Livro conta vida dos índios em Niterói antes da chegada dos portugueses

A palavra Niterói já foi escrita Nictheroy. Isso, lá pelos idos de 1500, quando os portugueses chegaram aqui. Era como os índios tupinambás, que habitavam todo o Rio de Janeiro, se referiam às formas sinuosas do litoral da região. Muito provavelmente, não só as terras do lado de cá da Ponte, mas toda a Baía de Guanabara era chamada por este nome. Nessa época, no território onde hoje está constituída a cidade viviam quatro tribos: Kurumuré, Morgujá-uasú, Akaray e Keriy. Essas e outras curiosidades sobre os primeiros habitantes da região estão no livro “O Rio antes do Rio”, escrito pelo jornalista e radialista Rafael Freitas da Silva e lançado pela editora Babilonia, que joga luz sobre esse período da História.

Na publicação, são revelados detalhes sobre a origem dos nomes de muitos locais da cidade, além dos hábitos dos primeiros niteroienses. O bairro mais populoso da cidade, Icaraí, por exemplo, recebeu o nome da tribo que habitava o local, a Akaray. Segundo o autor, a alcunha designa um dos mais reconhecíveis fósseis culturais da história da Baía de Guanabara. Na época em que os índios ali viviam, o local era um vasto areal que se estendia do mar às proximidades da Rua Santa Rosa, a 1.500 metros da costa. O terreno era coberto por pitangueiras, cajueiros, cactos e vegetação típica de restinga.

— O nome da aldeia era o mesmo do rio que passava pelo local. Akaray quer dizer Rio do Cará, cuja foz ficava no fim da praia. O cará era um peixe bem fininho, abundante no rio e muito estimado pelos índios, pois era de fácil captura — explica Silva.

A tribo Keriy vivia onde hoje está o bairro de São Francisco, mais precisamente na área ao lado do canal da Avenida Franklin Roosevelt, que um dia já foi um rio, usado para a pesca e navegação pelos índios. De acordo com o escritor, o nome Keriy quer dizer Rio da Ostra.

— Havia muitas ostras no local onde o curso d’água encontrava o mar. Por isso, os índios deram ao rio esse nome, que também foi usado para batizar a tribo — diz.

O jornalista Rafael Freitas da Silva com um exemplar do “Rio antes do Rio” – Fabio Rossi / Agência O Globo
Diferente das aldeias Keriy e Akaray, a tribo que vivia instalada onde hoje é o centro da cidade tinha o nome de Morgujá-uasú em referência ao seu cacique. Silva conta que ele era um dos líderes mais respeitados da Baía de Guanabara.

— Morgujá-uasú quer dizer maracujá grande. Ele era um grande líder, chefe e guerreiro. O grande maracujá recebeu esse nome por ter sido, provavelmente, um índio bem grande. Pode até ter sido gordo. Ele gostava muito de maracujá, que era uma fruta valorizada tanto pelos índios como pelos europeus — ressalta Silva, lembrando que a tribo se servia, na época, do rio que existia onde hoje fica a Alameda São Boaventura, no Fonseca.

A aldeia mais afastada era a dos kurumuré, que também tinha o nome em referência ao seu cacique. Ela vivia próxima à foz do Rio Maruí, na divisa com o município de São Gonçalo, onde hoje é o Barreto. Na língua tupi, kurumuré quer dizer tainha, um peixe bastante encontrado na região na época, segundo o escritor.

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— Com a tainha, os índios faziam uma farinha que durava messes. Era um peixe muito valorizado porque podia ser estocado. Quando faziam expedições muito longas para caçar, eles usavam essa farinha para se alimentar. Por ser tão importante para a vida dos tupinambás, era normal que um cacique usasse o nome como uma homenagem — conta.

DA ILHA A NITERÓI

Silva revela ainda que, apesar de ser um marco da povoação indígena na região, o índio Araribóia era de uma tribo originária da Ilha do Governador, os temiminós, que eram chamados pelo restante dos tupinambás de maracajás. Maracajás quer dizer gatos do mato. De acordo com o historiador, o pai de Araribóia era o cacique Maracajá-uasú, o grande gato do mato. Rafael conta que eles foram os primeiros a se aliarem aos portugueses na guerra contra o restante dos tupinambás que habitavam a Baía de Guanabara. Por isso, foi dado a ele e seu povo o território onde hoje está a cidade de Niterói.

— Os portugueses tinham muito contato com essa tribo. A primeira feitoria deles foi na Ilha do Governador. Depois, em 1565, o governador Estácio de Sá construiu um forte no Morro Cara de Cão e, junto com os maracajás, começou a atacar o restante dos tupinambás. Com o fim da guerra e a vitória, ele se tornou importante, converteu-se ao cristianismo e adotou o nome Martim Afonso de Souza.

Fonte: O GLobo
Foto: Luiz Ackermann / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior