Filhos optam por serem vizinhos das mães por praticidade

Morar com a mãe significa, entre outras mordomias, ter sempre — e independentemente da idade — a cama arrumada, as roupas passadas e cheirosas, o quarto limpo e organizado, xampu no banheiro, o chinelo no lugar certo, o bife partido no prato e aquele colinho que só ela sabe dar. Abrir mão de tudo isso, quando chega a hora de sair de casa para um voo solo, pode ser bem difícil. A solução de muitos é continuar por perto e tê-la a alguns passos de distância ou, no caso da nutricionista Alexandra Marinho, a oito andares de diferença. Assim, ela poder acionar Maria Gracia Azevedo sempre que precisa.

— Não tenho uma pessoa no meu apartamento para me ajudar, a não ser uma diarista, que vem uma vez por semana. Cuido da casa, das crianças, trabalho fora. Se não fosse ela para me cobrir, eu não teria como deixar meus dois filhos, que são pequenos, sozinhos — conta Alexandra, que mora na Rua Alfredo Cescchiatti, na Barra, destacando que faz questão de deixar anotado o cardápio a ser preparado diariamente. — Se eu deixar isso a cargo da minha mãe, ela vai dar arroz, feijão, bife e batata frita para eles sempre. Como sou nutricionista, faço questão de cuidar da programação alimentar dos meninos.

Mas se avó é mãe duas vezes, errar a dose na relação com os netos é praticamente regra. E a aposentada Maria Gracia não foge a ela:

— A casa fica de cabeça para baixo quando estou tomando conta deles. Dou mais dengo, faço mais as vontades. Outro dia, minha filha brigou comigo porque dei bala para os meus netos. Eu sou avó, posso.

É com esse mesmo pensamento que a engenheira aposentada Célia Borges cuida das netas enquanto o filho Leonardo, vizinho dela na Avenida Embaixador Abelardo Bueno, na Barra, sai para trabalhar.

— Ele morava na Avenida Bandeirantes, que é perto, mas não tanto quanto estamos agora. Quando a minha nora engravidou da segunda filha, eles precisaram da minha ajuda para cuidar da bebezinha e se mudaram para a rua em que moro para facilitar. Uma tem 15 anos e a outra, 10, e até hoje elas passam o dia inteiro na minha casa. Eu adoro — diz Célia.

Célia (ao centro) abrigou o filho, a nora e as netas durante os Jogos do Rio – Agência O Globo / Analice Paron
E, como em coração de mãe, na casa de Célia sempre cabe mais um. Teve uma ocasião em que coube a família inteira.

— Às vezes, o meu filho faz home office justamente no dia em que a faxineira dele está limpando a casa. Para não atrapalhar a moça, ele vem aqui para o meu apartamento e trabalha na varanda. Aí, aproveita e malha na academia do condomínio e janta comigo o com as meninas — acrescenta ela, que já abrigou até a nora em seu apartamento. — Quando ela engravidou da mais nova, ficou a maior parte da gestação na minha casa. E, durante a Olimpíada, eles alugaram o apartamento e vieram os quatro para ficar comigo. Foi maravilhoso nós cinco juntos. Desde que me aposentei, minha vida é trabalhar como Uber gratuito das minhas netas. E eu faço isso com o maior prazer.

A PEDIDO DOS FILHOS, ELAS SE MUDAM

Quando se casou, a fisioterapeuta Simone Rodrigues deixou a casa da mãe, em Caxias, para morar na Barra. Alguns anos depois, sua irmã, a professora de educação física Raquel Lattouf, viveu exatamente a mesma situação. A distância do colinho da mãe, no entanto, falou tão alto que e elas chegaram a fazer chantagem emocional para convencer a aposentada Cléa Ribeiro a comprar um apartamento no Rio 2, onde as duas já residiam.

— Elas falavam: “Poxa, mãe, se o papai fosse vivo, ele viria para perto da gente”. Depois de decidida, ainda levei oito meses para me mudar. Aqui é muito diferente de onde eu morava. Em Caxias, era tudo perto, tinha gente na rua, eu nunca ficava sozinha. Para ocupar meu tempo, passei a cuidar dos netos — diz Cléa.

E, desde então, o que não falta é trabalho para ela. É colégio, balé, ginástica artística, curso de inglês, shopping… Menos natação.

— Só tenho como levá-los nos lugares em que posso ir a pé. Quando é necessário carros, as mães têm que dar um jeito — justifica ela.

No condomínio ao lado, o Cidade Jardim, quem chegou recentemente, atendendo a um pedido do filho, foi a mãe do ator Carlos Bonow, a dona de casa Elaine. Ela morava no Leblon com o marido quando deixou a Zona Sul para ser vizinha do ator.

— Com a minha irmã, que tem uma filha já grande, de 16 anos, em Laranjeiras e eu aqui, ela não ficava perto de filho algum. Então, eu a convenci a vir para perto de mim. Assim, ela me dá aquela força quando eu preciso sair. Outro dia mesmo, fui me apresentar com “Cinco homens e um segredo”, e a minha mulher tinha viajado. Aí, eu a requisitei para ficar com o Conrado. Durante a semana, o neto não dá muito trabalho, porque estuda o dia inteiro. É mais nos sábados e domingos mesmo, por causa do meu trabalho — conta Bonow.

A ausência do filho, por motivos profissionais, nunca foi problema para Elaine. Inclusive, no Dia das Mães, Bonow estará em Curitiba com a peça. Mas a data não vai passar em branco.

— Já não é a primeira vez que isso acontece, e eu entendo perfeitamente. Em casos como esse, nós almoçamos num fim de semana antes ou depois da data. Para mim, não tem o menor problema. Pelo contrário, porque conseguimos reservas em restaurantes mais facilmente. Dia das Mães, para mim, não é só no segundo domingo de maio. É enquanto eu existir — comenta ela, destacando que adora ficar com o neto, de 8 anos, quando o filho viaja. — O Conrado é um ótimo menino, tem a maior paciência comigo.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior