Mais venezuelanos buscam refúgio no Rio

O engenheiro Rodrigo (nome fictício), de 29 anos, trabalhava numa construtora em Valencia, na Venezuela, que prestava serviços para o governo do país. Em várias ocasiões, foi obrigado a comparecer a manifestações de rua a favor do presidente Nicolás Maduro. Numa das vezes em que se negou a participar, foi ameaçado de demissão. Em outra, ficou sob a mira de uma arma. Com medo de ser morto, decidiu fugir para o Rio de Janeiro, onde hoje ganha a vida dando aulas de espanhol e vendendo comidas típicas numa feira de gastronomia.

Vários conterrâneos de Rodrigo têm buscado também abrigo no Rio. De acordo com a Cáritas-RJ, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 2016, 47 venezuelanos procuraram o escritório da entidade, na Tijuca. Nos primeiros seis meses deste ano, já foram 45.

Para regularizar a situação no Brasil, a maioria dos recém-chegados pede o reconhecimento da condição de refugiado. De acordo com o último levantamento do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), em 2016, 3.375 venezuelanos pediram refúgio ao Brasil, um aumento de 307% em relação às solicitações de 2015.

— Os problemas da Venezuela foram ficando cada vez piores. A falta de comida chegou ao ponto de as pessoas dependerem de uma cesta básica que o governo reparte nos bairros. Em comparação ao que eu vivia lá, aqui está muito bom. Lá, um quilo de feijão custa o equivalente a R$ 20. E mesmo assim, a gente não encontra no mercado — diz Rodrigo, que vive atualmente com cerca de 1,5 salário mínimo.

Segundo país mais procurado

Morando num apartamento alugado no Estácio, ele tem medo de revelar o nome e o rosto porque teme que sua família — ele deixou os pais e uma irmã na Venezuela — possa sofrer retaliações, como ter os nomes retirados da lista oficial de pessoas que podem comprar cestas básicas vendidas pelo estado.

Segundo a Agência da ONU para Refugiados, Acnur, o Brasil foi o segundo país que mais recebeu solicitações de refúgio de venezuelanos em 2017. Até agora, foram cerca de 12,9 mil. A chegada de tantos venezuelanos ao Rio está sendo observada pelas equipes da Cáritas.

— Sabemos que são principalmente jovens adultos. No Rio, como em São Paulo, chegam pessoas que tinham alguma renda no país e vieram de avião — diz Aryadne Bittencour, agente de proteção legal da Cáritas-RJ.

Segundo ela, o maior desafio da equipe de apoio da Cáritas-RJ é ajudar os recém-chegados a provar que foram forçados a sair do país por causa da falta de respeito às liberdades políticas.

— É uma chegada grande, com causas mistas. Tem algumas pessoas com perfil mais clássicos de refugiado. Estavam envolvidas com movimento político ou eram de oposição, presos ou ameaçados durante protestos. Mas muitos acabam falando primeiro dos problemas sociais. Não é uma situação de simples escassez de alimento. Além da falta de comida e medicamento, eles relatam uma situação de violência indiscriminada, de falta de liberdade de expressão — completa Aryadne.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Guilherme Pinto / Guilherme Pinto