Mangueira comemora título após 14 anos com quadra lotada

O poder dos orixás esteve presente na Marquês de Sapucaí, e não foram poucos os que se arrepiaram quando a Mangueira, vestindo Maria Bethânia, começou seu desfile com búfalos representando Oyá — como também é chamada Iansã, orixá das chuvas, ventos e raios. Passou como um arrastão pela avenida, como há muito não fazia. Foi repleta de curiosidades místicas a passagem da verde e rosa pelo sambódromo, o que reforça sua divina bênção. Uma das mais poderosas postulantes ao título, que estava empatada em primeiro até o último quesito (alegorias e adereços), o Salgueiro saiu da disputa ao perder três décimos depois de o abre-alas apagar durante ventania na passarela — obrigando a porta-bandeira Marcella Alves a jogar água na bandeira para deixá-la mais pesada. Seriam ventos de Oyá? Não é tudo: quarta-feira, dia da apuração, foi aniversário da Mãe Menininha de Gantois. Foi pelas mãos da mãe de santo que Bethânia se iniciou no candomblé.

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Durante a comemoração do título, jovens e velhos da comunidade cantavam juntos sambas consagrados da escola, como o de 2002, ano do último título, quando o Nordeste foi tema do enredo. Até os camarotes careciam de espaço — a alegria mangueirense não tinha fim. No início da apuração, cada ponto perdido pelas concorrentes era tão comemorado quanto as notas máximas da verde e rosa.

O campeonato da Mangueira, que também conquistou o Estandarte de Ouro de melhor escola com o enredo “A menina dos olhos de Oyá”, é antológico. Veio em um carnaval épico, para muitos o melhor dos últimos tempos, com quatro escolas disputando o título até o fim da apuração. Apenas um décimo separou a verde e rosa da segunda e terceira colocadas, Unidos da Tijuca e Portela, respectivamente. No mundo místico levado pelo carnavalesco Leandro Vieira à Sapucaí, o lado religioso da cantora foi a inspiração mais forte. Nascida em Santo Amaro da Purificação, Bethânia é de família católica, mas foi no candomblé que encontrou seu caminho espiritual. Leandro captou essa energia: saudou os orixás masculinos, os femininos, os velhos. A comissão de frente da escola era formada por 15 bailarinas negras, com os seios à mostra, representando guerreiras de Oyá. Uma das alas mais impressionantes foi a que homenageou Omolu, também chamado Obaluaiê, que inspira medo por ser o senhor das doenças. No abre-alas, um destaque se banhava em um chafariz representando Oxum, deusa das águas doces.

Torcedores da Mangueira comemoram o título que não vinha há 14 anos, encerrando o maior jejum da história da verde e rosa em um disputado carnaval – Alexandre Cassiano
Leandro foi além da religiosidade e mostrou também o Brasil regional, negro e nordestino, tão cantados por Bethânia. Lembrou de Carcará, Explode coração, Fera ferida, Rosa dos ventos… Como um veretano, o estreante no Grupo Especial devolveu à verde e rosa o campeonato do carnaval indo além da riquíssima obra musical e do carisma de Bethânia – e se tornou, além dos orixás e da própria Bethânia, protagonista dessa vitória tão esperada. Seu trabalho ajudou a encerrar o maior jejum da história da verde e rosa. Aos 31 anos, ele assinou apenas seu segundo carnaval na vida. O primeiro foi ano passado, na Caprichosos de Pilares, pela Série A. O artista plástico conseguiu imprimir um novo visual à tradicional Estação Primeira, que vinha de um pouco honroso décimo lugar em 2015.

Formado na Escola de Belas Artes, antes do desfile ele vinha dizendo que tinha o objetivo de modernizar a escola. O que se viu na avenida foi uma estética diferente, desde a escolha das cores dos carros e fantasias, com um pouco menos de verde e rosa, diante de mais vermelhos, laranjas e azuis. Sobre o abre-alas, em tons marrons e dourados, ele teve que mentir para a própria comunidade.

— É verdade que menti. A Mangueira sempre espera um abre-alas verde e rosa. Eu tinha um carro nessas cores e, para deixar o povo alegre, disse que aquele seria o primeiro. Eles acreditaram — contou Leandro, na festa da vitória, na quadra lotada de torcedores.

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COMEMORAÇÃO DO TÍTULO DO CARNAVAL NA MANGUEIRA

Após 14 anos, Mangueira garante título com enredo sobre Maria BethâniaFoto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Comemoração do mestre-sala da Mangueira após anúncio do títuloFoto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Festa na quadra da Mangueira após resultado do carnaval 2016Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Squel, porta-bandeira da Mangueira, beija troféu após título. Ela garantiu 40 pontos para a agremiaçãoFoto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Bandeira da Mangueira na quadra da escola durante a comemoração do títuloFoto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo

Torcedores entram na quadra da Mangueira para a festa de comemoração do títuloFoto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
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Ele acampanhou a apuração trancado no quarto de sua casa. A comparação com outro carnavalesco que, logo na estreia, fez sucesso — Paulo Barros, vice-campeão pela Unidos da Tijuca em 2004 — já começou, mas ele se esquiva.

— Não sou o novo Paulo Barros, sou um novato.

O penúltimo dez, que garantiu o título, provocou uma explosão de alegria. Era o dez que fazia o aprendiz superar seu mestre. Leandro é fã confesso do carnavalesco Renato Lage, do Salgueiro, que não poupa elogios ao estreante campeão. A vermelha e branca e a Mangueira chegaram empatadas ao último quesito, alegorias e adereços, no qual o trabalho do carnavalesco é diretamente avaliado. Renato perdeu décimos. Leandro foi perfeito, mas se sacrificou para alcançar o resultado.

— Agora só quero tirar férias. Tenho que emagrecer, engordei para caramba (10 quilos) fazendo o carnaval da Mangueira.

VITÓRIA FOI PRESENTE DE MÃE MENININHA DE GANTOIS

Enquanto no Sambódromo a Liesa anunciava as notas das escolas, longe dali, a mais de 1.600 quilômetros, no Terreiro do Gantois, em Salvador, as filhas de Mãe Menininha preparavam os acarás em homenagem ao aniversário do nascimento da mãe de santo. A data foi comemorada — “por obra do divino”, como diziam ontem —, no mesmo dia da vitória da Estação Primeira de Mangueira.

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— Este foi o presente que Mãe Menininha deu a Bethânia — contou mãe Carmen do Gantois, a filha de mãe menininha e sua sucessora como Iyalorixá no terreiro de candomblé, onde Bethânia, filha de Oyá, foi iniciada.

Com 88 anos de idade, 81 deles no candomblé, mãe Carmen era, nesta quarta-feira, a felicidade em pessoa. Ela contou que, antes de aceitar o convite da verde e rosa, Bethânia a consultou:

— Ela me procurou e eu consultei Oyá, que é vitória e alegria. Foi ela quem disse que a escola venceria. Afinal, eu ia deixar a Bethânia ir para uma coisa que não fosse boa?

Fonte: O GLobo
Foto: Alexandre Cassiano
Postado por: Raul Motta Junior