta, às 20h, Pedro Luis se apresenta. No sábado, será a vez de Donatinho e Julia Bosco, no mesmo horário. Domingo, Jesuton encerra o evento, às 19h15m. Participarão também a Companhia Híbrida de Dança, o Bando de Palhaços e os coletivos Pernaltas e Opavivará.
Espaço Senac
O Senac organizará oficinas de gastronomia e de criação de horta em vaso.
PUBLICIDADE
Espaço Infantil
As oficinas unirão arte e gastronomia.
Feiras
Sítio do Moinho e Carioquíssima Gourmet terão itens de gastronomia e decoração.
Serviço
A programação completa está no site mercadob.com.br. Avenida das Américas 3.650. Horários: sexta, das 16h às 22h; e sábado e domingo, do meio-dia às 22h. Entrada franca.
Fonte: O GLobo
Foto: Analice Paron
Postado por: Raul Motta Junior