Com mais de dois meses de quarentena, quem pode ficar em casa tem se mantido neste ambiente praticamente em tempo integral. Com isso, a quantidade de exercício realizado caiu drasticamente, bem como a de movimentos puros e simples. Quem trabalha em home office, alertam especialistas, precisa ficar ainda mais atento para não passar horas seguidas diante do computador.
— Por mais que se trabalhasse sentado, havia o deslocamento até o trabalho, a hora do almoço, as pausas para ir ao banheiro, beber água ou falar com um colega. Em casa, andamos muito menos. E é muito ruim para o corpo ficar sentado o tempo todo. Por exemplo: se o quadril fica parado muito tempo, perde força, e, quando a gente levanta, o peso do corpo sobrecarrega os pés — explica a fisioterapeuta Paula Tolussi.
Ela aconselha as pessoas a se levantarem periodicamente e a deixarem os pés descalços ou calçarem meias confortáveis. Na estação de trabalho, deve-se deixar os pés nos chão, o que ajuda a manter a coluna ereta:
— Os pés foram feitos para ficarem soltos. Ajuda a fortalecê-los. Tem gente que pode estar sentindo dor sem usar sapatos, mas isso é porque começa a trabalhar regiões que antes não podia, pois os pés estavam sempre presos; e as articulações, imobilizadas.
A fisioterapeuta também recomenda o uso de tênis para fazer atividade física:
— E é importante fazer exercícios leves e naturais, como se sentar e se levantar da cadeira. Alongamento também é ótimo.
O ortopedista André Perin Shecaira acrescenta que, na hora do trabalho, o monitor deve estar na altura dos olhos. Ele indica o uso de óculos com lentes polarizadas, que absorvem a luminosidade da tela. Os cotovelos devem ficar apoiados.
— Braços suspensos favorecem tendinites — diz.
Nos exercícios em casa, deve-se tomar cuidado para não fazer nada além de sua capacidade física, frisa. Ele sugere que a pessoa fique em frente ao espelho:
— Isso aumenta o grau de consciência corporal. E é preciso prestar atenção no piso: fazer atividades em cima de um tapete pode causar um escorregão. Uma dica é recorrer a vídeos e aplicativos que ensinam a forma correta de executar os exercícios.
Professor da academia do Tijuca Tênis Clube, Felipe de Moraes destaca os benefícios que a atividade física proporciona também para a mente.
— Lavar louça por meia hora não dá uma sensação de prazer, mas caminhar por este mesmo tempo, sim! Quando a endorfina (hormônio que causa relaxamento) é liberada, o humor melhora. Atividade física é saúde para o corpo e a alma – frisa o professor, que dá dicas de exercícios em seu perfil no Instgaram, o @pipedemoraes.
Há quem diga que, mesmo seguindo uma rotina de exercícios em casa, o corpo não é mais o mesmo de dois meses atrás. Claudio Damas, pioneiro em ministrar aulas ao ar livre no Armazém do Engenhão e professor de academias no Engenho de Dentro, reconhece que a perda de condicionamento físico e de tônus muscular na quarentena é inevitável. Ainda assim, garante que se mexer do jeito que dá é muito melhor do que ficar sentado no sofá:
— Há perda de rendimento e de massa muscular porque não se tem em casa os mesmos aparelhos da academia, nem o auxílio de um professor ao seu lado. Mas é possível recuperar essas perdas dois meses depois que o aluno voltar para a academia e seguir o mesmo nível de treino que tinha antes da quarentena. Como a vida mudou com a pandemia, eu aconselho quem não tem o hábito de se exercitar a rever os seus conceitos. Mais do que nunca, as pessoas devem se conscientizar da importância de cuidar da saúde — diz Damas, que pode ser encontrado no Instagram no perfil @claudio_damas.
A cardiologista Tathiana Balthazar, membro da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio, é uma entusiasta dos ganhos que a atividade física proporciona. Mas a especialista alerta para os cuidados que é preciso tomar caso a escolha seja acompanhar aulas disponíveis na internet. Principalmente se a pessoa é sedentária.
— Se o indivíduo é saudável, ativo e não tem queixa cardiológica, acho interessante e seguro que se utilize dos recursos das redes sociais como estímulo para fazer atividade física. Mas se a pessoa tem ou já teve alguma doença cardiológica, o que seria um aliado para a prevenção de doenças pode representar um grande risco. Durante os exercícios, ao primeiro sinal de palidez, sensação de desfalecimento, náusea, vômito, palpitação ou cansaço desproporcional, a atividade deve ser interrompida. Em seguida, é preciso que o caso seja avaliado por um cardiologista — orienta a especialista.
Membro da Câmara Técnica de Fisioterapia do Trabalho do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do Rio de Janeiro, Patricia Pinto (@fisiopatriciapinto) diz que o isolamento trouxe não só a exacerbação de dores e desconfortos já existentes, como também a incidência de novas queixas, muitas delas decorrentes da adaptação inadequada do local de execução da tarefa. Ela destaca a importância das consultas on-line para que as pessoas recebam orientações profissionais sobre o que pode ser feito para adaptar a casa para o trabalho a partir de soluções simples:
— É possível fazer adaptações com o que se tem em casa, sem comprar nada. Às vezes, até mesmo um balde pode ser usado para ajudar a melhorar a posição no home office.
Fisioterapeuta do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral, Helder Montenegro explica que há dicas simples, mas muito importantes para cuidar do bem-estar do corpo durante a quarentena. A primeira delas é manter, literalmente, os pés no chão.
— A postura ideal em uma mesa de trabalho é quando você consegue flexionar as pernas em 90 graus e colocar os dois pés firmes no chão. Caso você seja baixo e não consiga alcançar o chão, use um apoio para não deixar os pés “voando”, como uma caixa de sapatos ou um banquinho —explica o fisioterapeuta.
Veja dicas para se manter ativo na quarentena
Em home office:
Mantenha o corpo em movimento: levante-se a cada 40 minutos para andar pela casa.
Sente-se com os pés e os calcanhares apoiados no chão; isso ajuda a manter a coluna ereta e a evitar dores.
Fique descalço ou use meias que não comprimam os pés.
Em caso de dor, uma boa dica é massagear os pés com uma bolinha de tênis, comprimindo os pontos onde há incômodo .
Faça exercícios com os pés, flexionando os dedos e separando-os uns dos outros: o home office é uma chance de trabalhar articulações que em geral ficam imobilizadas pelos sapatos. Mexa um pé de cada vez.
Coloque o monitor na altura dos olhos e, mesmo que não use óculos de grau, procure usar lentes que absorvam a luminosidade da tela.
Posicione o teclado e o mouse de forma que os cotovelos fiquem apoiados: se os braços ficarem suspensos, corre-se mais risco de desenvolver tendinites.
Na hora do exercício:
Exercite-se usando tênis, para prevenir lesões.
Faça aquecimento antes de começar a atividade.
Alongue-se após os exercícios.
Posicione-se diante de um espelho, para observar seus movimentos. Vídeos e aplicativos que ensinam a forma correta de executar cada um também são uma boa opção.
Exercícios simples, como caminhar pela casa ou sentar-se e levantar-se da cadeira, também são eficazes.
Sedentários podem fazer caminhadas pela casa, incluindo a estacionária, uma espécie de marcha sem que se saia do lugar.
Subir e descer as escadas do prédio ajuda a trabalhar a parte cardiovascular.
*Sugestões do ortopedista André Perin Shecaira e da fisioterapauta Paula Tolussi.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Divulgação