Igrejas do Rio sofrem com má conservação e vandalismo

As marcas de descaracterização da Igreja de Santo Antônio — cuja pedra fundamental foi lançada em 1608 — saltam aos olhos de quem visita o conjunto arquitetônico no alto do morro de mesmo nome, no Largo da Carioca, no Centro. Acima do altar, há tijolos aparentes no lugar de afrescos. Dos painéis de azulejo da nave, sobram apenas resquícios. E o teto de madeira contrasta tanto que parece não caber no cenário. O desalinho, fruto de uma malfadada restauração, foi parar na Justiça, e não é o único pecado a afligir algumas das joias eclesiásticas do Rio.

Na capital ou na Baixada Fluminense, patrimônios tombados sucumbem ao abandono. Há desde casos de vandalismo, como pichações de fachadas, a outros mais graves, como o da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, que foi aberta 283 anos atrás na Rua Uruguaiana (no Centro) e interditada no mês passado a pedido do Ministério Público Federal, por má conservação e risco de incêndio. Assim como muitos dos templos em mau estado, ela pertence a uma irmandade, que afirma estar falida.

O problema, no entanto, não é exclusivo de templos administrados por irmandades. Fechada há quase cinco anos e pertencente à Diocese de Duque de Caxias, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, de 1720, também pede socorro, embora seja protegida pelo Iphan. Especialista em arte sacra, a professora Elaine Gusmão integra uma comissão diocesana que tenta salvar o patrimônio. Ela conta que, em 2014, um dos amadeiramentos do retábulo cedeu, infestado de cupins. Más condições do teto e do piso reforçaram a decisão de interromper as atividades no local. Desde então, iniciou-se uma campanha de arrecadação de fundos para recuperá-la.

— Em agosto do ano passado, ficou pronto um projeto executivo para o restauro. Acreditamos que, dentro de dois meses, conseguiremos iniciar essas intervenções — diz Elaine.

Faz quatro anos que o auxiliar de serviços gerais Jorge Ferraz mora perto da igreja. Ele só ouviu falar por alto que a construção é o que sobrou de uma época de esplendor do século XVII, quando o ouro das Minas Gerais passava por ali.

— Nas poucas vezes que a vi com as portas abertas, percebi a calamidade. É uma pena, principalmente numa área tão carente como esta — lamenta ele.

Nem a Candelária escapa
Nem a Candelária, cenário de alguns dos casamentos mais luxuosos do Rio, escapa dos descaminhos. Os vitrais alemães têm partes quebradas. Segundo um funcionário da igreja, foram atingidos por pedradas. Procurada, a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária não respondeu.

Perto dali, a fuligem da Rua Primeiro de Março já apagou parte do brilho da Igreja Nossa Senhora do Monte do Carmo, que também tem pichações na fachada. Paredes e tetos descascando fazem parte da realidade de igrejas como a da Nossa Senhora de Lampadosa, na Avenida Passos, e da Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Rua da Alfândega.

Já a Igreja de Bom Jesus da Coluna, um santuário militar com obras iniciadas em 1705, na Ilha de Bom Jesus, incorporada ao Fundão, passou por uma restauração completa, finalizada em 2008. Mas a fachada, desgastada e cheia de manchas, não lembra um templo recuperado uma década atrás.

Há seis meses, a Arquidiocese do Rio criou uma Comissão de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural formada por clérigos, religiosos, leigos católicos e técnicos, com a curadoria do padre Silmar Fernandes. Durante o primeiro encontro da comissão, ano passado, o padre explicou que, moralmente, a Arquidiocese tem a responsabilidade de salvaguardar não apenas seus bens, mas também os administrados por irmandades, ordens terceiras e institutos independentes.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior