O Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, quer superar o antigo modelo manicomial. Aos poucos, tem retirado práticas antiquadas e diminuído o número de internações. A unidade vem utilizando a arte como forma de tratamento e de aceitação da loucura. Desde 2010, de acordo com a diretora Erika Pontes e Silva, 260 pessoas deixaram de viver no instituto.
— Queremos trazer arte onde antes havia sofrimento. Acabamos com a enfermaria de crônicos e a transformamos no Espaço Travessia, onde ocorrem aulas de teatro, artesanato, música e expressão corporal — relata Erika.
Além disso, o Museu Imagens do Inconsciente funciona em uma antiga enfermaria, onde são expostas obras dos pacientes e peças históricas do instituto. O lugar está virando uma galeria a céu aberto, com artistas convidados para grafitar as paredes cinzas. Serão 16 painéis.
Um desses artistas é Rodrigo Sini, grafiteiro e aluno de Belas Artes da UFRJ. Ele oferece oficinas terapêuticas de desenho e pintura no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Linda Batista, em Guadalupe. Sini conta que começou com pichações na 3ª série, mas que foi o grafite que lhe deu objetivo na vida:
— Fui apresentado ao grafite e me apaixonei pela arte de rua. Voltei para a escola, arrumei um trabalho e aprendi a desenhar retratos. Se eu tenho facilidade de reproduzir uma foto é devido aos anos de muito estudo noAteliê Geraldo Aguiar.
A saúde mental caiu “de paraquedas” na vida de Sini, convidado por sua sobrinha a dar aula no Caps Rubens Côrrea, em Irajá.
— No início bate o preconceito, “trabalhar com maluco deve ser uma coisa muito sinistra”. Mas conforme você convive, isso muda. Eu me identifiquei com a causa da saúde mental, é um público bom de se trabalhar. Aprendo muito com eles — conta.
Sini grafitou um muro em homenagem à Dona Ivone Lara, que junto com a própria Nise da Silveira militou contra os tratamentos psiquiátricos agressivos e degradantes. Também enfermeira, a sambista Dona Ivone representa a terapia humanizada que o hospital está tentando implementar.
Outros artistas tem colaborado, como Wagner Trancoso, que faz grafites futuristas, coloridos e com elementos urbanos. Ele grafitou a própria Nise da Silveira, Clarice Lispector, Paulo Freire e outras figuras importantes para educação e cultura do Brasil. A intenção é que, com os desenhos, o hospital seja visto como parte integrante da cidade.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior