Marinheiro comercializa poitas para embarcações na Praia da Urca

Da Praia da Urca, a vista que se mistura ao Cristo Redentor é a de dezenas de embarcações apoitadas na Baía de Guanabara. O que parece composição da paisagem trata-se, no entanto, de uma espécie de estacionamento marítimo. De acordo com moradores, um marinheiro da região é responsável por fazer a segurança diária das embarcações e facilitar a compra ou aluguel de poitas — que funcionam como âncora para que o barco não se mova — com a contrapartida de uma mensalidade. A Capitania dos Portos do Rio de Janeiro (CPRJ) não tem conhecimento da atividade. Em uma quarta-feira à tarde, havia mais de 30 barcos apoitados próximo à praia e uma pessoa em um bote inflável percorria o local numa espécie de vigília.

Como se tivesse interesse em ancorar uma lancha na Praia da Urca, a equipe de reportagem entrou em contato com o marinheiro que se diz responsável por cuidar das embarcações. Por telefone, ele informou que “o mar é de todo mundo” e que qualquer pessoa pode parar ali. Há, no entanto, três formas de apoitar um barco na região sob supervisão do “flanelinha”. Caso o interessado queira comprar uma poita de concreto é cobrado um valor de R$ 3.500 para uma embarcação de até duas toneladas. Já o aluguel mensal de uma poita custa mil reais. É cobrado um valor de R$ 100 por mês caso o interessado tenha uma poita e queira apenas que o marinheiro tome conta de sua embarcação. A mensalidade também é cobrada, posteriormente, para aqueles que comprarem a poita.

— Qualquer um pode parar ali sem custo algum. É um espaço público. Mas se você quiser, eu posso tomar conta da embarcação — explicou o marinheiro, afirmando que também trabalha no Iate Clube Rio de Janeiro e que aluga embarcações para passeio.

O valor fica bem aquém do cobrado pela Marina da Glória, a poucos quilômetros dali. Para se ter uma ideia, a mensalidade de uma vaga molhada para uma embarcação de 32 pés — mesmo tamanho perguntado para o marinheiro da Praia da Urca— é de R$ 2.420. A este valor são acrescidos o uso de energia e de água caso haja necessidade. Já uma vaga seca na Marina da Glória custa R$ 2.500, com pernoite de R$ 3 por pé se a embarcação precisar passar a noite na água.

A situação chamou a atenção de moradores. O advogado Marcelo Camello conta que percebeu o aumento de embarcações durante o período anterior aos Jogos Olímpicos, quando a Marina da Glória ainda estava fechada para reformas. Para ele, o que causa mais desconforto é o fato de que acontecem muitas festas nos barcos durante a madrugada.

— Notei que foram chegando mais e mais barcos. Para mim, o pior é o barulho durante à noite, me incomoda muito. O som das festas é altíssimo, com mulheres peladas dançando nas embarcações — relata Camello.

De acordo com o Comando do 1º Distrito Naval, órgão da Marinha do Brasil, todas as embarcações, sejam elas de pesca, esporte ou recreio, precisam de autorização da Capitania dos Portos do Rio de Janeiro para instalar boias de amarração. A permissão é precedida de avaliação adequada, que verifica a interferência da instalação de novas boias no ordenamento do tráfego aquaviário, na segurança da navegação e no posicionamento das demais boias já instaladas no local. Segundo o órgão, a amarração é exclusiva para quem fez a solicitação, sendo proibida a utilização por outras embarcações. Em caso de qualquer irregularidade ou falta de documentação, o proprietário da embarcação será autuado pelos inspetores da Capitania dos Portos.

Em nota, a CPRJ afirmou que não tem conhecimento do comércio de venda e aluguéis de poitas. Não soube especificar, entretanto, quantas embarcações têm autorização para parar ali. Informou, ainda, que está fazendo o levantamento de poitas não registradas na localidade a fim de serem regularizadas ou retiradas, e forneceu o número de WhatsApp (98218-6968) e o Disque-Denúncia (2104-5480) para quem quiser reportar irregularidades.

Em relação ao barulho, a Capitania dos Portos do Rio de Janeiro disse que esta não é uma atribuição da autoridade marítima e, sim, dos órgãos municipais e estaduais. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smac) informou que só realiza fiscalização em estabelecimentos fixos. Já a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) afirmou que este tipo de reclamação não é atribuição da Guarda Municipal. A Polícia Militar também informou que esta área não é de sua atuação, mas não explicou qual órgão seria o responsável.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Júlia Amin