Especialistas levantam dúvidas sobre a qualidade do material utilizado no programa Pavimenta Rio, da prefeitura

Anunciado em outubro pela prefeitura, o Pavimenta Rio, programa de recuperação de vias públicas que prevê investimentos de R$ 100 milhões até a véspera da eleição do ano que vem, já tem seus deslizes. Nesta segunda-feira, dois ônibus bateram no Aterro do Flamengo, uma das primeiras áreas a receber asfalto novo. O acidente, que deixou seis pessoas levemente feridas , não teria maiores consequências se o Consórcio Intersul, responsável por um dos veículos, não tivesse alertado, em nota, que a colisão foi a oitava naquele trecho desde a colocação nova tinta.

Na avaliação de especialistas, a prefeitura pode ter falhado na composição da massa asfáltica utilizada na via. O suposto uso de uma quantidade inferior à dosagem ideal de brita teria aumentado o risco de derrapagens. Isso porque a brita é um material granulado que aumenta o atrito e a aderência do veículo à pista. O presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, destacou que o problema pode se tornar ainda mais grave em locais com características peculiares, como o Aterro do Flamengo.

— Geralmente, quando se projeta curvas em uma via, o traçado externo é mais elevado. Isso confere uma boa aderência aos veículos. No Aterro, as pistas não foram projetadas assim. Por isso, é preciso um asfalto com uma concentração maior de material granulado— explicou Celestino, acrescentando que uma eventual falha pode ser corrigida sem a necessidade de remoção completa do asfalto aplicado.

O coordenador dos cursos de engenharia da Universidade Veiga de Almeida, Júlio Cesar da Silva concordou com a análise:

— O mais provável é que tenha havido uma falha na aplicação dos compostos, talvez por pressa para fazer o serviço. O ideal é que, antes de prosseguir, a prefeitura reavalie o programa.

Em nota, o Consórcio Intersul se referiu ao trabalho realizado no trecho onde aconteceu o acidente como “pintura”. “Durante a chuva da manhã, a condição da pista, que foi pintada recentemente, piorou consideravelmente”, criticou a empresa. A colisão mais grave envolvendo um dos oito ônibus da viação aconteceu no último dia 1º, quando um passageiro de 61 anos morreu e 21 ficaram feridos . Na ocasião, um motorista criticou as condições da pista.

O material utilizado no Aterro do Flamengo foi fabricado nas usinas de asfalto da prefeitura. Procurada, a Secretaria de Infraestrutura, Habitação e Conservação informou que “não há qualquer problema em relação ao microrrevestimento” e que “os trechos já concluídos estão em perfeitas condições”. O órgão da prefeitura alertou para a necessidade de motoristas respeitarem os limites de velocidade. Ao todo, o Pavimenta Rio deverá ter 150 quilômetros de pistas recapeadas. O programa também já chegou ao Leme, à Carobinha (em Campo Grande) e na Estrada Sete Riachos (em Santíssimo).

Queixas em posto
Apesar de a prefeitura afirmar que não há problema com o material do Pavimenta Rio, funcionários de um posto de combustíveis do Aterro estão convencidos de que ele existe e é grave. Frentista há dez anos, Antônio Marcelo contou que muitos clientes reclamam da pista quando param para abastecer:

— Eles dizem que essa pintura feita pela prefeitura deixou a pista muito lisa.

Letícia Alves, que atende na loja de conveniência do posto, confirmou:

— Eles reclamam bastante da obra, chegam a dizer que não botaram asfalto, só passaram uma tinta preta. E vale lembrar que os carros trafegam em alta velocidade pelo Aterro, tanto de dia quanto de noite.

O autônomo Leonardo Barbosa, que costuma dirigir pela região, também levanta suspeita sobre a qualidade do serviço:

— Não houve um recapeamento. O que colocaram foi um material escorregadio.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior