Famílias isoladas em Niterói são descobertas durante obras de túnel

Na década de 1980, depois de muitos anos de trabalho numa fazenda na fronteira entre Rio e Minas Gerais, o falecido marido de Demildes da Conceição, de 75 anos, recebeu do patrão a oferta de viver numa faixa de terra que ele tinha longe dali, num dos extremos de Niterói. A família se instalou num espaço suficiente para plantar e criar bois, isolado do movimento da cidade e cercado apenas por fazendas, na área do Morro da Viração, em cima de onde hoje fica o bairro da Fazendinha. De lá para cá, a realidade do lugar pouco havia mudado. Não se chega lá de automóvel, nem há serviços públicos básicos, como água e coleta de lixo. Desde o ano passado, porém, com as obras da Transoceânica, as 11 casas existentes atualmente no local, acima da área onde está sendo construído o Túnel Charitas-Cafubá, foram finalmente descobertas pelo poder público.

— Quando vim para cá, não tinha nada em volta. Até hoje não tem, né? Olha a tranquilidade — mostra Demildes, apontando para a natureza em volta de casa. — Quer dizer, agora tem esse túnel aí, né? De vez em quando, treme tudo em casa. Mas eu adoro isso aqui.

ESCONDIDOS NA MATA

Ela vive numa casa mínima, mas que parece até maior do que é pela falta de mobília e objetos. Tem, basicamente, uma cama e uma bancada com uma pequena televisão. A luz, conta, era “gato” até o ano passado, quando finalmente foram instalados relógios de energia. Foi o único serviço público que chegou ali. Todas as 11 casas da comunidade foram erguidas por parentes de Demildes. Duas das moradias, no entanto, recentemente foram ocupadas por “gente de fora, que trabalha na obra do túnel”.

Curioso é que quem olha para o morro não vê nada. Não dá sequer para imaginar as casas ali; menos ainda que a vila é cortada por um córrego de água limpa. Nem que ao longo do curso existe uma pequena cascata, na qual é possível se banhar. É a mesma água que abastece as casas, já que a rede pública nunca chegou ali.

Nativos. Dona Demildes ao lado de filhos e netos na ponte sobre o córrego que corta as casas da família – Hermes de paula/ Agência O Globo
Mesmo em cima do movimentado canteiro de obras, o clima ainda é de um sossego quase campestre. No começo, era de fato uma área rural, onde Demildes e o marido plantavam batata, abóbora, aipim e outros alimentos, além de criarem bois. A tradição agrícola foi abandonada, e, hoje, a maioria dos filhos trabalha na construção civil ou no comércio. Atualmente, o silêncio passou a ser atravessado pelo som das sirenes, seguido por explosões na rocha. A tremedeira durante as detonações preocupa um dos filhos dela, Silmar Mendonça. Ele mostra uma rachadura na parede que é vista tanto pela parte interna como pelo lado de fora de uma das casas.

— O engenheiro da obra do túnel veio aqui há meses. Isso estava de um jeito; agora está muito pior. Dá medo, parece que a casa está rachando — conta.

POSSÍVEL REMOÇÃO

Além de engenheiros, assistentes sociais e agentes de meio ambiente passaram a fazer visitas ao local após o início das obras. Neto de Demildes, Rafael Mendonça contou que a prefeitura acenou para as famílias com a intenção de retirá-las de lá. Elas foram cadastradas, segundo a Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, no Cadastro Único do governo federal, via que dá acesso ao programa Minha Casa, Minha Vida. Sair de lá, segundo Rafael, não chegaria a ser um problema para os moradores, desde que houvesse mais transparência e informação:

— Nosso medo é não saber exatamente para onde iríamos, como e quando. As famílias vivem juntas aqui, e não queremos ser jogados em lugares diferentes.

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Por meio de nota, o coordenador do Grupo Executivo para o Crescimento Ordenado e Preservação das Áreas Verdes, Gilson Chagas, informa que a prefeitura reconhece que aquelas famílias moram no local há muito tempo e diz que o bem-estar dos moradores é prioridade, porém combinado com a preservação da região (que se caracteriza como área de proteção ambiental).

Segundo ele, a prefeitura fará um estudo social com as famílias, e o local continuará a ser monitorado, para que não surjam novas construções. Acrescentou ainda que o município atuará de forma a evitar riscos ao meio ambiente e à comunidade, mas com a participação dos moradores.

A Empresa de Moradia, Urbanização e Saneamento (Emusa), por sua vez, informa que as rachaduras identificadas numa das casas por Silmar Mendonça devem ser comunicadas por ele ao consórcio responsável pelas obras e à Secretaria de Assistência Social, para que técnicos possam ir ao local e emitir o parecer.

Fonte: O Globo
Foto: Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior