Emaranhado de fios da rede aérea da cidade polui paisagem e provoca riscos

Às vezes, é difícil distinguir o que é do que não é uma gambiarra. O emaranhado de fios nas ruas cariocas é tamanho que faz até as principais atrações da cidade saírem mal na foto. Se Botafogo, por exemplo, tem algumas das melhores vistas do Cristo Redentor, enquadrá-lo sem um cabo de energia, telefonia ou TV pode ser tarefa árdua em vias como a São Clemente e a General Polidoro. De alguns pontos da Urca, o bondinho do Pão de Açúcar também acaba encoberto. E os mafuás só pioram quanto mais distante se está das zonas turísticas.

Ainda são poucas as áreas — como a orla da Zona Sul e trechos do Centro, da Zona Portuária e da Barra — com redes subterrâneas. Só 15% da rede elétrica da Light no Rio estão no subsolo. A maior parte da fiação da concessionária, assim como de outras empresas e da companhia de iluminação pública, continua pendurada em cerca de 390 mil postes.

Com base no Plano Diretor da cidade, um decreto de 2011 tentou mudar esse quadro, ao estabelecer prazo até 2016 para que todo o cabeamento fosse enterrado. Mas esbarrou numa liminar do STF, de 2013, que acatou argumentos como os da Light, que previa gastos de R$ 20 bilhões para cumprir a determinação.

Desde então, os nós só embolam mais. Prefeitura e operadoras privadas afirmam fazer sua parte. No caso do município, a Rioluz diz que, a partir de 2011, passou a executar todos os novos projetos de iluminação pública com rede subterrânea. Atualmente, de acordo com a companhia, na Zona Sul, no Centro e na Barra da Tijuca, 85% de seus fios estão no subsolo. Nas demais áreas, esse percentual cai para 25%.

Idealizador em São Paulo da campanha #malditosfios, criada em 2010 e que virou tema de livro, o jornalista Leão Serva ressalta que o enterramento da rede é fundamental para a segurança. Ele cita um estudo do Edison Electric Institute — mantido por empresas produtoras e distribuidoras de energia nos EUA — que conclui: com a matriz aérea, há 13 vezes mais interrupções do fornecimento de energia do que com a subterrânea. O jornalista acrescenta que a ONU já alertou para os riscos devido ao aumento dos fenômenos climáticos, como tempestades. Isso já fez com que todas as capitais europeias enterrassem suas redes.

— O enterramento virou uma imposição do ponto de vista da segurança ambiental. Morrem pessoas eletrocutadas no Brasil. Chove, cai um fio, que pode matar alguém que passa pela rua. A questão, portanto, deixou de ser só estética — afirma Serva, dizendo que, diferentemente de São Paulo, o Rio, pelo menos, começou a enterrar sua fiação com o projeto Rio Cidade, a partir de 1993.

No entanto, a julgar pela poluição visual das ruas, somada aos riscos de milhares de ligações clandestinas feitas pela população, fica claro que foi suficiente. Na esquina da Rua São Clemente com a Dezenove de Fevereiro, em Botafogo, o novelo tem espirais de fios enrolados, suportes de todo tipo para prendê-los e alguns que parecem não ter utilidade alguma. Na Rua Afonso Cavalcanti, na Cidade Nova, há dez rolos de cabos de telecomunicações num único poste.

Mesmo no entorno da nova Praça Mauá, o lado da calçada próximo ao Edifício A Noite ficou com a fiação aérea, assim como o Largo São Francisco da Prainha. É comum também encontrar regiões em que o cabeamento é subterrâneo e, mesmo assim, persistem fios improvisados para acender a iluminação pública ou sinais de trânsito. É o que ocorre na esquina da Avenida Atlântica com a Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana, na Avenida Venezuela, na Saúde, e nas esquinas da Avenida Rio Branco com as ruas Dom Gerardo e do Acre, no Centro.

Na Cinelândia, de poste em poste da iluminação pública, um fio atravessa em frente ao Teatro Municipal. De muitos ângulos, quem tenta fotografar a construção histórica precisa se contentar com a fiação enfeiando a imagem.

— Atrapalha muito. Por ser uma das principais atrações da cidade, acredito deveriam encontrar maneiras de solucionar isso — diz a turista gaúcha Lisangela Moraes.

O desafio é parecido diante de outros patrimônios do Rio, como as Casas Casadas, em Laranjeiras, e o edifício do Instituto Benjamin Constant, na Urca. Da rua, os fios também viram obstáculo aos cliques das palmeiras do Jardim Botânico. Isso enquanto, no decreto de 2011, corredores turísticos, regiões próximas aos BRTs e de instalações olímpicas, além de áreas em processo de reurbanização, como o Porto, seriam as primeiras a passar pelas mudanças.

Já na Zona Norte, por volta das 12h45m da última quinta-feira, técnicos de uma companhia de telefone aproveitavam o sinal fechado na Avenida Radial Oeste, perto da Mangueira, para atravessar mais um fio no caminho. Na Avenida Marechal Rondon, na altura de São Francisco Xavier, havia fios a centímetros da cabeça dos pedestres na calçada. E quanto mais distante do Centro, a situação piorava.

Remendos e fios cortados
No Engenho Novo, na Rua Barão do Bom Retiro, a algazarra é acrescida de espécies de caixas azuis que indicam remendos nas redes de telefonia, muitos deles necessários depois do furto de cabos. Entre um poste e outro, chega a existir seis dessas emendas.

— É um balaio de gato. Sempre aparecem fios cortados. Tenho medo de um dia acontecer um curto-circuito — diz Jorgina Pereira, moradora do Jacaré.

Enquanto isso, no subterrâneo, só da Light são cerca de seis mil quilômetros de rede, se considerados, além do Rio, trechos da Baixada e do Vale do Paraíba. Segundo a empresa, essa malha atende cerca de 430 mil clientes (10% do total da empresa). Atualmente, a concessionária informa não haver um projeto “para enterramento massivo” da rede. Além disso, ressalta que o custo de construção do cabeamento subterrâneo pode superar em mais de dez vezes o do aéreo.

As demais empresas que têm cabos nos postes do Rio não informaram quanto de sua rede é subterrânea ou aérea. A NET, no entanto, afirma que obedece a padrões de segurança e realiza projetos de enterramento, em parceria com a prefeitura. A Oi afirma atuar conforme premissas estabelecidas pelo setor. A TIM também garante que adota medidas para a instalação correta de cabeamentos. A Vivo ressalta cumprir a legislação vigente. Enquanto a Claro informa não ter rede aérea no Rio.

Fonte: O Globo
postado por: Raul Motta junior