O conceito sobre Madureira ser reduto do samba é público e notório. Mas se algum morador tiver que listar rapidamente os principais lugares para desfrutar de um bom batuque, talvez algo importante fique de fora. Com o lançamento do Roteiro Turístico de Madureira, no último dia 3, no entanto, este tipo de problema tem menos chances de acontecer. O material, que inclui atrações de gastronomia e espaços de relevância histórica e cultural, foi elaborado pelo Sebrae com o objetivo de incrementar o comércio local.]
— Desenvolvemos um estudo de potencialidade turística no qual levamos em consideração quatro cenários: o do morador, o do empresário local, o do turista e o dos agentes de viagem. Por meio de pesquisas com representantes destes grupos, chegamos ao roteiro final. Entre os lugares mencionados, a Paróquia São Luiz Gonzaga foi a que mais me surpreendeu — afirma Jarbas Modesto, consultor do projeto.
Este levantamento foi feito entre setembro e novembro do ano passado. Além dos comerciantes e das agências de viagem, foram entrevistados 650 moradores e outros 650 turistas. E um dado deixou a equipe otimista: os dois grupos mostraram bastante interesse no projeto.
— Nós já imaginávamos que os moradores de Madureira seriam receptivos ao projeto. A comunidade é muito bairrista e tem orgulho do lugar onde mora, tanto que, no fim de semana, fica por lá. Já em outros bairros da Zona Norte, é normal ver as pessoas saindo para se divertir pela Zona Sul ou pela Barra da Tijuca — afirma Modesto.
Além da Paróquia São Luiz Gonzaga, entraram no Roteiro Turístico de Madureira as três agremiações do bairro (Império Serrano, Portela e Tradição), o Parque Madureira, o Mercadão de Madureira, o Madureira Shopping, o Baile Charme, a Casa do Jongo, a Feira das Yabás e o Pagode da Tia Doca. Para os agentes de turismo, esse trabalho foi bastante significativo.
— Muitos turistas vêm para o Brasil em busca de samba. Mas fora do período de carnaval, nós mesmos temos dificuldade de montar uma agenda bacana, já que não temos tempo de ligar para cada estabelecimento e saber se estão funcionando, os horários de atendimento etc. A partir do momento em que esse material fica pronto e é lançado, cria um compromisso junto aos representantes de cada entidade citada de se cuidar, se manter e oferecer atividades bacanas constantemente. Agora elas fazem parte de um projeto maior. Foi uma grande sacada do Sebrae fazer este roteiro— considera Alisson Fereira Lopes, que trabalha no ramo de turismo como profissional autônomo.
Para a coordenadora artística da Casa do Jongo, Lazir Sival, o projeto permitirá que o espaço amplie os conhecimentos sobre a cultura afro.
— Achei incrível a iniciativa. Fundamos a ONG em 2000 e, desde então, o foco são as crianças. Afinal, compartilhar a nossa cultura com quem representa o futuro é uma forma de resistência. Com esse espaço maior, que conseguirmos em 2015, já podemos oferecer mais atividades e ampliar ainda mais o nosso alcance — salienta ela, que completa:
— Com o roteiro, teremos uma ótima oportunidade de mostrar para as pessoas de fora que nós existimos. Por mais que sejamos incansáveis em divulgar o jongo, muita gente não conhece o movimento. Fazer parte deste material tão bacana foi muito importante não só para nós do bairro, mas para toda a população do Rio.
Passeios para um autêntico carioca
Q uem também ficou muito satisfeito com o Roteiro Turístico de Madureira foi o poeta Celso Marinho, frequentador assíduo da Casa do Jongo. Ele, que costuma visitar o local durante a semana, onde fica sentado numa cadeira admirando as crianças durante as aulas, elogiou a iniciativa.
— Este é um lugar onde encontro paz. Muitas das minhas inspirações e criações saem daqui. Outro dia, comi um doce de jiló da Tia Maria do Jongo, que estava tão gostoso que acabei compondo a música “Doce de jiló”. Espero que os turistas que conheçam o espaço se encantem tanto quanto eu com o local — diz Marinho.
O auxiliar administrativo Dennis Coelho bate ponto aos sábados no Baile Charme sobre o Viaduto Negrão de Lima, outro ponto citado no roteiro. Para ele, o trabalho do Sebrae vai deixar o perfil do público que frequenta o local mais eclético.
—Há, sim, pessoas de fora de Madureira, mas são poucas. Na maioria das vezes, parece até a festa do “oi”, com todo mundo conhecido. Acho que, com esse roteiro, além de mais gente de outros bairros, vamos ter um número legal de turistas estrangeiros, que vão deixar o evento ainda mais interessante, com uma troca cultural mais rica — observa.
De acordo com a coordenadora de turismo do Sebrae, Margareth Carvalho, o roteiro foi uma inovação às opções turísticas tradicionais. Ela diz que muitos dos que vêm de fora do país não querem apenas visitar os cartões postais, mas viver a experiência da cidade como um autêntico carioca.
— A nossa proposta foi de ir além do Corcovado, do Pão de Açúcar, das praias e das escolas de samba no período do carnaval. Para oferecer opções tipicamente regionais para os turistas, pensamos no samba como opção e, logo em seguida, veio o bairro de Madureira na cabeça. Com esse projeto, queremos que o público de fora se sinta tão íntimo da cidade, como um carioca, e queira sempre voltar.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior