Levantamento mostra que praias concentram mais roubos e furtos a turistas

Sem dúvidas, ainda há muitos encantos. Mas, em seu malfadado cotidiano, motivos não faltam para que corra mundo afora a fama do Rio de paraíso perigoso. Agora, mais um vem à tona: entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2017, o estado teve 6.494 roubos e furtos a turistas, numa violência que não se restringe à capital, e chega também ao interior. O levantamento foi realizado com base em microdados do Instituto de Segurança Pública (ISP), abertos pela primeira vez, a pedido do GLOBO. Eles revelam que, no ano em que o Rio sediou a Olimpíada, e nos primeiros dois meses de 2017, um visitante, não importa se estrangeiro ou brasileiro, foi assaltado no estado a cada uma hora e 34 minutos (uma média de 15 por dia).

A novidade nesses microdados inéditos do ISP é que eles reúnem todas as ocorrências de delegacias distritais e especializadas da Polícia Civil do estado. Até então, apenas os dados da Delegacia de Atendimento ao Turista (Deat), que só registra ataques a estrangeiros, eram conhecidos. No período analisado, foram 3.759 casos da Deat, sendo 994 somente em agosto do ano passado, quando ocorreu a Olimpíada. Os outros 2.735 assaltos, espalhados por várias unidades da polícia, estavam “escondidos” nas estatísticas.

Os cariocas que se sentem angustiados ao ver passar um turista ostentando câmeras fotográficas e celulares têm razão: a cidade do Rio concentrou a grande maioria dos episódios de violência no período analisado. Foi o endereço de 5.982 casos (92,1%), seguido — de longe — por destinos conhecidos nacional e internacionalmente como Armação de Búzios (176), Cabo Frio (128), Paraty (49), Arraial do Cabo (31) e Angra dos Reis (13).

NÚMEROS PODEM SER MAIS ALTOS

Nesse multiplicar de cenas que mancham a imagem do Rio, ontem de manhã as câmeras de videopatrulhamento da prefeitura flagraram um adolescente de 17 anos furtando uma turista francesa em Ipanema, na altura da Rua Teixeira de Melo. Pouco antes, na noite de quarta-feira, um repórter cinematográfico do RJ-TV, da Rede Globo, filmou sete jovens, pelo menos um deles armado, atacando três turistas argentinos no calçadão da Avenida Atlântica, em Copacabana. Uma das vítimas, que teve o cordão roubado, chegou a ser jogada no chão, enquanto outros pedestres passavam pelo local.

— Infelizmente, não estamos aproveitando um megalegado da Olimpíada por causa da violência. Se o carioca não se sente seguro, como o turista vai se sentir? — questiona o presidente da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis (ABIH), Alfredo Lopes, apontando que vários fatores influenciam nos números apontados pelo ISP. — A desordem urbana aumentou, e a população de rua também, com o desemprego. Outro problema é que o trabalho da polícia parece enxugar gelo. Ao mesmo tempo em que se prende, os criminosos são soltos. E os números podem até ser maiores se levarmos em consideração as subnotificações dos casos, daqueles que preferem não procurar uma delegacia.

Subnotificados ou não, os dados mostram que os criminosos fazem suas vítimas justamente nos lugares mais procurados por quem viaja ao Rio. Na capital, são nas praias — exaltadas em canções, estampadas nos cartões-postais e sucesso de likes nas redes sociais — onde acontece a maior parte dos roubos e furtos a turistas. Do Leme ao Pontal, chegando até ao recanto de paz de Grumari, foram 2.816 registros, mais até do que nas vias públicas, que tiveram 2.263 ataques a visitantes, que acabam sujeitos aos mesmos dramas que os locais costumam enfrentar. Dentro de estabelecimentos hoteleiros, por exemplo, foram 131casos; nos aeroportos cariocas, 91; em bares e restaurantes, 90; e, nos ônibus, 57. Até em lugares menos prováveis, houve assaltos, como em casas de massagem, centros de convenções ou mesmo em teatros.

Um dos casos mais graves aconteceu em fevereiro passado, quando a argentina Laura Pamela Viana, de 25 anos, foi assassinada a facadas numa tentativa de assalto na Praia de Copacabana, na altura do Copacabana Palace.

Copacabana, aliás, foi um anfitrião violento. No período analisado, o bairro ficou no topo do ranking: foram 2.492 ocorrências entre janeiro de 2016 e fevereiro de 2017, o que corresponde a 1,6% de todos os roubos e furtos a turistas na capital. A vizinha Ipanema, normalmente considerada mais tranquila por quem vem de fora, também saiu mal na foto, com 1.467 ocorrências (24,5%). Juntos, os dois bairros registraram mais de nove assaltos por dia nesse período, mais da metade de todos os casos do estado num território de pouco mais de sete quilômetros quadrados.

Depois, aparece nas estatísticas a região do Centro e da Lapa — os relatos de ataques nas imediações dos Arcos são constantes —, com 757 casos. Santa Teresa vem depois (95), seguido por Barra da Tijuca (93), Leblon (82), Galeão (72) e Botafogo (70).

Engana-se quem pensa que os turistas são alvos mais fáceis durante a noite. O período em que os criminosos agem com mais frequência é durante a tarde. Na cidade do Rio, dos relatos que chegaram às delegacias, 3.100 apontaram que os crimes aconteceram entre as 12h01m e as 18h.

HOSTEL FECHA AS PORTAS

Nem mesmo dentro de hotéis os turistas escapam da violência. Em Santa Teresa, o hostel Villa Leonor Suites, especializado em turistas estrangeiros, resolveu fechar as portas, após dez meses de funcionamento. O proprietário, Christian Gripp Gibaja, diz que a violência no bairro, associada à crise, o obrigou a jogar a toalha. Após atuar por 14 anos como funcionário de uma rede hoteleira, ele tinha largado tudo para se dedicar ao negócio próprio. Arrendou o espaço em setembro do ano passado para receber os turistas que vieram para a Olimpíada. Mas o imóvel, que encerrou as atividades em junho, passou por quatro assaltos, conforme revelou ontem o colunista Ancelmo Gois.

— Esse era um sonho. Trabalhei muito para isso. Mas, no momento, ele será adiado. E espero que um dia ele se realize. A gente fica com medo e também acaba sofrendo ameaças. É melhor fechar as portas porque não tem um órgão competente que nos proteja. Foi melhor para os hóspedes. Pegamos um cara dentro do estabelecimento, ele tinha arrombado as portas — lamentou o empresário.

Gibaja conta que, com medo, os turistas cancelavam a estadia ou passavam apenas uma noite no estabelecimento por causa dos cartazes vistos por Santa Teresa, que avisavam sobre constantes assaltos no bairro.

— Com isso, decidi atender somente aos que já haviam feitos reservas. Desde abril, a gente só estava atendendo esses casos — afirma ele, que pensa em se mudar para Portugal.

A situação, corroborada pelos números do ISP, diz o antropólogo Lenin Pires, integrante do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), são mais uma prova do fracasso das políticas de segurança no Rio.

— Percebe-se que é toda uma região circunscrita da atividade turística que supõe investimentos públicos. Bairros da Zona Sul e a Barra da Tijuca, por exemplo, a gente imagina que sejam os lugares mais bem servidos de dispositivo de segurança. Se esses lugares estão assim, imagina o restante da cidade. São indicadores gritantes de uma dificuldade no tocante às políticas públicas.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Fábio Rossi